A fonte é a principal ferramenta de trabalho de um jornalista e, por essa razão, uma lista de contatos irá auxiliar o repórter em qualquer investigação. O problema, porém, é que essa relação nem sempre é tão simples e amistosa assim. O jogo de interesses e a troca de favores são algumas das armadilhas que o profissional da comunicação pode encontrar pelo caminho. Nesse contexto, o jabá, o favorecimento ilícito e o suborno são algumas das ferramentas mais utilizadas durante a apuração de uma notícia. Mas, de que maneira o jornalista deve lidar com esse tipo de situação? Qual o critério para o uso de câmeras escondidas e a publicação de informações obtidas em off? O interesse público justifica a omissão da identidade de um repórter?
Para o jornalista Sidney Rezende, o problema é a investigação mal feita. "Em geral, a gente acha que a notícia tem dois lados. Quando, na verdade, ela tem vários. Por isso, a apuração é ruim. Um dos maiores problemas do jornalismo brasileiro é a má apuração da informação", critica. Ele destaca, ainda, que a falta de segurança em coberturas de risco é um dos principais entraves à atividade jornalística. "Precisamos entender a atuação do jornalista como um ser individual. Afinal, ele integra uma equipe", justifica. Segundo ele, a "apuração coletiva" é o primeiro passo para isso. "Aí sim, podemos pensar em garantir a segurança individual do repórter em locais de risco", orienta.
Rezende é jornalista há 22 anos e apresentador dos programas Bom Dia Rio e Conta Corrente, da TV Globo e Globo News, respectivamente. Começou a carreira como repórter na Rádio Roquette Pinto, em 1985, e no mesmo ano, passou pelas tevês Manchete e Educativa. Em 1987, estreou na Rádio Jornal do Brasil o programa Encontro com a Imprensa, no qual entrevistava as principais personalidades da política e cultura do País. Recebeu um ano depois o prêmio Golfinho de Ouro, na categoria melhor jornalista de rádio do ano. Além disso, foi o primeiro jornalista a apresentar um programa sobre ecologia na tevê brasileira, em 1989. Rezende é âncora da CBN do Rio e apresentador do Prêmio Esso de Jornalismo. De sua casa no Rio, concedeu ao Canal esta entrevista por telefone.
Canal da Imprensa - Como o repórter pode usar o recurso do off sem comprometer a fonte e garantir a veracidade da informação?
Sidney Rezende - O uso do off não significa o sigilo da informação, mas o sigilo do nome da fonte. Conseqüentemente, se alguém revela algo em off e você aceita esse acordo, salvo legalmente o seu direito de divulgar o conteúdo da informação, será seu dever preservar a identidade do entrevistado. Se há, por exemplo, alguma denúncia envolvendo a soberania nacional ou alguma revelação importante, o jornalista pode publicar o conteúdo obtido. Trata-se de uma excepcionalidade e aí a quebra do off não existe do ponto de vista ético simplesmente por você ter rompido um acordo. Mas, em geral, o que acontece é uma investigação a partir do off. Por isso, você deve checar a veracidade daquele material. Resguardando, evidentemente, do ponto de vista ético, o nome da fonte.
CI - O uso da câmera escondida é muito comum em denúncias e reportagens de investigação. Como apurar a notícia a partir de revelações anônimas e/ou imagens cujo conteúdo não foi autorizado ou não é do consentimento da fonte?
Rezende - A rigor, eu não sou contra o uso da câmera escondida. Porém, sou absolutamente contrário a má apuração da notícia. Você pode escolher uma informação ou apurar uma denúncia mediante a utilização de uma câmera escondida. Veja o caso do Tim Lopes. Ao que tudo indica, os traficantes identificaram o sinal da câmera, da luz vermelha revelando o uso do equipamento e, por isso, ele foi sacrificado.
Numa situação em que o interesse público se faz relevante, a comprovação daquele fato pode ser obtida por meio da câmera escondida. Mas isso não significa que você não dará o direito de defesa aos envolvidos. Em geral, a gente acha que a notícia tem dois lados. Quando, na verdade, ela tem vários. Por isso, a apuração é ruim. Um dos maiores problemas do jornalismo brasileiro é a má apuração da informação. O que eu quero dizer com isso? O uso de uma câmera escondida não é definitivo.
Na televisão, por exemplo, as pessoas acham que a simples coleta da informação garante o direito de veicular o conteúdo. As pessoas acham que o vídeo é a comprovação absoluta daquela denúncia. Isso não é verdade. Vou lhe dar um exemplo de edição. Nós estamos conversando aqui. Você irá editar a minha fala. É presumível que você, como um bom jornalista, seja absolutamente fiel à circunstância a qual estamos conversando. Porque se você editar a minha resposta e colocar depois outra pergunta, haverá aí uma adulteração. Mesmo que você diga: não, estou apenas contextualizando o diálogo... Portanto, não existe no jornalismo brasileiro, em geral, uma apuração exemplar. E isso se dá por várias razões: questões técnicas, de tempo, basicamente, e estrutura. Outro motivo é a falta de contextualização. Particularmente, eu apóio o uso da câmera. Mas não a considero definitiva.
