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O mercado é o que as universidades formam

Márcio Tonetti

O jornalismo internacional contemporâneo reflete atitudes e pensamentos antagônicos. De um lado estão aqueles que vão a campo, apuram a informação, checam os fatos. De outro, encontram-se os que permanecem enclausurados nas redações, não por necessidade, mas por hábito, e se contentam com as versões oficiais dos fatos.

A falta de mais repórteres in loco é desastrosa. O resultado disso são coberturas unilaterais, versões tendenciosas, informações imprecisas, tais como as que chegaram a milhões de pessoas durante coberturas de guerras como a do Iraque, por exemplo.   Não se faz jornalismo internacional, de qualidade, a distância. No entanto, a dinâmica das redações sofreu muitas transformações com a supremacia das agências de notícias. Para muitos, está mais cômodo fazer jornalismo.

O filme The Hunting Party, dirigido por Richard Shepard, consegue mostrar o conflito existente entre esses dois extremos do jornalismo. A trama, embasada numa história real publicada na revista Esquire, traz flashes da guerra civil que envolveu Sérvia e Bósnia, mas se desenrola mesmo nos anos posteriores aos conflitos. Richard Gere, no papel de Simon Hunt, protagonista do filme, interpreta um correspondente internacional ousado, experiente, digno de credibilidade. É a personificação do profissional que é impulsionado pela palpitação sobrenatural pela notícia, conforme escreveu Gabriel Garcia Marquez. Seu braço direito, o repórter cinematográfico Duck (Wallace Terrence), também tem um perfil semelhante. Juntos, realizam um trabalho digno de inúmeras condecorações, haja vista que traduzem de forma fidedigna para os espectadores aquilo que observam nas zonas conflituosas.

Mas Simon sofre uma queda abrupta em sua carreira ao perder o emprego. Sua demissão se dá por justa causa, em virtude de um momento de descontrole do repórter durante uma entrada ao vivo do front. Sua indignação reprimida é extravasada porque o apresentador da emissora, representante-mor do veículo, não permite que as informações levantadas pelo correspondente, que está vivenciando a guerra, falem mais alto que as pré-concepções da emissora de TV. A diferença é que Simon fala sobre aquilo que vê, enquanto o âncora, Franklin Harris (James Brolin) se mantém trancafiado nos estúdios e atrás das câmeras, mais preocupado com a estética do que com o conteúdo, o típico “jornalista de gabinete”, como alguns costumam chamar.

A partir de então, Simon Hunt passa a agir de forma independente. Mas em alguns momentos dessa segunda fase de sua vida profissional “chega ao fundo do poço de uma carreira jornalística: cobrir uma guerra com recursos próprios”. Enquanto viaja pelo mundo, como freelance em várias guerras, perde o contato com Duck. Depois de alguns anos, contudo, se encontram em Sarajevo e decidem traçar um objetivo em comum: conseguir um furo de reportagem. Ambos buscam uma entrevista com o criminoso de guerra mais procurado na Bósnia, responsável pela morte de milhares de civis no país - papel desempenhado por um sósia de Radovan Karadzic.  Por meio de seus contatos, conseguem a façanha de localizar o esconderijo do criminoso. Mas, na empreitada, são confundidos como agentes da CIA, torturados e ficam a um passo da morte.

The Hunting Party vai além de uma representação do perfil de jornalistas existentes no mercado atual. Richard Shepard insere nas entrelinhas do longa-metragem um posicionamento a respeito do tipo de profissionais que as universidades estão formando. Benjamin, interpretado por Jesse Eisenberg, é um jovem recém-formado em jornalismo, inseguro, um tanto ingênuo, com conhecimentos gerais limitados, mas que, a despeito disso, entra no “esquema” da dupla de repórteres por ser filho do vice-presidente da empresa de comunicação. O “foca” se gaba de ter se formado em Harvard, o que para os profissionais mais experientes retratados no filme não é motivo de admiração.

A crítica do diretor do longa-metragem reflete uma realidade: muitos cursos de jornalismo se mantêm pela tradição. Têm mais nome do que qualidade. Nem todas as faculdades proporcionam aquilo que o mercado precisa: o exercício prático, indispensável no jornalismo. Ao contrário, uma pesquisa realizada nos Estados Unidos pela American Newspaper Publishers, em 1971, ainda tem a sua validade. O estudo mostrou que as faculdades se isolaram do mundo e que a dicotomia entre teoria e prática continua em evidência. No mesmo tom, outra análise divulgada em 1996 com o título The Winds of Change: Challenges Confronting Journalism Education, sob direção de uma ex-repórter do Washington Post, revelou que o ensino de jornalismo está ameaçado pela supervalorização da titulação de professores em relação à experiência dos mesmos. Betty Medsger, autora do estudo, aponta o fato de que as disciplinas específicas de jornalismo estão cada vez mais escassas nas grades curriculares e cedem espaço para outros conteúdos relacionados à ciência da comunicação. Os próprios professores, conforme concluiu Medsger, "ridicularizam os valores profissionais" e "consideram menos importante preparar jornalistas para a profissão".

Portanto, não espanta que a sétima arte traga à tona uma questão tão séria. O perfil dos futuros jornalistas não passará de um reflexo do que a universidade é hoje.

* Márcio Tonetti é diretor de redação da ABJ 

FICHA TÉCNICA

Gênero: ação
Lançamento: Estados Unidos/2007
Elenco: Lejla Hadzimuratovic, Terrence Howard, Richard Gere, Gordana Vukres, James Brolin, Sanela Seferagic, Damir Saban, Aleksandra Grdic, Jesse Eisenberg, Scott Anderson, Harald Doornbos
Direção: Richard Shepard
Produção: Paul Hanson
Fotografia: David Tattersall
Trilha sonora: Rolfe Kent
Duração: 96 minutos