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O desafio da exclusividade

Rosemeire Braga

Quando se está na faculdade, uma das regras básicas no jornalismo é a fidelização das fontes. Saber preservar uma fonte é essencial para que você possa contar com ela outras vezes mais. E essa é uma prática dos veículos de comunicação. Muitos têm especialistas com quadros fixos em seus programas e assim, a fonte contribui constantemente para o veículo. Isso ocorre no rádio, na TV e também no impresso. No entanto, o fato de possuir uma fonte que contribui com um determinado assunto, não justifica o fato do veículo se restringir muitas vezes apenas ao ponto de vista dela.

A revista CartaCapital é um exemplo. Ela apresenta seções e colunas muito interessantes. Por exemplo: a coluna Sextante aborda o assunto economia, que é de grande interesse para o leitor, mas, apenas Antônio Delfim Neto apresenta o assunto a cada edição. E isso ocorre com diversos outros assuntos na revista. A coluna Linha de Frente aborda o tema cidadania, sempre com Wálter Fanganiello; a Estilo é feita por Nirlando Beirão e a Política e Esporte é feita por Sócrates. Isso pode ser verificado nas edições de 24 de outubro, 31 de outubro, 07 de novembro e 14 de novembro deste ano.

As seções da revista também possuem a mesma característica. Na seção Mais-valia, no bloco Esporte S/A, Fábio Kadow é sempre o comentarista, isso nas edições mencionadas acima. Já a seção Bravo da revista, aponta diversidade de assuntos e variação nos articulistas, o que torna interessante, afinal, é na diversidade que se consolida a unidade. No mês de outubro e novembro de 2007, esta seção não deixou a desejar, pois a variedade e disposição do conteúdo foi variada nos seus articulistas. Embora na coluna Calçada da Memória apenas José Onofre apresente os assuntos.

É importante ter uma coluna fixa de determinado profissional no veículo, assim o público acompanha a idéia do articulista a cada publicação. Entretanto, perde-se a diversidade pelo fato de não ter uma segunda opinião sobre o assunto. Sem contar que a matéria pode se tornar tendenciosa sim, afinal, essa fonte é fixa e sua relação com o veículo é fortíssima. Não que possuir colunistas seja algo ruim, mas variar as opiniões com outros profissionais da mesma área é criativo e inteligente, e isso se espera dos veículos de comunicação.

Exemplo de variedade

Outros periódicos adotam, assim como a CartaCapital, o método de colunistas fixos, porém diversificam seus articulistas. A revista Veja é um exemplo. Na seção Economia, além de tratar do que está em pauta no momento, os articulistas são variados. Na edição de 10 de outubro, Giuliano Guandalini e Cíntia Borsato abordaram as cinco questões sobre o funcionalismo. Em 17 de outubro, quem escreveu foi Denize Dweck, falando sobre os conselhos dos CEOs (sigla em inglês para designar o principal executivo de uma empresa). Em 24 de outubro, Cíntia Bosarto falou sobre a inflação Made in China. Em 07 de novembro, Juliana Duailibi fala sobre o apagão e o gás natural, e na edição de 21 de novembro, Ronaldo França fala sobre o afastamento de técnicos do Instituto de Pesquisa  Econômica Aplicada (Ipea). Nota-se acima que o nome de alguns articulistas se repete nas edições, mas eles se diversificam bastante e o leitor acompanha a trajetória.

Um ponto a se destacar na Veja, é a seção Geral. A variação de alguns assuntos da edição a torna dinâmica e desperta o interesse pela leitura. Por exemplo, em 24 de outubro, ela falou sobre polícia, religião, entretenimento, demografia, etiqueta e saúde. Em 31 de outubro, abordou tecnologia, polícia, sociedade, aviação, educação, beleza, esporte e uma parte determinada Especial (que está em todas as seções de Geral). Já em 07 de novembro, apresentou matérias de educação, cidades, filantropia, justiça, espaço, estilo, biologia, ambiente e celebridades. E agora na última edição de 21 de novembro, desenvolveu a seção com os temas: transporte, imprensa, automóveis, cidades, perfil, esporte e animais.

