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Made In England

Moabe Giudice

O Brasil é um dos países do mundo que mais importa. Nesses 508 anos de história foram importados costumes, povos, língua e até mão-de-obra. A própria cultura brasileira é um misto de povos sul-americano, indígenas, europeus, africanos, asiáticos e árabes. Com o jornalismo policial a história não foi diferente. As primeiras coberturas de polícia surgiram nos jornais sensacionalistas da Inglaterra e Estados Unidos no século 19. Anos depois o mesmo modelo de fazer notícia seria importado ao Brasil. E desde então foi ganhando força. Atualmente,  a reportagem de polícia é utilizada por quase todos veículos de comunicação do país.

O curioso nessa história é que a editoria de policía não mudou muito com o curso dos anos. Na própria França, no século passado, esses jornais, conhecidos como populares, faziam sucesso justamente por retratarem fatos chocantes. A fórmula era sexo, sangue e violência, ingredientes que atraiam a curiosodade de muitos. Esse conceito sensacionalista é até hoje o grande filão do apelo popular e a idéia de que as notícias ruins são boas, está aí há mais de dois séculos. E o Brasil herdou essa herança dos ingleses.

A grande mudança, e talvez a única do jornalismo policial é o sensacionalismo interminável que as empresas de comunicação fazem questão de dar a notícia. Isso se justifica pela briga do ibope a qualquer custo pois as notícias estão cada vez mais orientadas para o que interessa a audiência, em vez de o quê a sociedade necessita saber. Thomas Patterson ao escrever sobre as Tendências do Jornalismo Contemporâneo, afirma que as matérias de polícia tem grande aceitação popular, mas assinala que a idéia segue uma linha contrária ao ideal do jornalismo, que é oferecer aos cidadãos a compreensão clara do seu papel na sociedade.

Essa direção oposta que Patterson descreve pode ser justificada pela maneira que os repórteres dessa editoria são pautados.  As notícias geralmente incluem a cobertura de assassinatos, assaltos, furtos, sequestros, tráfico de drogas e outros. O glamour da profissão de repórter policial é justamente correr riscos em busca de uma boa informação. Os maiores expoentes profissionais desse segmento no Brasil são Gil Gomes, Wagner Montes, Marcos Nunes, Sérgio Meirelles, Caco Barcellos, Marcelo Resende, José Amaral Argolo e Tim Lopes. Este último, foi assassinado em 2002 quando produzia uma reportagem sobre exploração sexual de menores.

Vale ressaltar que esse estilo de editoria tem maior espaço na cobertura de jornais do interior. Em suas páginas é comum encontrar fotos de pessoas assassinadas, mulheres violentadas e acidentes envolvendo vítimas. Geralmente os editores dedicam boa parte da folha para imagens chocantes e as palavras usadas são agressivas e abusivas, pretendendo deste forma chamar a atenção do leitor para a notícia.

No rádio, a cobertura de polícia começou no século passado. Sua receita de sucesso baseia-se simplesmente na narração e dramatização dos fatos, criando um clima de suspense crescente. O programa policial de maior audiência, que se tem notícia é o de Gil Gomes. O sucesso do radialista foi tão grande que outras emissoras resolveram adotar o gênero.

A chegada deste estilo na televisão data de 1980. Nesse veículo a notícia tem maior notoriedade por transmitir ao público a cobertura completa dos fatos. Por meio de imagens e entradas ao vivo, o telespectador pode acompanhar o desastre no exato momento em que ocorreu. Os programas A hora da Verdade, Cidade Alerta, Repórter Cidadão, Linha Direta e Brasil Urgente são os maiores nomes desse noticiário. E José Luiz Datena o maior nome do jornalismo policial da televisão. Com seu estilo intolerante, impaciente e bravo, o apresentador tem se destacado pelos seus berros diante do noticiário. Seu programa, diga-se, é o campeão de audiência da emissora.

Os repórteres de polícia parecem ter incorporado essa fórmula pronta que os ingleses encaixotaram, carimbaram e enviaram ao Brasil. Resta saber até quando o jornalismo policial importará absolutamente tudo dos países vizinhos.