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Cicatriz indigesta |
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| Cristiane Lüscher |
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| O ocidente sofre com o trauma pós-11 de setembro. O lado islâmico do mundo reflete um mal-estar indigesto. Sem se importar com tal incômodo, as câmeras de O Suspeito nos tiram das Américas para sobrevoar o Atlântico em direção ao Egito. Não mais o dos faraós e pirâmides, mas um berço de radicais extremistas. Aqui estamos, no meio da zona de conflito, local perfeito escolhido pelo diretor Gavin Hood para tecer o melhor de sua trama. As cenas seguem numa movimentada praça egípcia, onde carros, pedestres e animais dividem o asfalto. Lutando contra o trânsito está Douglas Freeman, agente americano, no terno, na prepotência e nos óculos de sol. Compartilhava informações com o agente que liderava as operações no local, mas o diálogo é interrompido por uma explosão. Ou melhor, um ataque terrorista, cujo alvo era Abasi Fawal, um importante líder militar do país. Correria, fumaça, pedaços de concreto e o colega agonizando no colo de Freeman. Washington não demora a tomar conhecimento do incidente, por eles traduzido como “um homem-bomba suicida que atacou um de nós”. É como se ignorassem as outras 18 mortes apenas porque “nosso soldado não voltará para casa”. No mesmo plano, somos apresentados a Corrine Withman, chefe da CIA e vilã da trama. Humanização explícita do discurso americano. Aí está mais um mérito de Hood: filmar seus personagens como posições institucionais. A inteligência do roteiro também se revela na forma aberta como critica a paranóia americana. “Pegar um de nós significa vitória para eles”, deprecia Corrine. A atenção da líder se volta para um egípcio suspeito, que pousaria em Washington horas depois. Este é Anward El-Ibrahimi, que vivia há vinte anos nos Estados Unidos, e no momento voltava de uma conferência na África do Norte. Sua esposa americana Isabelle e o filho de seis anos o aguardavam no aeroporto. Sem explicações, agentes federais o apreendem e interrogam sobre seu possível envolvimento no ataque. Não satisfeita com as respostas de Anward, Corrine ordena que ele seja deportado para o Egito, onde será interrogado por Fawal e o agente Freeman, este último na pele de representante americano nos inquéritos. Sujo, nu e sem qualquer direito de defesa a tortura começa. O movimento de câmera é agressivo, e a imagem tão chocante quanto os habituais vídeos de tortura e genocídios exibidos em telejornais e internet. Numa ligação telefônica com Corrine, o agente Freeman afirma estar desconfortável por ser sua primeira tortura. Vomitando arrogância, ela responde: “Os Estados Unidos não torturam, Douglas”. Claro, só se for aos olhos do grande público. Jogo de interesses De Chicago, Isabella El-Ibrahimi procura ajuda de um amigo influente no governo, e este vai à caça de Corrine Withman. Ignorado, decide usar a imprensa para conseguir respostas. Promete divulgar Anward como um homem de família, graduado na universidade, e que foi detido sem explicações. Que grande exemplo de manipulação da informação! Afinal nada estava checado ainda. Mas antes que a notícia vazasse aos jornalistas, o jogo de interesses rouba a cena. Corrine indaga se vale a pena arriscar a reputação na imprensa por um terrorista. Está provado, democracia não é possível quando se depende da comunicação de massa. Os gritos de Anward El-Ibrahimi parecem não ter fim na sala de tortura. A pressão sobre Freeman o leva a filosofar se tamanho sofrimento é válido em prol do bem-maior da nação. Deixando o patriotismo de lado, o agente consegue a liberação do prisioneiro, reforçando o forte objetivo da trama: livrar a América do mal-estar do 11 de setembro. A história começa com uma morte, mas o público sequer se lembra dela no final. O que fica na mente após sair de frente da tela é apenas a discussão geopolítica que respiramos a cada dia. Embora seja um filme factual, produzido para esse determinado momento da história, todo o acabamento intelectual de Gavin Hood fará sua obra sobreviver por muitas gerações, até nos livrarmos por completo dessas cicatrizes. * Cristiane Lüscher é editora-assistente de O Parcial Ficha técnica: Título Original: Rendition Gênero: Suspense Tempo de Duração: 120 minutos Ano de Lançamento (EUA/África do Sul): 2007 Site Oficial: www.renditionmovie.com Estúdio: New Line Cinema / Dune Films / Anonymous Content / Level 1 Entertainment / MID Foundation Distribuição: New Line Cinema / PlayArte Direção: Gavin Hood Roteiro: Kelley Sane Produção: Steve Golin, David Kanter, Keith Redmon, Michael Sugar e Marcus Viscindi Música: Paul Hepker e Mark Kilian Fotografia: Dion Beebe Desenho de Produção: Barry Robinson Direção de Arte: Tony Noble e Harry Pain Figurino: Michael Wilkinson Edição: Megan Gill Efeitos Especiais: Midnight Transfer Elenco: Reese Whiterspoon (Isabella Fields El-Ibrahimi) Omar Metwally (Anwar El-Ibrahimi) Aramis Knight (Jeremy El-Ibrahimi) Rosie Malek-Yonan (Nuru El-Ibrahimi) Jake Gyllenhaal (Douglas Freeman) Moa Khouas (Khalid) Zineb Oukach (Fatima Fawal) Yigal Naor (Abasi Fawal) Laila Mrabti (Lina Fawal) David Fabrizio (William Dixon) Mounir Margoum (Rani) Driss Roukhe (Bahi) J.K. Simmons (Lee Mayer) Meryl Streep (Corrine Whitman) Bob Gunton (Lars Whitman) Nava Ziv (Samia Fawal) Raymonde Amsalem (Layla Fawal) Simon Abkarian (Said Abdel Aziz) Wendy Phillips (Samantha) Peter Sarsgaard (Alan Smith) Hassam Ghancy (Hamadi) Najib Oudghiri (Omar Adnan) Omar Salim (Rashid Salimi) Alan Arkin (Senador Hawkins) Anne Betancourt (Sharon Lopez) |
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