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Sem aspas

Dayse Hálima

"Não há informação sem procura de fontes, não há informação verídica sem rigor no tratamento dessas mesmas fontes" (Daniel Cornu, 1994:76,77).

Fontes. Sem elas, exercer o jornalismo se torna uma missão impossível. São elas que indicam a notícia, que confirmam os fatos, que dão respaldo à informação. O jornalista só é responsável em mediar essas informações para a sociedade.

A matéria, reportagem ou qualquer que seja o trabalho jornalístico de credibilidade, só é possível porque em algum momento uma fonte foi consultada, questionada e os dados fornecidos tiveram sua veracidade comprovada.

Anos de trabalho ensinam que toda e qualquer fonte tem interesses. Independente de qual seja esse interesse, o jornalista deve analisar todos os dados oferecidos por suas fontes e contextualizar a informação dentro do tema que vai tratar. Assim, ele não cai no risco do jabá, nem de fornecer informação desnecessária ou mentirosa.

Revista, jornal, telejornal, rádio, internet. Qualquer que seja o meio, deve-se valer das fontes para receber a confiabilidade de seu público. A fonte desse artigo é a revista IstoÉ e suas próprias fontes.

Já errava

Analisando a IstoÉ,   fica claro que a opinião do repórter é prioridade . Há dez anos, a IstoÉ já errava. A edição número 1468, de 1997, trouxe a matéria "Uniforme, o conflito". A reportagem falava das duras brigas entre escolas e alunos quando o assunto é uniforme.   Foram oito fontes diferentes entre diretores, professores, coordenadores, pais e nenhum aluno. Onde fica a lição de ouvir os dois lados?

Em agosto de 1999, na edição 1560, a reportagem era "Desejo protegido". O assunto era a iniciativa do Ministério da Saúde em distribuir preservativos femininos nos postos de saúde de comunidades de baixa renda. O repórter conversou com a coordenadora do projeto e o ministro da Saúde na época. A reportagem ainda falava das mulheres que não gostavam de usar o preservativo, mas não tinha nenhuma delas falando sobre isso. Reportagem baseada em suposições?

Continua errando

Na reportagem "Dr. Pai de Santo", da edição 1986 de novembro deste ano, a primeira fonte só é citada no terceiro parágrafo. A matéria fala da Faculdade de Teologia Umbandista (FTU), em São Paulo, que vai formar a primeira turma de teólogos umbandistas neste ano. No primeiro parágrafo da reportagem, uma afirmação bizarra: "... a lanchonete com café expresso – e do bom...". Quem disse isso?

Na mesma edição, a reportagem "Casuísmo à vista", que fala sobre o projeto de aumento no número de vagas para vereadores que a Câmara dos Deputados deve aprovar, o repórter não conversou com ninguém. Pelo menos é o que parece! Toda a reportagem não tem um par de aspas. Nenhuma citação dos deputados que fizeram a proposta. No final do texto, aparece um tímido "De acordo com o Instituto Brasileiro de Administração Municipal (Ibam)...". O que aparenta é que, de sua mesa na redação, o repórter pesquisou na internet e montou seu texto. Só.

A edição anterior, de número 1985, na reportagem "A musa do crime", que descreve a trajetória criminosa de uma jovem carioca de 25 anos, cometeu uma falha parecida. Não tinha fontes. E quando apareceram as aspas, era reprodução. "... disse o advogado a um site de notícias." Falta competência.

Pode mudar

Não precisa de muito. Competência associado à técnica resolveria o problema da IstoÉ. O que falta, na verdade, são profissionais preocupados com a boa informação. A pressa, a preocupação em "resolver" a pauta e acabar com o problema, evoca nisto: informação pela metade.

A escolha das fontes é decisiva na hora da reportagem. É ela que afirma o que o repórter acredita ser verdade. E é ela que muda toda a concepção do mesmo repórter. Ou seja, sem as fontes é impossível informar a sociedade de maneira idônea, clara e verdadeira.

O problema está em se permitir esquecer que, bom jornalismo, se faz com pesquisa, apuração e fontes, muitas fontes. Nenhum desses requisitos pode ser esquecido, deixado para trás. Mais uma vez a IstoÉ não fez a lição de casa. Deixou a desejar e não cumpriu o requisito mínimo: ouvir todos os lados. Só deixou mais dúvidas e incertezas. Acaba por confundir mais do que informar. É aquela história do chuchu ensopado: cheio de água, sem tempero, sem graça. Sem compromisso e respeito com o leitor.