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Jornalismo desalmado

Anita Leite

Escrever um lide é simples. Basta distribuir as informações de forma direta e seqüencial, acrescentando o maior numero de informações essenciais.  O manual de redação do O Estado de S.Paulo, página 18, diz que as informações devem ser dispostas no lide de maneira suave e harmoniosa. O restante da matéria contém informações de aprofundamento, que adicionam, incrementam e às vezes até opinam acerca do fato.

Mas no lide não. Não existe opinião, nem dificuldade e muito menos complicação. Para o leitor também é simples. Quem quer entender o básico lê só o lide e fica a par do assunto. Um bom lide é fundamental para uma boa matéria. Mas o cerne, a alma do jornalismo não está no lide. A alma do jornalismo está na investigação. Está em dar ao leitor uma sensação, um gosto, um detalhe que só as palavras de um atento observador seriam capazes de oferecer.

Básico ou medíocre?

Lamentavelmente, a cobertura realizada pelo periódico O Estado de S.Paulo, sobre as alterações da Lei de Imprensa foi um festival de lides. As informações foram bem distribuídas: nomes, datas e números foram categoricamente descritos. Mas faltou aprofundamento.

O leitor obteve a informação de que o ministro Carlos Ayres Britto disse que nossa lei é antiquada, que nossa imprensa sofre as seqüelas da ditadura. O leitor adquiriu o conhecimento de que 20 artigos da Lei de Imprensa tiveram efeito suspenso, e que processos que se encaixam nesses artigos estão juntamente suspensos até uma palavra definitiva do Supremo Tribunal Federal.  Mas saber é muito pouco.

Agarrado a ânsia de dizer o quê, quando, como, quantos e quais artigos da Lei foram alterados, o Estadão tolheu o principal: o debate sobre a necessidade da reformulação de tais leis.   Um debate como este, de interesse não só do público leitor mas também do jornal, não poderia ser assim, letargicamente, ignorado.

Essa lei serve de esteio para acusações e opressões sobre o jornalismo. Mas é também sua salvaguarda e ataque a favor da liberdade de expressão. É a Lei de Imprensa que dá ao jornalista o livre arbítrio para, com a palavra, criticar e agir sobre os problemas sociais.

Simplesmente reproduzir o que foi dito é muito pouco para um veículo de jornalismo de referência como o Estado de S.Paulo.

Missão e omissão

Mais do que informar, o jornal tem o papel social de formar. Formar opinião. O jornal deve dar elementos, debater, para que o leitor construa sua cosmovisão sobre o assunto. O leitor precisa descobrir como a notícia atinge seu trabalho, sua escola, seu bairro... Enfim, a sua vida.

Informando dessa maneira, o jornal vira telenovela. Transforma o leitor em um ser inerte, passivo para com os problemas sociais. Muniz Sodré escreve em O Monopólio da Fala, página 24, que a televisão separa os dois pólos da comunicação: emissor e receptor.

O jornalismo impresso não pode minguar nessa mediocridade, pois traz consigo a virtude de fazer pensar. Geralmente, o leitor de jornal impresso quer entender, discutir, opinar. Quer ler entendimento, discussão, opinião. E dessa vez, faltou o entendimento. Faltou entendimento por parte das empresas produtoras de informação, de que o leitor de jornal é crítico e deseja, não só informação, mas conteúdo para sua formação.

Um jornal que não se posiciona, que não discute, faz um desfavor à sociedade. É o tipo de papel que serve para embrulhar peixe no mercado no dia seguinte. Seria mais interessante criticar uma mídia tendenciosa do que uma mídia omissa.