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Histórias mais que atuais

Suellen Timm

Prostitutas, drogados, bêbados, ladrões, travestis. Todos são protagonistas de emocionantes histórias da pós-modernidade que comprovam que Nietzsche não estava tão certo em sua teoria. Pessoas que, anteriormente, eram condenadas pela sociedade mostram como foram transformadas após preencherem o vazio de suas vidas. Não com álcool, cigarro, sexo, ou qualquer outra coisa insignificante, mas com Deus em suas vidas.

Todo esse conteúdo foi intitulado de Deus é atual - histórias de fé na pós-modernidade. O título transmite claramente o conceito expresso no livro-reportagem do estudante Tiago Cabreira. O trabalho de conclusão de curso foi uma sugestão do orientador e também chefe de Cabreira, Vanderlei Dorneles. A proposta era reunir várias histórias de atuais membros da Igreja Adventista do Sétimo Dia que evidenciassem como Deus ainda atua em meio a um mundo que vive em busca dos diversos prazeres. Para o autor, a idéia coincidiu não apenas com um requisito acadêmico, mas, especialmente, o propósito de vida que ele determinou. "Além de ser uma realização pessoal, gosto de livro-reportagem porque reúne o que é literário e o que é jornalístico", justifica o formando.

A sugestão inicial do livro era montar uma coleção de histórias das várias capitais brasileiras. Entretanto, o tempo, o espaço e a viabilidade da produção fez com que a idéia se restringisse à cidade de São Paulo. A escolha do local se justifica pela variedade de pessoas, de características da pós-modernidade e pelo porte da cidade. "Primeiramente, só tinha duas indicações de histórias que poderia relatar. Acabou que nenhuma das duas deu certo", comenta. O escritor afirma que a solução foi entrar em contato com vários membros da igreja dos quais recebeu indicações para montar seus contatos. "Um foi indicando outros, que indicou outro, e assim foi", explica.

Além da capa

Elementos de uma boa escrita são evidentes durante todo o texto. A forma com que as histórias são relatadas e a linguagem clássica envolvem o leitor. A fim de preservar a identidade das fontes, Cabreira usou nomes fictícios no livro. O primeiro capítulo tem como personagem principal Sebastião Marcondes, um homem solitário que freqüentava as baladas para preencher o seu vazio existencial. Chegou a fazer duas cirurgias de vasectomia para garantir que não teria que assumir alguma família. O casal Sônia Aparecida e Eduardo Camargo relatam no capítulo seguinte a sua luta em busca pelo dinheiro e os prazeres decorrentes.

Em seguida, a travesti Lorraine Stela Cherry conta como sobrevivia por meio do comércio do sexo. Paulo Fernandes, um empresário bem-sucedido, mostra a sua trajetória profissional em busca de realização. Um bêbado é o tema do capítulo decorrente, Durval Rodrigues Quaresma, que chegou ao ponto de colocar fogo em sua própria casa para se matar. Maurício Issao Shoji, um menino abandonado pelo pai e agressivo é o enfoque do tópico. A próxima história é a de Moisés Nunes Rosa, um ninfomaníaco. Todas as histórias possuem o mesmo foco, mostrar como o ser humano busca preencher com coisas supérfluas o vazio existencial que caracteriza o homem e como a satisfação completa só pode ser vivida quando se acredita em algo, quando se tem fé.

A pós-modernidade para o autor não é vista como um "problema, mas uma oportunidade". Seu objetivo é ressaltar que o adventismo se torna uma antítese da pós-modernidade. De acordo com a perspectiva do trabalho, é possível ser realizado e, ao mesmo tempo, manter valores como família, obediência, pureza, sensatez, honestidade, fidelidade, temperança e sinceridade. O erro do homem pós-moderno consiste em procurar a felicidade em lugares errados, em aspectos incertos, passageiros.

Mas para Cabreira, o trabalho não termina no último ponto final que ele escreveu. A proposta é publicar uma série de livros da mesma índole, porém em outras capitais brasileiras. Mesmo o próprio projeto não condiz completamente com a versão para publicação. "Devido ao tempo, o trabalho apresentou apenas sete das 18 que vou reunir no livro impresso", revela. Para apresentar, o escritor reuniu as histórias que considerava imprescindíveis, já que dentre as 18, algumas repetem alguns conceitos pós-modernos. Se a coleção mantiver o mesmo nível que o projeto, certamente o público-leitor dará a mesma nota que foi atribuída pela banca examinadora: 10.