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Agenciando idéias

 

Sempre considerei a pauta de nossa última edição um assunto interessantíssimo. Tema que produziria, sem dúvida, uma discussão profunda, constatações relevantes, reflexão sobre os rumos jornalísticos num futuro próximo. Como quem espera o lançamento de um livro ou filme amplamente comentado, ansiei por ler os textos de vocês. Sinto dizer que, ao fim de tudo, sobrou-me muita decepção, quase nada de satisfação. Enquanto organizo mentalmente a lista de considerações a fazer, lembro-me com que constância o Wendel Lima (ombudsman anterior), manifestou sua frustração com os resultados de seu trabalho. Creio ser esta, também, minha maior frustração. O fato de comentar certos detalhes ao ponto de me tornar tediosa, repetitiva, e, ainda assim, constatar que alguns parecem não compreender o que digo. Talvez pior, estes, nem ao menos levam em consideração o que escrevo.

Procuro, no entanto, exercitar a arte da persistência. Melhor momento não há.

Ficamos cavando na superfície. Houve até quem deu apenas uma rasteladinha rápida sem, sequer, tocar o objeto da análise. O ponto central a ser discutido nesta coluna agora, e que inexistindo torna essa revista sem propósito, se denomina "pesquisa". Esta não é a primeira, e creio, não será a última vez que discutiremos isso. Mas repetirei incansavelmente: sem pesquisa não há crítica pertinente.

Constatei que a maioria das análises feitas nessa edição carece substancialmente de pesquisa. Deve-se aprender cedo que a ferocidade da crítica não se relaciona à pertinência da mesma. Ao contrário, na maioria das vezes, quando alguém ataca ferozmente algo, é porque desconhece a questão na sua profundidade. A boa crítica traz em si o equilíbrio. Pude comprovar isso mais uma vez durante a leitura.

Encontrei os que se contentaram em narrar reportagens, os que mostraram conhecer nomes de vários jornalistas - houve quem tentou, novamente, falar difícil usando termos fora de contexto - e até aqueles que usaram humor, como sempre, sem nenhum raciocínio fundamentado. Considero tudo isso, resultado de uma pesquisa fraca. Para escrever sobre qualquer coisa é necessário ler a respeito, claro, e mais, refletir sobre o que se leu, buscar trabalhos similares, fontes alternativas. O equilíbrio da crítica advém de argumentos bem embasados. E idéias fundamentadas são decorrentes de profunda pesquisa.

Como podemos analisar a postura editorial de um jornal, por exemplo, se nem ao menos entendemos de política (nacional e internacional), ou a que público tal periódico se direciona? Havia tanto a ser explorado!! Os jornais da Rede Globo foram alvo de análise fraquíssima. Jornal Nacional e Jornal da Globo têm maneiras absolutamente diferentes de tratar a notícia internacional. E isso acontece porque se direcionam, cada qual, a tipos específicos de classes (sociais e intelectuais). O Jornal da Globo é como uma espécie de editorial do canal. Sua função não é trazer "novidades" surgidas depois do horário do JN.

Assim como, saber que Reuters e Record usaram sinônimos na manchete da mesma notícia, não ajuda ninguém a entender nada. Sofisticadas ou simples, as palavras não são o foco, o que importa é a escolha da notícia a ser veiculada, e o "porque" da omissão de outras. (A propósito, "simples" e "sofisticada" não podem co-existir, se excluem automaticamente). Era preciso saber, antes de falar besteira, que a linguagem intelectualizada do Estadão, por exemplo, nada tem a ver com a idade dos leitores, tem sim, a ver com o público a que é destinada, nesse caso, classes A e B. Foi possível notar ainda, que outro tanto de articulistas ficou apenas no "blábláblá" inútil, vulgarmente conhecido como processo de "encher lingüiça". Enrolando em volta do assunto sem dizer nada relevante. Enfim...

Como jornalistas, conseqüentemente formadores-mor de opinião, temos a obrigação de andar a segunda milha. Pesquisar com profundidade. Aproveito esse momento para citar a constatação pertinente feita pelo texto "Ousadia ao Extremo". O jornalista não pode resolver todos os problemas do mundo, sua função primeira é noticiá-los, mas a postura que assume ao fazer isso é que produz a verdadeira diferença no mundo. A reportagem foi bem escrita, poderia, contudo, ter ampliado um pouco a abordagem do tema, o que não exclui, obviamente, a boa condução do pensamento e escrita. O texto "Dependência Internacional" apresentou raciocínio interessante, teve apenas algumas dificuldades na transcrição. Aos que trabalham com rádio e televisão, alerto para o cuidado na maneira de escrever. A mídia impressa usa outro tipo de linguagem. O entrevistado desta edição fala por si só.

Termino pedindo leitura. Leiam, leiam e leiam. Esse é o caminho para o amadurecimento e sucesso profissional. Transformem suas mentes em "agências de idéias". Fundamentem suas opiniões para que possam repassá-las com verdadeira relevância. É verdade, casal panda apaixonado não muda a vida de ninguém e, tampouco, é notícia internacional que se preze. Pior que isso, só mesmo crítica sem fundamento algum, esta, não merece sequer uma leitura.

Conversamos em 15 dias.


Andréia Moura
ombudsman@unasp.edu.br