CI - Em ambientes perigosos e de conflito, a coleta desse tipo de informação pode representar uma série de riscos para o repórter. O caso Tim Lopes foi um exemplo do uso inconseqüente desse tipo de ferramenta.
Rezende - Sou a favor da vida humana. Nesse sentido, o ser humano é mais importante do que a busca pela informação. Em algumas situações já desautorizei, como âncora, o repórter de prosseguir uma investigação, porque julguei que haveria ali um risco de vida para ele. Mas eu já soube de outros profissionais que, ao contrário, disseram para o jornalista buscar a informação a qualquer custo, mesmo arriscando a própria vida. Eu não considero isso importante.
CI - Que proteção deve ser garantida ao repórter em locais perigosos e de conflito? E na cobertura de guerra?
Rezende - Não sou especialista nessa área. Mas há jornalistas muito competentes nesse ramo, inclusive no Sindicato de Jornalistas do Rio. Alguns deles trouxeram jornalistas de renome internacional a fim de abordar a questão em palestras, seminários e outros encontros. Cada veículo deve ter uma política de segurança para os seus repórteres. Precisamos entender a atuação do jornalista como um ser individual. Afinal, ele integra uma equipe. A "apuração coletiva" é o primeiro passo para isso. Aí sim, podemos pensar em garantir a segurança individual do repórter em locais de risco, em horários perigosos ou situações em que a vida dele e a de terceiros estejam em risco. Para isso, você irá precisar de equipamentos. Muitas vezes, o jornalista vai para o local a partir de uma ligação, de uma denúncia sem nenhuma proteção. Muita gente é contra o uso do colete, por exemplo. Mas isso, na verdade, é uma ferramenta a mais que poderá assegurar a segurança do repórter. E faço a ressalva: o veículo precisa ter uma política de segurança para o profissional.
CI - É verdade. Uma vez morto, o jornalista não fará qualquer tipo de cobertura...
Rezende - Exatamente. Entenda: por mais que a gente saiba da tensão patrão/empregado e capital/trabalho deve haver um ponto de interseção nessa matéria. Que ponto é esse? O jornalista precisa ir ao campo de trabalho ou colher as informações ciente de que ali há um risco. Não apenas ele, mas o editor também. É preciso, para isso, tirar o aspecto individual dele, utilizar o nome do veículo, utilizar mais de um apurador, evitar a identificação do repórter com aquela matéria perigosa... Muitas vezes, o repórter vai para a casa e é vítima de agressão ou, no caso de um policial, é alvejado. Precisamos repensar algumas coisas. Estamos em uma área de risco, porém a insegurança irá prevalecer.
CI - O contato com a fonte nem sempre é isento. O favorecimento ilícito e o suborno são algumas das estratégias utilizadas no relacionamento entre entrevistado e o repórter. De que maneira o jornalista deve lidar com o jabá e a troca de favores durante uma investigação?
Rezende - Da mesma maneira que deve haver políticas de proteção individual e coletiva aos profissionais da comunicação, devem existir, também, políticas de como os veículos podem proceder nesse tipo de situação. Para mim, isso não é uma decisão unilateral. Acho improvável que a empresa dirá assim: nós é que não aceitamos isso. Coisas como esta devem ser discutidas com os funcionários partindo do princípio de que o seu corpo funcional é honesto. E não o contrário. Definido, em comum acordo, quais serão os limites, aquela empresa adotará determinada postura. Isso pode ser escrito na forma de um manual de conduta, mas essa questão deve fazer parte da cultura da empresa ao não aceitar esse tipo de suborno ou favorecimento.
CI - Isso vale para a relação jornalista/assessor?
Rezende - Vale. Essa convicção de que ao ganhar uma caneta ou algum tipo de mimo o jornalista irá inevitavelmente aliviar uma denúncia ou qualquer informação que prejudique uma empresa é uma visão infantil da honestidade humana. A conduta de um profissional pode ser considerada errada quando, na verdade, ele é reto no seu ofício. Portanto, o objetivo é definir as regras a fim de facilitar a conduta em situações como esta. Você não vai aceitar uma viagem para Porto Seguro, por exemplo, e achar que aquilo está correto. Você simplesmente não aceita. Eu acho que não será nenhuma indelicadeza você recusar esse tipo de presente.
CI - O jornalista Mazher Mahmood roubou informações do técnico da seleção inglesa Sven Goran Eriksson disfarçado de xeque árabe. O fato gerou uma série de discussões sobre a ética jornalística. No caso de uma informação de interesse público, a omissão da identidade justifica atitudes como esta?
Rezende - Não posso cair em contradição. Se eu penso que o uso da câmera escondida é válido como um elemento a mais numa apuração bem feita, teoricamente eu também seria a favor de você mudar a identidade. Mas eu sou contra. Eu penso o seguinte: você ao subtrair um documento é uma atitude de exceção na minha concepção ética. Eu prefiro obter aquela informação checando, cruzando, trabalhando... Irei demorar mais, provavelmente para chegar a constatação documental do que estou denunciando. Eu prefiro não roubar um documento. Se eu souber que há um documento em algum lugar, ali na mesa, e aí a fonte levanta para tomar água e eu vou lá e pego aquele material... Eu não acho isso certo. Mas é legítimo ouvir da secretária que naquele documento contém determinada informação porque ela viu.
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