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Olhos ocultos

Anita Leite

A revista Veja, de 03 de outubro deste ano, trouxe na sessão Holofote o caso de Rita Guedes. Um cantinho da página reservado à reclamação da atriz que foi fotografada em seu "momento de intimidade". Rita Guedes foi pega em plena praia do Leblon, sem a parte de cima do biquíni e em poucos minutos sua imagem estava na internet.

A repórter da revista, que nem teve cara pra perguntar, ousadamente afirmou: "Mas se você até já posou nua...", poderia ter completado: "então os interessados só poderiam ver você nesses 'momentos de intimidade' pessoalmente, já pela net você não gostou!".

Razão ou falta de razão, respostas e justificativas a parte, câmeras e gravadores escondidos já renderam muito assunto, além de processos e bate-bocas em tribunais. Mas, uma coisa é certa: Quem está em conformidade com os padrões sociais e políticos, não tem o que temer em relação às câmeras e gravadores.

Outro caso recente foi o do senador Renan Calheiros que, segundo apuração da mesma revista (Veja – 10/10/2007), decidiu espionar a vida de colegas senadores com a ameaça de divulgar informações supostamente comprometedoras. O atrevimento foi ao ponto de planejar instalar câmeras de vídeo em um hangar de táxi aéreo de Goiânia, com a intenção de filmar as idas e vindas dos colegas parlamentares e flagrá-los em alguma atividade ilegal. Ao tentar colocar o plano em prática, o comparsa Francisco Escórcio teria sido descoberto e denunciado.

De papparazzi a James Bond, imagens de câmeras escondidas fazem parte do cardápio televisivo. Mas é no jornalismo investigativo que esse método ganha sentido.

Quem pode e quem não pode?

A lei prescreve que o jornalista pode utilizar-se de meios ocultos para conseguir informações desde que seja para o bem comum. Todos podemos concordar com denúncias de políticos desonestos feitas através de câmera escondida. Mas seios de atriz global? Hum?!... Tudo é notícia? O que é de interesse do público? O que é bem comum?

Na era do jornalismo cidadão, da internet, das câmeras digitais, parece que vale tudo. O problema acontece quando o jornalismo invade o espaço reservado ao Estado e à Justiça. O uso de métodos policiais como grampos telefônicos, vigília constante das fontes, câmeras e gravadores escondidos, pode ser perigoso e ao mesmo tempo excitante para o jornalista.

O novo Código de Ética, publicado pela Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) em agosto deste ano, faz restrições ao uso de câmeras e gravadores escondidos, mas não proíbe sua utilização. Ao mesmo tempo protege a privacidade, a honra e a imagem das fontes.

A lei não é muito clara nesse aspecto, contudo, é nesse código que jornalista e fonte encontram abrigo para a liberdade de expressão.

O olhar por trás das câmeras

Enquanto para alguns o uso desses métodos é apenas ferramenta de audiência, para outros é trabalho sério. Nesse momento tecnológico do jornalismo, onde todo mundo faz notícia, o superficial e frívolo está em todos os lugares. Jornalismo de verdade ainda é, para muitos, o imergir na informação.

É debatendo, questionando, pensando que logo existiremos como profissionais responsáveis e respeitados. Quem sabe um dia, a lei seja mais clara e defina-se em relação a essa prática tão comum nessa profissão.

Enquanto isso, vale aplaudir o esforço de colegas que, tantas vezes, longe do escritório, longe de casa, esforçam-se e arriscam-se para expor ao leitor-expectador uma informação a mais, um detalhe fundamental, fazendo do jornalismo ferramenta de utilidade pública.