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Não beba da mesma fonte

Carina Bentlin

Não há notícia sem fonte. Toda afirmação, constatação ou denúncia deve ter uma identidade que a valide. Em reportagens históricas, a própria fonte foi motivo de desdobramentos e especulações e virou um caso a parte. O que dizer da "Deep Throat", no caso Watergate? Algumas fontes tornaram-se fábulas dos contos jornalísticos.

Fonte, fonte, fontes! Daria para cantar um mantra com essa palavrinha que ocupa parte do raciocínio dos jornalistas. Não é pra menos, realmente, é peça fundamental para boas reportagens. A sua extrema importância é resultado da ação mais perseguida e sinônimo do bom jornalismo: a apuração, checagem e verificação dos fatos. Sendo assim, uma parte do expediente jornalístico se dá com a relação com as fontes. Essa relação estende-se à “colheita” da informação e vai muito além: é preciso conquistá-la, trazê-la para o mesmo time.

É válido estabelecer contato contínuo para que a intimidade necessária, ingrediente para a confiança, não enferruje com o afastamento. Então, um cafezinho, um telefone, uma conversa rápida no corredor, vai bem, obrigada! Reforçando a idéia com Ricardo Noblat, no livro A arte de se fazer um jornal diário, é preciso cuidar bem das fontes e treiná-las. "Fonte se treina. Como se treinam repórteres". Na exemplificação de Noblat, treinar é detalhar para a fonte o que se deve observar, do mesmo modo como as instruções são dadas a um repórter inexperiente. Em casos específicos, a fonte é o olho do repórter sobre uma notícia. Ressaltando, é sempre bom frisar, isso quando a fonte é de confiança!

Quando a fonte é quem vai atrás do jornalista, é preciso estar atento. Sinal de alerta, tem caroço neste angu! Um jornalista é cético por formação, então, duvidar da informação vinda de bandeja pode evitar dores de cabeça ou simplesmente perca de tempo. Deve-se adotar certos critérios como tentar checar a informação com mais de uma fonte ou investigar por si só. Obter um histórico desta fonte, quais são suas ligações com o assunto e quais são seus interesses, que geralmente estarão implícitos, é uma regrinha que não pode ser esquecida.

Sem repeteco no Estadão

Não beba da mesma fonte, parece ser uma regrinha seguida à risca pelos jornalistas do jornal O Estado de S. Paulo. Em três edições analisadas, nos cadernos Nacional e Economia, não houve repetição de fontes. O manual de redação e estilo do Estadão aconselha o uso de fonte de informações em todos os seus textos noticiosos, que pode ser omitida, isso se tiver absoluta confiança do repórter.

Na edição de 31 de outubro, caderno Nacional, o líder do governo no senado, Romero Jucá (PMDB-RR), é citado duas vezes, na mesma página. No entanto, a segunda citação ocorre em um complemento da notícia, não se configurando como repetição. Na primeira citação, na reportagem "Aliados articulam anistia para troca-troca", sobre a tentativa de o planalto manter três senadores que deixaram o partido DEM. Aí, Jucá propõe que os parlamentares cumpram o mandado por inteiro, sem a possibilidade de mudar de sigla. Ele defende assim, o fim das coligações partidárias. No box referente à redução da alíquota da CPMF, Jucá confirma os números do acordo da base governista com o senado.

No mesmo caderno, na edição de 28 de outubro, o deputado federal Chico Leite, do PT, em "82,4% das leis do estado são inconstitucionais", dá seu pitaco na reportagem como promotor e vice-presidente da Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara Legislativa do Distrito Federal. Já no box complementar, ele é fonte única de informação. Na edição de primeiro de novembro, não há nenhuma repetição de fontes, mesmo nos box complementares.

Em três edições analisadas do caderno de economia, nenhuma fonte foi citada em mais de uma reportagem, salvo em box. O repórter Paulo Bernardo, na reportagem "Freio no juro expõe gasto do governo", cita vários economistas que opinam sobre a decisão do Copom, que reforçou a discussão sobre influência das despesas públicas na alta da inflação. Fernando Monteiro, economista-chefe da corretora Convenção, aparece nesta reportagem, e logo em seguida, no desdobramento "Despesas federais crescem até em anos sem eleições", onde analisa o comportamento das contas do estado. É também nas reportagens do caderno Economia onde o maior número de fontes é citado. Nas reportagens principais, são usadas seis fontes em média.