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...a Lei fosse abolida?

André Leite

Desde o dia em que a Lei de Imprensa foi criada, os profissionais da área tentam (ou fingem que tentam) agir de acordo com as exigências de responsabilidade e ética. Ao mesmo tempo, muitos representantes do poder público gostariam de ver julgados os abusos da imprensa (ou o que eles julgam ser abuso) de acordo com a Lei de Imprensa.

Mas essa constatação não é novidade para ninguém que está em contato constante com o universo da comunicação. (Constatação! Contato! Constante! Felizmente estou protegido contra abusos da Lei, e me permito abusar dessas palavras com sílabas iniciais semelhantes que não ferem a integridade de ninguém). O que poderia vir a ser uma novidade é imaginar o universo jornalístico nacional sem o peso, para alguns, ou o amparo, para outros, da Lei de Imprensa. Ou melhor. Para ser mais futurista, é mais interessante imaginar este universo com o atual projeto da Nova Lei de Imprensa ocupando a função de Lei que ele merece. Então...

Um dia com um repórter sem leis. Ou melhor, sem a Lei.

Ele abre os olhos e já tem uma certeza: não tem mais o direito de manifestar seu pensamento e difundir informações em qualquer meio de comunicação social. Que incerteza de atitudes! O que fazer: ficar em casa e ler o jornal que pouco ou nada crítica ou ir para a redação e pouco ou nada criticar? Vai para a redação porque isso garante o pão na mesa.

No caminho pensa: “Maldita hora em que a Lei desapareceu!” Podia até ser que alguns artigos do ido regulamento parecessem desnecessários, mas ele garantia um preceito básico: a liberdade. Se revolta. “Não quero mais fazer jornal! Qual é a utilidade agora? Fazer publicidade para autoridades e empresas é que não vou.” Mas reflete: “Não tenho mais a liberdade. No entanto, já não tenho mais as obrigações. Vamos ver no que dá”.

Senta na cadeira da redação e entra na internet para pesquisar o assunto a ser usado como cobaia. Um político corrupto? Não. Pode parar na cadeia a qualquer instante depois de publicada a matéria. Uma ariranha que teve filhotes quadrigêmeos? Também não. Em épocas de restrição a liberdade ninguém mais acha graça nas ariranhas. (“Alguém achava graça até mesmo antes da restrição”, se pergunta. Chega à conclusão mais óbvia em milésimos de segundo).

Pesquisa, pesquisa, pesquisa. Encontra. “Assassinato no entorno do Distrito Federal”. O assassino já foi identificado: é a esposa. O assassinado está como estava depois da facada. Ou seja, ambos não podem reagir. Espaço aberto para falar o que bem entender e arriscar escrever após não ter mais que submeter-se à Lei de Imprensa.

Tec, tec, tec. Bate furiosamente nas teclas do computador. Furioso pela ânsia em escrever. Furioso pela insegurança que a nova realidade representa.

Não busca fontes suficientes para basear suas conclusões, discrimina a postura da esposa e do defunto e não dá a mínima para a veracidade das informações que irá divulgar. Na verdade, escreve praticamente um romance.

Leu que a esposa cometeu o crime por conta de uma possível traição e, movida pelo ciúme, descansou a faca de cortar carne no estômago do marido.

Na cabeça do jornalista sem Lei a história ganha outros contornos.

MULHER DESCONTROLADA ASSASSINA MARIDO CHIFRUDO
ELA TRAÍA O ESPOSO HÁ ANOS, MAS DESCOBRIU UMA TRAIÇÃO RECÍPROCA E COMETEU O CRIME

O título e a linha de apoio da matéria estampam vergonhosamente uma das páginas do periódico. O repórter ainda aproveita para inventar uma foto do morto: pede a um amigo ator que interprete um morto e joga catchup sobre ele para fotografar a cena desejada. De longe parece real. Mas, nem de longe, é real.

Passado um dia, o experimento parece ter alcançado sucesso. Sucesso do ponto de vista jurídico. Afinal, o jornalista ainda caminha livremente pela rua que o leva novamente a redação. Mas um fracasso ético e estético. Ético porque se rendeu aos apelos da irresponsabilidade jornalística. Estético porque o amigo ator era péssimo. Deixou um dos olhos vivazmente aberto e denunciou a farsa fotográfica. Mas ninguém deu a mínima pra foto. Na verdade, ninguém dá a mínima para os jornais. Vetados de criticar e analisar as ações da população, restam-lhes apenas os romances policiais mal feitos e outras histórias mal contadas.

Sentado em frente ao computador, prepara outro abuso noticioso. Mas o telefone toca. É a esposa do defunto da matéria. A assassina. Mas, como a Lei de Imprensa já não existe, tal situação evidencia a realidade nacional: diversas outras leis estão extintas ou deturpadas. Agora, assassinar motivado por ciúmes já não é mais passível de pena. A tal esposa o processa por fantasiar a história real. Processar ainda é possível. Afinal, dá dinheiro.

O jornalista estava desatualizado. Sinceramente, escrevia, mas já não queria mais ver jornais e, por isso, acabou por envolver-se em desinformação. Pagou o preço. Tentou apelar ao seu editor, pedindo para que tomasse a responsabilidade para a empresa ou até mesmo para si. O editor riu na face do repórter e se retirou despedindo-o.

No banco da praça, sem lenço para enxugar as lágrimas que simbolizavam a dor de estar sendo processado judicialmente e desempregado jornalisticamente, o repórter reflete sobre a nova realidade. “A antiga Lei podia exigir pequenos deveres, mas possibilitava grandes benefícios. Bastava um pouco de ética e responsabilidade para ter em troca a liberdade de expressão”. Passa um ladrão e lhe rouba a carteira que contém RG, CPF e carteirinha da Fenaj. Agora sim, está sem lenço e sem documento. O jornalista chora querendo voltar a escrever reportagens éticas e responsáveis. Na verdade, ele quer a liberdade de volta.