ABJ    |    ABJ Media Center    |    Canal da Imprensa    |    Diário do Campus    |    O Parcial
  home |
 

Escondido entre aspas

Cristiane Lüscher

Lembra daquela reportagem investigativa super empolgante e abarrotada de denúncias que você leu recentemente? Aposto que tinha uma ou duas fontes secretas para apimentar o drama. Mas tais fontes não estão só em grandes reportagens. Jornais estampam diariamente o que "fontes da diretoria revelam", "um representante da comissão disse", "uma autoridade próxima do deputado afirmou". Declarações em off denunciam tragédias, localizam assassinos, derrubam e elegem governantes. Mas caso a falsidade de uma das afirmações é comprovada, restam ao jornalista duas saídas: jurar que a fonte desmentiu o que disse, ou assumir que o recheio das aspas é maquinação sua.

O off the record (em português, fora dos registros) é fruto do acordo entre a fonte e o repórter, portanto, editor nenhum pode meter o bico. Esse recurso existe unicamente para preservar a fonte quando estiver em jogo a sua própria segurança, a seriedade da informação ou o interesse da sociedade. Tudo começa no calor da entrevista, quando o indivíduo insiste: "Mas, por favor, não coloque meu nome no texto!", ou algo mais sutil como "porque não deixamos isso em off?"

No entanto, o anonimato pode trazer conseqüências desagradáveis. É comum ouvir casos em que fontes inescrupulosas usaram do sigilo para espalhar difamações e calúnias. O resultado é conhecido como acusação em off e defesa em on, intriga na qual a vítima das declarações observa sua integridade à sorte de abutres. O delator? Escondido entre aspas. Que diga o vice-presidente do Superior Tribunal Federal (STF), Gilmar Mendes. Enquanto advogado-geral da União, afirmou à agência Globo: "Considero um absurdo ter de responder a declarações de ministros do STF dadas em off".

Amparo legal

Se estivesse fora do Brasil, o jornalista envolvido no caso acima provavelmente estaria preso. A maioria dos países condena à prisão repórteres que se recusam a identificar uma fonte confidencial. O americano David Kidwell, do Miami Herald, foi condenado a 70 dias de prisão em 1994, apenas porque se negou a testemunhar no tribunal sobre a confissão de uma fonte anônima. Por sorte, ele teve apoio da Sociedade dos Jornalistas Profissionais (SJP): "Forçar um repórter a revelar outros aspectos das entrevistas feitas sugere que ele é investigador da polícia. Por que alguém conversaria com um repórter se soubesse que seus comentários iriam parar em casos da promotoria ou de defesa de um advogado?", protestou o presidente da SJP, Steve Geimann.

Em latitudes tropicais a pele do jornalista está garantida. A Constituição brasileira, bem como a Lei de Imprensa garantem que o jornalista não pode sofrer punição alguma caso se negue a revelar a identidade de sua fonte. O artigo 5.º, no item XIV da Constituição diz: " É assegurado a todos o acesso à informação e resguardado o sigilo da fonte, quando necessário ao exercício profissional". Já a Lei de Imprensa, no artigo 71: "Nenhum jornalista ou radialista, ou, em geral, as pessoas referidas no art. 28, poderão ser compelidos ou coagidos a indicar o nome de seu informante ou fonte de suas informações, não podendo seu silêncio, a respeito, sofrer qualquer sanção, direta ou indireta, nem qualquer espécie de penalidade."

Produtores de aspas

Em junho de 2007, a Folha de S.Paulo publicou uma série de notícias exclusivas sobre o indiciamento de Vavá, irmão do presidente Lula, durante a Operação Xeque-Mate da Polícia Federal. Os supostos furos de reportagem eram sustentados em uma fonte secreta. Após divulgar o indiciamento, o jornal anunciou que o presidente se irritou com a notícia da operação e reclamou de não te sido avisado. No dia seguinte, a versão era outra: Lula estaria irritado por não saber do indiciamento, em vez da operação, como haviam publicado. Sem se dar conta do erro, no mesmo dia a Folha divulgou que o ministro Tarso Genro alertou Lula sobre a operação duas horas antes da busca e apreensão. Que confusão! O off pode até originar grandes furos, mas não consegue remediar tais deslizes.

Falando em deslizes, não se pode deixar de traçar o perfil de uma casta de repórteres sabichões que transcrevem suas idéias e atribuem a fontes confidenciais. Entendem ser esta a forma mais fácil de opinar sobre o que bem entender, sem se responsabilizar diretamente por eventuais danos. Deveriam consultar Jayson Blair antes de prosseguir em sua trajetória genial.

Protegendo a fonte

Recorrer ao nome fictício ou apenas dizer que a fonte não quis se identificar são as formas mais comuns de esconder os informantes secretos. Esses recursos podem ser facilmente encontrados em veículos de curta periodicidade, já que o tempo para a apuração de notícia é limitado. O problema está no exagero. No G1, somente em 2007, é assustador o número de aparições do "não quis se identificar". As origens são as mais variadas: síndica de prédio, executivo do Google, ouvidora de um hospital israelense, casal de milionários que teve o cão seqüestrado, e até um oficial do Bope.

Exagero maior é constatar mais de um anônimo na mesma notícia. O Terra, em 21 de junho, divulgava a crise no tráfego aéreo baseado na denúncia de um controlador que preferiu não se identificar. No decorrer do texto: "Outro controlador, que também não quis se identificar, com medo de novas represálias...", e aparecia sua declaração aspeada. Por outro lado, o recurso de nomes fictícios é mais divertido, e exige criatividade. Apenas neste semestre, a Folha Online retratou a socióloga "Renata", a garota de programa "Cláudia", e a distribuidora de panfleto "Maria", entre outras invenções bem-sucedidas.

Em casos onde o off é necessário, o certo é explicar detalhadamente o motivo do anonimato. Na redação do The New York Times vigora um memorando desde 2005 que obriga os jornalistas a explicar as razões de não divulgarem suas fontes secretas. O ombudsman Byron Calame, esclareceu em sua coluna que os motivos devem ser explicados mesmo que pareçam óbvios, pois se a condição de sigilo foi aceita, significa que a informação é mais do que necessária. "Esta é provavelmente uma das razões porque algumas explicações passadas para o anonimato sejam tão absurdas", escreveu Calame.

Toda a informação off the record, apesar de seu caráter confidencial, deve indicar fatos e acusações comprováveis. E se os motivos do sigilo não são convincentes, nem deve ser aspeada. Afinal, o maior prejudicado em todos esses tramites é o cidadão. Felizmente, este ainda pode decidir se deseja ou não consumir o off. Se deseja ou não receber determinadas informações para resguardar seus interesses. Examine os recheios das próximas aspas que ler, questione as fontes em que confia. O off não existe para temperar drama policial, seu poder é muito maior.