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Entre fontes e aspas

Priscilla Stehling e Francielle Ferreira

Em geral, as reportagens apresentam-se de forma clara e dinâmica. Entre aspas, opiniões de cientistas e historiadores aparecem a todo momento. Falamos da revista mensal Superinteressante. Como ser dinâmico na escolha das fontes em uma revista que tem linha editorial tão específica? Quem são os especialistas mais indicados a opinar sobre os assuntos em análise?

A maioria das reportagens da Super apresenta quantidade considerável de citações, que variam entre sete e dez. Um exemplo é a matéria "A outra Esparta", da edição de abril deste ano, que contém dez citações. No entanto, alguns textos apresentam somente duas, como a reportagem "Mortos, mas não muito", de agosto de 2006. O texto segue sem opiniões, pelo menos não explícitas, que possam dar crédito ao conteúdo.

O uso excessivo de fontes secundárias é uma característica visível nas páginas da revista. As reportagens "I Ching", da capa de janeiro de 2006, e "No canto da vida", de março do mesmo ano, apresentam quatro citações tiradas de livros. Outra que chamou atenção foi a reportagem "Munique, 1972", de janeiro de 2006, com apenas uma fonte primária. Ou seja, somente um entrevistado pela Super. Todo o restante são citações de livros.

O grande problema aparece quando essa informação não está clara ao leitor. No texto "A outra Esparta", de abril deste ano, aparece a seguinte citação: "'Seria mais fácil ouvir as vozes de estátuas de pedra do que as daqueles rapazes', afirma Xenofonte". O que não fica explícito é que Xenofonte foi um ateniense que viveu por volta do ano 400 a.C. A forma como a citação foi feita e inclusive a utilização do verbo "afirmar", transmite ao leitor a idéia de que houve diálogo entre o repórter e quem emitiu a opinião.

Houve casos de fontes que não foram identificadas corretamente. Na reportagem "Adianta votar nulo", da edição de setembro de 2006, encontram-se as frases: "'É o que pergunta o jornalista Guilherme Fiúza'. 'O que é pior: o voto nulo ou o voto entediado?'". A fonte só foi identificada como jornalista. Não foi mencionado para qual veículo ele trabalha, nem qual a sua relação com o assunto da reportagem.

O mesmo erro foi repetido em outro trecho. "'Os corruptos não darão a mínima. Estão blindados por seus partidos', afirma o cientista político Bolívar Lamounier". Da mesma maneira, faltam detalhes sobre o entrevistado.

Na reportagem "Porres, trapaças e censura", de outubro de 2006, a fonte é identificada somente pelo primeiro nome. "'Acabamos ficando amigos dela', diz o cartunista Ziraldo". Ziraldo não é tão conhecido a ponto de ser identificado dessa forma. Esse tipo de menção só cabe a grandes personalidades.

Percebeu-se também o desequilíbrio no uso de citação em uma das edições. A reportagem de capa da edição de maio de 2007 tinha como título "Vaticano, uma biografia não autorizada". O texto contava que na década de 1930 foi encontrado um túmulo, que segundo a tradição, teria sido erguido por cima da sepultura de São Pedro. Símbolos cristãos que estavam junto ao túmulo serviram como prova para quem acredita na tradição. A reportagem utilizou como fonte o historiador André Chevitarese. Ele alegou que "o túmulo na basílica talvez nem seja cristão – os romanos pagãos costumavam usar símbolos de todas as religiões". A opinião do historiador foi colocada desmistificando a história. A reportagem não contou com nenhum ponto de vista que apoiasse a tradição.

Mas em geral, diversificar fontes a revista sabe fazer muito bem. Nas reportagens, diversos profissionais explicam sua opinião, geralmente baseada em conteúdo acadêmico e experiências tais que os qualificam como autoridades no assunto. No entanto, é interessante que o repórter atente a alguns detalhes para que as citações sejam colocadas de forma precisa. A reportagem de capa "A outra Esparta", edição de abril, possui um total de oito declarações. Em cinco delas, "dizer" foi o verbo declaratório utilizado e no restante, "afirmar". No texto "O canto da vida", de março de 2006, todas as citações contam os verbos declaratórios "dizer" e "afirmar". Listas e mais listas de verbos declaratórios existem para facilitar esse trabalho. Tudo isto para que os verbos afirmar e dizer estejam o mais distante possível das citações.