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Guerras estúpidas

Tales Tomaz

As prévias para as eleições estadunidenses têm várias discussões como pauta para os presidenciáveis. Uma delas é a guerra no Iraque. O que fazer com esse tremendo pepino? O economista Joseph Stiglitz, prêmio Nobel de Economia, divulgou recentemente o preço da guerra: mais de 3 trilhões de dólares. É claro, essa cifra exclui o valor inestimável de vidas perdidas em combate.

O filme Jogos do Poder (Charlie Wilson's War), baseado em fatos reais, trata de um contexto semelhante. Nos anos 80, em plena Guerra Fria, os soviéticos invadiram o Afeganistão para tentar estabelecer mais um domínio comunista. A grande trama do longa-metragem surge da resistência dos afegãos, apoiados pelos Estados Unidos. Além de tratar do tema espinhoso, o drama é acompanhado de outros ingredientes que alimentam discussões paralelas.

Charlie Wilson é um congressista texano, membro do sub-comitê de defesa, que gosta de uma boa festa. Sua obsessão por mulheres bonitas e de corpo esculpido é uma de suas características mais ressaltadas no filme. Apesar disso, ele cultiva um idealismo norte-americano e preocupa-se com questões que envolvem democracia no mundo inteiro. Assim, em meio a um encontro com strippers, regado a bebidas e drogas, Charlie tem sua atenção atraída para o noticiário da TV, que mostra o sofrimento de cidadãos Afegãos sob ataque dos soviéticos. Convicto, ele volta ao congresso e pede para dobrar a verba que o sub-comitê destina ao contra-ataque. Agora são “fantásticos” 10 milhões de dólares para combater os helicópteros soviéticos.

Então surge a socialite Joanne Herring, uma típica republicana conservadora. Em um encontro nada conservador, os dois conversam, discutem política, bebem, se elogiam e fazem sexo. O objetivo de Joanne era convencer Charlie a levar a guerra a sério, afinal 10 milhões de dólares não serviriam para muita coisa nessa situação. Ela propõe que Charlie visite o Paquistão, cuja fronteira estava ocupada por refugiados do Afeganistão, e ele aceita. O presidente paquistanês exige apoio dos EUA para combater os soviéticos em território afegão. O congressista é levado então para um campo de refugiados e fica chocado com o que vê. Pessoas famintas saqueando caminhões de comida, crianças mutiladas por brincarem com minas e gente morrendo em conseqüência da guerra. Nesse momento, Charlie se convence da necessidade da guerra.

A partir de então, ele luta no congresso por verbas para militarizar a resistência afegã. Mas essa não é a única luta de Charlie. No mesmo período, ele também luta contra a imprensa que o acusa de envolvimento com drogas. Ao longo de vários anos da década de 80, Charlie consegue sucessivos aumentos de verba para a guerra. Dos 5 milhões iniciais, a verba da guerra chega a US$ 1 bilhão. Em 1988, o combate chega ao fim, com a vitória do Afeganistão sobre a URSS. Foi a primeira vez, desde o início da Guerra Fria, que um país derrotou os soviéticos. Charlie e sua equipe comemoram. De fato, foi a guerra de Charlie Wilson (signifcado em português do título original do filme, Charlie Wilson's War).

Ideologicamente, Jogos do Poder faz uma crítica sutil ao imperialismo norte-americano. Ele discute a visão clássica que os Estados Unidos têm de si mesmos: os salvadores do mundo. Na Guerra Fria, o país se investe da responsabilidade de "defender" o mundo do avanço do comunismo e da influência da União Soviética, a "força do mal". Por isso fazia sentido alimentar a resistência afegã e vencer o conflito. É o mesmo discurso que Bush, o filho, usou duas décadas depois para justificar a guerra no Iraque: os EUA precisam libertar o povo iraquiano das mãos do terrível e cruel Saddam, e assim instaurar a democracia (à moda norte-americana, claro). O sexo livre e o uso de drogas, a ignorância e irracionalidade do congresso e a perseguição da imprensa acrescentam discussões interessantes.

Mas é nas últimas cenas de Jogos do Poder que a crítica fica evidente. O consultor de Charlie Wilson na guerra, Gust Avrakotos, convence o congressista da necessidade de os Estados Unidos ajudarem na reconstrução do Afeganistão. “Gus” pede para que Charlie lute por verbas para a construção de escolas para o povo afegão. Convencido, o congressista tenta conseguir US$ 1 milhão para o projeto (o orçamento para a guerra no Afeganistão foi de US$ 1 bilhão; a guerra no Iraque vai custar US$ 3 trilhões). Pela primeira vez, Charlie é malsucedido. A verba lhe é negada. O filme termina com uma frase: "Essas coisas aconteceram. Elas foram gloriosas e mudaram o mundo. Mas então eles detonaram com o fim do jogo ".

* Tales Tomaz é editor-assistente da TV ABJ

Ficha Técnica

Título Original: Charlie Wilson's War
Gênero: Drama
Tempo de Duração: 97 minutos
Ano de Lançamento (EUA): 2007
Site Oficial: www.charliewilsonswar.net
Estúdio: Universal Pictures / Playtone / Good Time Charlie Productions / Participant Productions / Relativity Media
Distribuição: Universal Pictures / UIP
Direção: Mike Nichols
Roteiro: Aaron Sorkin, baseado em livro de George Crile
Produção: Gary Goetzman e Tom Hanks
Música: James Newton Howard
Fotografia: Stephen Goldblatt
Desenho de Produção: Victor Kempster
Direção de Arte: Maria-Teresa Barbasso, Brad Ricker e Alessandro Santucci
Figurino: Albert Wolsky
Edição: John Bloom e Antonia Van Drimmelen
Efeitos Especiais: Fugitive Studios / Creative Character Engineering

Elenco
Tom Hanks (Charlie Wilson)
Julia Roberts (Joanne Herring)
Amy Adams (Bonnie Bach)
Philip Seymour Hoffman (Gust Avrakotos)
Brian Markinson (Paul Brown)
Jud Tylor (Crystal Lee)
Hilary Angelo (Kelly)
Cyia Batten (Stacey)
Daniel Eric Gold (Donnelly)
Emily Blunt (Jane Liddle)
Peter Gerety (Larry Liddle)
P.J. Byrne (Jim Van Wagenen)
John Slaterry (Henry Cravely)
Joe Roland (McGaffin)
Om Puri (Presidente Zia)
Faran Tahir (Brigadeiro Rashid)
Rizwan Manji (Coronel Mahmood)
Dennis O'Hare (Harold Holt)
Michael Spellman (Agente Patrick)
Russell Edge (Agente Wells)
Christopher Denham (Mike Vickers)
Ken Stott (Zvi)
Ned Beatty (Doc Long)
Nancy Linehan Charles (Sra. Long)
Mary Bonner Baker (Marla)
Rachel Nichols (Suzanne)
Shiri Appleby (Jailbait)
Wynn Everett (Recepcionista do gabinete de Charlie Wilson)
Terry Bozeman