Essa diversidade não torna a Veja superior em todos os aspectos em comparação com a CartaCapital, no entanto, leva o leitor a sentir mais prazer ao ter acesso a um conteúdo jornalístico atual e variado.

Jornais impressos

Um ponto de destaque do jornal Folha de S.Paulo, é também a sua diversidade de fontes nas seções, inclusive na seção tendências e debates. Muitos são os articulistas que abordam os assuntos e isso contribui para que o leitor tenha pontos de vista diferenciados a cada edição, sob assuntos diversos.  Na edição de 17 de novembro deste ano, foi abordada por Luiz Pingeulli Rosa (Físico da UFRJ) a descoberta da grande quantidade de petróleo em Tupi, e as vantagens de tal fato para Brasil. Por outro lado, o economista Adriano Pires (também professor da UFRJ) contrapôs a idéia do assunto. Essa atitude de colocar dois profissionais com visões diferentes do um mesmo assunto contribui para que o leitor conheça os pós e contras e se posicione.

Em cada edição de seus editoriais, o veículo diversifica articulistas. No dia 17, Clovis Rossi, Igor Gielow, Sérgio  Dávila e Rui Castro foram os responsáveis pelos textos. Já no dia 19, Valdo Cruz, Ruy Castro, Fernando de Barros e Silva e Alba Zaluar foram os articulistas da página.

As demais seções do veículo apresentam as notícias de acordo com os fatos, não tendo uma fonte específica para tal, mas de acordo com o ocorrido, e a necessidade dos mesmos. O que sempre tendência é os editoriais e seções fixas, que no caso, como já citado, é bem diversificado.

Estadão

O Estado de S. Paulo age de maneira semelhante. A seção Espaço Aberto apresenta diversidade de articulistas, mas cada um aborda um assunto diferente na edição, ao contrário da Folha, que apresenta um assunto e visões diferentes. Na seção notas e informações, são expostos assuntos em voga, mas os editores não assinam. Isso não interfere em nada, mas é interessante a assinatura do articulista, mesmo que saibamos que essa é a visão do jornal.

Em 15 de novembro deste ano, o Estadão apresentou na seção espaço aberto o assunto Petrobras, Vale do Rio Doce e a lista do The New York Times com o economista Roberto Macedo, além da questão da TV Pública com o sociólogo Demétrio Magnoli. No dia 19 do mesmo mês, a seção abordou o assunto de energia e combustíveis fósseis com o professor José Goldemberg e sobre o tráfico de drogas com o professor de Ética Carlos Alberto Di Franco.

A diversidade de fontes em um veículo apresenta mais credibilidade e o risco da matéria ser tendenciosa diminui, pois ao ser uma fonte exclusiva e única no meio, há grande risco do conteúdo se tornar imparcial. A fonte pode até ser privilegiada quando recebe exclusividade de um meio, mas o órgão, em contrapartida, sai perdendo pela incompetência de não conseguir no mínimo apoiar suas idéias ou apresentar fatos de vários pontos de vista.

O jornalista da Folha de S.Paulo, Mário Magalhães compartilha deste mesmo ponto de vista. Ele declara que "quanto mais fontes contribuírem para a apuração de uma reportagem, melhor. Contemplar apenas uma fonte faz com que o jornalismo seja unilateral, e não plural, privando os leitores de conhecer opiniões e versões diversas, para tirar suas próprias conclusões". "Eu prefiro um jornalismo crítico a um adesista, mesmo que este renda informações privilegiadas", conclui Magalhães.

A realidade é que, a cada dia, o maior desafio dos meios é a variedade de informações e fontes, isso para que veículo tenha exclusividade do seu leitor/telespectador  ou ouvinte, afinal, o maior desafio da exclusividade ainda é a variedade.