Tem coisas que a gente come por falta de opção, preguiça. É o caso de um ovo frito com o restante da janta de ontem ou, quem sabe, um pedaço de bife com o pãozinho francês do desjejum. O "jeitinho brasileiro" resolve muita coisa, inclusive, a dificuldade de escolher uma refeição. Não por acaso, o brasileiro mostra uma criatividade interessante na hora de preparar um lanche ou qualquer outro alimento feito no "improviso". Além disso, há uma variedade de pratos exóticos espalhados pelo País. Mas se o cardápio, ao invés de canapés, caviar ou bife com pão incluir uma receita do tipo "frango e farofa" durante três dias, dentro de um ônibus? Mas não qualquer ônibus. Trata-se de uma condução precária, poeirenta, que partiu de Teresina, no Piauí, com destino à capital paulista. Engraçado e trágico, não?
É assim que o jornalista Guilherme Almeida introduz o livro-reportagem Renascer de um ideal, cuja narrativa retrata a vida de um dos maiores educadores adventistas do País, Walter Boger. Para isso, o autor coletou depoimentos de pessoas que conviveram com ele a fim de fornecer pistas sobre a vida desse pioneiro da educação adventista. "Muitas pessoas o conheceram por causa de sua capacidade administrativa, contudo, eu quis apresentar não apenas o lado educacional, mas também o humano desse educador", explica Almeida. As histórias se cruzam e a humanização de vários episódios fornece uma leitura nítida do perfil de Boger, o pioneiro e idealizador do Centro Universitário Adventista (Unasp), campus Engenheiro Coelho.
Homem dedicado e educador incansável, Boger lutou por mais de 13 anos para implantar uma educação integral que privilegiasse o enriquecimento da saúde física, mental e espiritual. A valorização do ser humano era o princípio que norteava sua vida. E para isso trabalhara a vida inteira. "Constantemente ele recebia visitas de pessoas de outras regiões do Brasil que chegavam à instituição para tentar estudar. Muitos ex-alunos contam com orgulho que se não fosse por esse homem, não teriam oportunidade de estudo", detalha o autor logo no início da biografia.
Desenvolvimento
O livro-reportagem foi dividido em quatro capítulos. O primeiro, intitulado "Transformado pela educação", conta a história de Gilvan Andrade, um rapaz simples de Teresina, no Piauí, cuja vida foi marcada pela indiferença e falta de oportunidades. "Durante sua infância enfrentou muitas dificuldades. Fruto de uma gravidez indesejada, sua mãe, Maria do Socorro, o concebeu aos vinte e dois anos de idade. Mulher alcoólatra, Maria também estava separada do marido", descreve o autor.
De sua viagem insólita e da comida "improvisada", mas feita com muito carinho pela avó Mãe Canja, Gilvan conta detalhes da viagem e de sua infância. Durante o percurso de três dias de viagem ele comeu apenas frango frito e farofa. Porém, nada o desanimava. Ao longo do capítulo, Almeida descreve o encontro dele com Boger e a transformação da vida desse rapaz.
No capítulo seguinte, "A família Boger", é feito um panorama histórico da vinda de várias famílias alemãs ao Brasil, da educação que Boger recebeu dos pais e de sua vida como administrador e pastor adventista. Sua esposa, Ruth, lembra a preocupação dele em manter a situação financeira da sede administrativa da Igreja Adventista para o Estado do Paraná equilibrada, quando Boger foi chamado a convite de um pastor para auxiliar a sede dessa instituição no setor financeiro. "Logo que chegamos [no Paraná] o Boger teve que passar o primeiro domingo arrumando um galpão cheio de livros molhados e estragados. A Ellen [a filha mais velha] era curiosa e estava com cinco anos. Nunca tinha visto o pai trabalhar daquela forma e disse: Nossa, pai. Ser tesoureiro é só isso", lembra Ruth.
Os dois últimos capítulos, "Idealização de um sonho" e "O fim de uma vida educacional", descrevem as contribuições de Boger para a educação adventista e o ideal de uma casa de ensino cuja ênfase fosse a valorização plena do ser humano. Almeida revela ainda os bastidores da compra do atual terreno do Unasp, campus Engenheiro Coelho. Ele lembra o episódio em que Boger e a direção administrativa que iria decidir a compra do terreno para a instituição, na época, do novo IAE (hoje o segundo dos três campi do Unasp), decidiu visitar mais uma propriedade rural. "Em uma de suas conversas com o pastor Boger, Valdir Bartarin descobriu que o dono de outro território [cujas terras já haviam sido oferecidas a um preço maior] tinha interesse na Fazenda Lagoa Bonita. 'Depois de feita a negociação, eles descobriram que o dono da fazenda de Tatuí estava vendendo sua propriedade pelo dobro do preço para comprar essa daqui pela metade'", denuncia o antigo morador.
Ao longo da narrativa, a vida de Boger é descrita e esmiuçada a partir de seu ideal de educação. O último capítulo, "O fim de uma vida educacional", mostra um pouco de seu legado e o resultado de uma vida apaixonada e até inconseqüente no que diz respeito ao excesso de trabalho e o cuidado com a saúde. Boger foi vítima de uma doença rara, chamada hipoplasia da medula óssea. Ela se manifesta na medula, órgão que produz o sangue. Assim, deixa de produzir plaquetas, glóbulos brancos e vermelhos e o resulto é o enfraquecimento da imunidade da pessoa. "A vida de Boger se resume em dedicação à instituição adventista. Tudo o que havia construído e idealizado foi para o crescimento da igreja", finaliza Almeida. Nas palavras do genro, pastor Renato Stencel: "Boger aproveitou mais do que a vida pudesse oferecer".
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