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Os fronts de guerra

Carlos Henrique Nunes

“O preço da coragem” não precisa e nem deve ser pago. Especialmente quando o final da película mostra o garotinho órfão de pai! Naquela ocasião, sem vestir colete e a muitos quilômetros do front, eu tentei ser correspondente de guerra. Pode? Coisa de quem estava tentando “cavar” algo diferente daquilo que vinha sendo o material de um colega que estava cobrindo a guerra, em Islamabad. Cheguei até um distribuidor de corantes de couro que negociava com a empresa em que minha esposa trabalhava aqui no Brasil. Paquistanês. Morador de Karachi.

O colega do front ia até onde as autoridades permitiam. Trazia o olhar de quem vivia o perigo a poucos quilômetros de onde os americanos caçavam Bin Laden. E eu tentei traduzir o olhar de alguém que vivia exatamente aquilo que o filme mostra: uma cidade nervosa, mas nem tão atrasada quanto os “takes” parecem querer revelar. Minha fonte descrevera uma cidade grande em seu ritmo corriqueiro. Pois foi nessa cidade que Pearl, após apanhar um táxi e se dirigir ao provável ponto de encontro com a fonte ou o contato da fonte, nunca mais voltou!

Meu contato com a guerra foi via e-mail. Eu vibrava! Nunca tinha chegado tão perto de uma guerra! Só eu mesmo... Havia um colega cobrindo a guerra. Lá. Pertinho do exército americano... Nem preciso contar-lhes o final da história. Minha big interview nunca saiu da tela do meu computador! Ainda assim, não sei se depois de ver o filme eu me atreveria a chegar tão mais próximo do front, como chegaram meu colega e Pearl.

Meu colega (graças a Deus, não morreu!). Pearl sucumbiu. Ninguém viu o fim de Tim Lopes! Depois de ver uma das tantas versões piratas de “Pede pra sair” (opa, quis dizer: Tropa de Elite), a gente fica com uma parca idéia do que deve ter acontecido a ele. O jornalista judeu americano morreu oculto em um primeiro momento. Mas logo depois todo o mundo viu! E através do computador! O mesmo equipamento onde ficou arquivada minha grande jornada no campo de guerra!

Chama a atenção, no filme, o fato de a viúva ter permanecido todo o tempo, par e passo, junto das investigações. E o que é mais angustiante: grávida! O filme retrata bem o drama de uma esposa que, como jornalista, sabia bem os riscos e o preço da ousadia do marido. O intrincado quadro montado pelos colegas na busca do contato de Pearl também foi uma boa forma de mostrar no que pode se transformar uma investigação jornalística. Outros detalhes interessantes: a criança paquistanesa rodeando as reuniões, os toques de celulares tão familiares naqueles tempos nem tão distantes (o meu tocava igual!), os métodos de investigação da polícia local...

Sinceramente, não sei se o filme tinha ou não a intenção de valorizar a presença de tantos jornalistas durante todo o drama vivido pela viúva. O filme é muito mais as entranhas do abalo da mulher de Pearl do que um mergulho na rotina jornalística. Contudo, suspeito que sim, a julgar pelo fato de que o comitê de investigações era essencialmente formado por colegas jornalistas. Então, arrisco dizer que a cobertura do seqüestro de Pearl poderia ter sido mais trabalhada no roteiro. Especialmente pelo fato de que os colegas ali envolvidos mais pareceram investigadores do que jornalistas a serviço de seus veículos... Isso não ficou claro em momento algum do longa. Repórteres cobrem, acompanham, até investigam, mas jamais deixam de reportar os fatos ao seu público. E ali, o pequeno núcleo em volta da viúva nunca pareceu estar a “trabalho”.

Destaque para a boa semelhança física dos protagonistas com os personagens reais.  A mim, isso não parece irrelevante em um filme de caso verídico! Por outro lado, esperava um aprofundamento maior em cima da teórica última frase da vítima: “I’m a jewish”. Se o próprio Pearl valorizava sua etnia, por que razão o filme não concentra mais argumentos na discussão em torno do significado do seqüestro e morte de um judeu americano nas mãos de um grupo aliado palestino?

Enfim, questões. Nada que altere o valor da moeda americana, como diziam meus professores.  Aliás, diga-se de passagem, dinheiro que segue em desabalada desvalorização! Como jornalista, não posso desvalorizar ousadias. Contudo, é tendência mundial que os profissionais sejam minimamente mais prudentes em suas investigações. Como disse no começo: “O preço da coragem” não precisa e nem deve ser pago!

* Carlos Henrique Nunes é editor de O Parcial

Ficha Técnica

Título Original: A Mighty Heart
Gênero: Drama
Tempo de Duração: 100 minutos
Ano de Lançamento (EUA / Inglaterra): 2007
Site Oficial: www.oprecodacoragem.com.br
Estúdio: Paramount Vantage / Plan B Entertainment / Revolution Films
Distribuição: Paramount Pictures / UIP
Direção: Michael Winterbottom
Roteiro: John Orloff, baseado em livro de Mariane Pearl
Produção: Andrew Eaton, Dede Gardner e Brad Pitt
Música: Harry Escott e Molly Nyman
Fotografia: Marcel Zyskind
Desenho de Produção: Mark Digby
Direção de Arte: Christopher Stull
Figurino: Charlotte Walter
Edição: Peter Christelis

Elenco
Angelina Jolie (Mariane Pearl)
Dan Futterman (Daniel Pearl)
Archie Panjabi (Asra Q. Nomani)
Mohammed Afzal (Shabir)
Daud Khan (Masud)
Telal Saeed (Kaleem Yusuf)
Saira Khan (Nasrin)
Aliya Khan (Kashwa)
Azfar Ali (Azfar)
Ahmed A. Jamal (Khawaja)
Denis O'Hare (John Bussey)
Perrine Moran (Ruth Pearl)
Jeffry Kaplow (Judea Pearl)
Ishaque Ahmed (Arif)
Aly Khan (Omar)
Irfan Khan (Capitão)
Will Patton (Bennett)
Jillian Armenante (Maureen Platt)
Demetri Goritsas (John Skelton)
Zachary Coffin (Matt MacDowell)
Tipu Taheer (Diretor dos Direitos Humanos)
Mushtaq Khan (Motorista de táxi de Daniel)