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...a polícia e os jornalistas competissem para resolver um caso? |
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| André Leite |
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Ok. Falar sobre uma competição entre policiais e jornalistas para resolver um caso não é uma proposta tão inovadora, já que há casos de repórteres que buscam ser mais rápidos que policiais para resolver os mistérios de um crime. Imaginar uma competição entre essas duas classes de profissionais é praticamente parafrasear a realidade. Mas, e se esta disputa deixasse de ser disfarçada e se tornasse explícita? Uma espécie de jogos olímpicos dos casos investigativos? Tentemos. - Senhores jornalistas e policiais. Em alguns minutos, vocês estarão envolvidos em uma disputa que deve definir quem de vocês é mais eficaz no que diz respeito à investigação. Armas ou blocos de anotação? A lei da farda ou a persistência jornalística? Vocês é que darão a resposta. Quem dava as instruções era um general do Exército brasileiro. - Um dos empresários mais influentes de São Paulo foi encontrado morto às 10 horas da manhã desta quinta-feira. Ele estava estendido em seu escritório e foi visto pela primeira vez nestas condições pela empregada doméstica. Isso é tudo. Não há mais informações sobre o caso. Na função de oficial do Exército brasileiro, eu declaro abertos os Primeiros Jogos Olímpicos de Investigação. E saíram todos aos tropeços da sala de reuniões. Cerca de 50 jornalistas e 150 policiais. Os primeiros a agirem foram os jornalistas. Um ligou para uma fonte fiel. - Alô, Macedo! Aqui é o Alberto, da Folha da Capital. Emburrado, o jornalista desligou o telefone e tentou pensar em outra pessoa pra saber mais sobre o caso. Não conseguiu porque era muito limitado e tinha uma fonte só. Ao menos, começou a aprender que era necessário ter uma vasta lista de fontes. E por ter este tipo de lista, outro repórter começou a desvendar o caso. Chegando ao local do crime de helicóptero, descobriu que mesmo pelo ar não tinha sido tão rápido quanto seus adversários. Já que se tratava de uma competição, os policiais haviam mobilizado toda uma equipe para ir até o local do crime e começar a fazer perguntas. - Alô! Albuquerque? Parecia que o Albuquerque não queria colaborar. - Então, rapaz. Eu queria estender minhas condolências pela morte do seu amigo. O Albuquerque não tinha gostado mesmo das insinuações do jornalista. Mas como este estava mais preparado que o outro ligou para uma fonte diferente: o contador da empresa. - Ô Vieira, quanto tempo! Desligou e não sabia que havia sido grampeado. O amigo Vieira estava envolvido em esquemas de financiamento ilegal de campanhas políticas e por isso tinha seu telefone nas mãos, ou melhor, ouvidos da polícia. Assim, quando o jornalista foi ligar pra viúva recebeu apenas a linha ocupada e, pouco tempo depois, a informação pela rede de TV concorrente de que a polícia ia prender a esposa de Alfred Bittencourt por ter planejado o assassinato do marido para encobrir um romance extra-conjugal. Com a competição ganha pelos policiais, o jornalista resolveu voltar ao local onde a maior parte dos outros repórteres estava: em frente a mansão dos Bittencourt tentando se justificar por não terem conseguido vencer a competição. - Esses policiais também... Como a gente vai competir com o poder público. Eles têm autonomia pra fazer tudo o que quiserem. Assim não dá. Essas olimpíadas são uma furada. Em meio as reclamações, o tal jornalista da GTV viu uma mulherzinha com avental sujo de comida chorando próximo a uma árvore. Sentiu dó e foi tentar consolar a moça. - Olá. Você era parente do Bittencourt? Pelas roupas simples não devia ser mesmo. Mas a pergunta foi suficiente para fazer a mulher voltar a chorar e tentar responder entre soluços. - Não. Eu... era... só... a... empre...gada. A empregada não parava de soluçar e chorar. O jornalista, um pouco mais humano, resolveu improvisar algumas palavras de conforto. - Então, não se preocupe. Os culpados já foram encontrados. A polícia descobriu que a esposa do Bittencourt e o Albuquerque armaram o assassinato. Com um choro tão chorado, o jornalista achou que o problema era mais grave e tentou racionalizar. E chegou a uma conclusão: a mulher chorava porque não teria mais onde trabalhar. Morto o patrão e encarcerada a patroa, agora ela não teria mais o salário garantido. - Já sei, moça. Se o problema é trabalho eu chamo você pra fazer faxina em casa. Ela parou de chorar um pouco e resmungou limpando o nariz. - Tá bom. Mas não é isso, não senhor. Não teve novo salário. Louco para ganhar a competição, o jornalista dedurou a empregada e garantiu a vitória e as medalhas de latão pintado de dourado para os profissionais da imprensa. Feliz ficou a mulher do Bittencourt. Com o dinheiro do marido, confirmou seu caso com o Albuquerque e foi passar novas férias no Havaí. Presa, só restou a empregada continuar chorando e se lamentando por falar demais. Além, é claro, de odiar o telejornal local da GTV. |
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