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Quem é essa mulher?*

Matheus Siqueira

“Quem é essa mulher? / Que canta sempre esse estribilho? / Só queria embalar meu filho/ Que mora na escuridão do mar”.  Stuart Angel Jones foi um dos muitos torturados e assassinados nos porões da ditadura militar. Seu corpo, jogado no mar para a angústia da mãe, nunca foi achado. Em homenagem à mãe de Stuart, seu amigo Chico Buarque escreveu a música “Angélica” (Clique aqui para baixar a música) .

“Quem é essa mulher? / Que canta sempre esse lamento? / Só queria lembrar o tormento / Que fez meu filho suspirar”. No livro “Estação Carandiru”, de Drauzio Varella, ele analisa que o amor da mãe pelo filho é o único que perdura mesmo nas piores adversidades. A mãe de Stuart Angel foi uma dessas mães que, desesperada ao descobrir a morte de seu primogênito, procura nas suas memórias o apoio para continuar vivendo sem poder demonstrar o amor a seu filho.

“Quem é essa mulher? / Que canta sempre o mesmo arranjo? / Só queria agasalhar meu anjo / E deixar seu corpo descansar”.  Sozinha na luta para descobrir o paradeiro do seu filho, a mãe de Stuart desafiou os militares tentando achar o corpo do seu filho, para poder dar um enterro digno de um ser humano.

“Quem é essa mulher? / Que canta como dobra um sino? / Queria cantar por meu menino / Que ele já não pode mais cantar”. Estilista brasileira, foi pioneira ao levar sua moda para as passarelas de Nova York. Estampado na coleção da sua grife, levou mensagens de protesto contra a ditadura e contra a tortura que aqui estava sendo praticada.

Quem é essa mulher?

Essa mulher é Zuzu Angel, título e tema do filme dirigido por Sérgio Rezende. Essa mulher, após levantar dados suficientes para incriminar os responsáveis pela morte de seu filho, sofreu um misterioso acidente de carro que a matou pouco antes de entregar as provas para a mídia.

Como que tirado da música “Angélica” de Chico Buarque, o filme “Zuzu Angel” narra com maestria a triste história dessa mulher que apenas buscava uma “cama” para “embalar seu filho”, como narra a canção de 1981. Pertencente à nova onda de filmes brasileiros, que mais se assemelham às produções européias, a produção certamente se assemelha aos atuais concorrentes ao Cannes.

O modo como o longa-metragem transcorre é envolvente e prende o espectador do começo ao fim. Com um enredo forte, cujo desenvolvimento contou com a colaboração das duas filhas da estilista, o filme apresenta inicialmente ao espectador as fases da vida de Stuart Angel Jones, o filho de Zuzu Angel, e seu envolvimento com Carlos Lamarca e o MR-8.

Sérgio Rezende enfatiza muito o tema do amor maternal. Uma das cenas mais tensas do filme é o gesto descabido de Zuzu que, ao procurar o pai de Carlos Lamarca, diz: “Meu filho morreu para salvar o seu”. Como observa Drauzio Varella nos seus livros “Estação Carandiru” e “Por um fio”, o amor de uma mãe é o único que perdura pelas mais difíceis adversidades. Esta afirmação está presente durante os 108 minutos do filme.

Patrícia Pillar, atuando como protagonista, manteve consistência na sua atuação ao longo da produção. Um dos destaques é a representação que ela faz desse amor de mãe pelo filho. Diante da dura realidade do assassinato e desaparecimento do corpo do Stuart Angel, uma das saídas encontrada pela personagem foi recorrer às memórias como um escape psicológico ao presente.

Outro destaque é a maneira como a mãe procura se redimir do assassinato do filho. Desesperada, ela se convence a trazer à justiça os que mataram seu primogênito Stuart. Busca essa realização ao recolher materiais e provas para lançar na mídia mundial, através da Anistia Internacional. Aqui ocorre um verdadeiro trabalho jornalístico de caça às fontes, provas e testemunhas.

Nesse período após a morte do filho, entre o desfile em Nova Iorque e a busca de testemunhas e provas, o regime militar começa a considerá-la uma pessoa “subversiva”. Como narra a história, pouco antes de entregar a documentação, acontece um “estranho” acidente de carro onde Zuzu morre.

Sérgio Rezende, diretor do longa-metragem, possui um histórico de filmes produzidos que giram em torno de um só personagem, como “O homem da capa preta”, “Lamarca”, “Canudos” e “Mauá: O imperador e o rei”. Em todos esses, assim como em “Zuzu Angel”, explicar o contexto histórico não é o objetivo final do diretor. A época em que a história se desenrola funciona como um ator-coadjuvante que ajuda no desenvolvimento da personagem principal. O objetivo do filme é retratar e divulgar a imagem de “Zuzu Angel” e a força do seu amor maternal.

*Texto baseado no artigo de Walter Navarro:
(http://www.otempo.com.br/otempo/colunas/?IdEdicao=272&IdColunaEdicao=1384 )

Ficha Técnica
Título Original: Zuzu Angel
Gênero: Drama
Tempo de Duração: 110 minutos
Ano de Lançamento (Brasil): 2006
Site Oficial: www.zuzuangelofilme.com.br
Distribuição: Warner Bros.
Direção: Sérgio Rezende
Roteiro: Marcos Bernstein e Sérgio Rezende
Produção: Joaquim Vaz de Carvalho
Produção Executiva: Heloísa Rezende
Música: Cristóvão Bastos
Fotografia: Pedro Farkas
Direção de Produção: Laís Chamma e Mílton Pimenta
Direção de Arte: Marcos Flaksman
Figurino: Kika Lopes
Edição: Marcelo Moraes