O que é? O que é? Se ganhar o Oscar é o sonho dos artistas, o enigma é a ambição do jornalista policial. Após o Oscar os artistas recebem dois “armários” como guarda costas, assim como os jornalistas depois do inédito acontecimento. O filme é quem rende o Oscar para o artista, e para o jornalista policial, a coroa de louros vem com a resposta de nossa charada: o furo de reportagem.
Rogério recebe um telefonema às 3 horas da manhã. Uma denúncia, e o dia começa. Nos primeiros minutos do dia, o repórter policial vibra com a notícia. Para alguns, ser acordado para o trabalho nesse horário é uma tortura. Para jornalistas policias isso tem outro nome: furo de reportagem. A oportunidade única de aparecer na capa dos grandes jornais da cidade ou de ser promovido. Algo bombástico pode ser o cheque-mate para aumentar as vendas, a notícia do ano.
A editoria de jornalismo policial sobrevive de furos de reportagem. Cadáveres, ladrões, maníacos, traficantes, policiais, entre outros, são personagens que entram no campo minado para protagonizar a história. Com tanta tragédia para explorar, o repórter não pode esquecer que nem toda denúncia que chega às suas mãos é verdadeira. Para garantir o furo é preciso boas fontes, investigação e muito suor.
A equipe policial da Folha de Pernambuco trabalha 24 horas. Os repórteres revezam a ronda em quatro períodos para não deixar escapar nenhuma notícia. Mas no quesito pautas, não são só os jornalistas que põe a mão na massa. Leitores, população, Secretaria de Defesa Social e outros órgãos públicos também opinam.
A editora do caderno, Karina Maux, atua a treze anos na área policial e coleciona reportagens exclusivas. Em 2003, chegou aos ouvidos da redação o assassinato de duas adolescentes numa casa de praia, que mais tarde ficou conhecido como caso Serrambi. A polícia havia detido dois suspeitos, mas a equipe de Karina largou na frente e descobriu os verdadeiros criminosos. A jornalista quase teve o mesmo fim que as vítimas, já que foi ameaçada de morte durante as investigações.
Tiro certeiro
O furo de reportagem não é para qualquer um. A singularidade do fato, abrangência e exclusividade da história devem marcar presença. Sem essa roupagem, a notícia não passa de uma notinha no canto da página. Para pesar um furo de reportagem, basta utilizar a repercussão como júri. Neste caso, rechear o bolso do jornal é tiro certeiro.
Há sete anos um furo de reportagem monopolizou a mídia nacional. A dupla Carlos Henrique Nunes e Claiton Magalhães, do grupo RBS, recebeu uma denúncia bombástica do ex-tesoureiro do PT que atuou na eleição no governador rio-grandense Olívio Dutra. Durante a campanha, o partido teria recebido injeção de 600 mil reais vindos de origem ilícita de jogo do bicho. O montante teria sido lavado na compra de um prédio para sediar a campanha. A fim de legalizar a verba, os políticos arrumaram 80 correligionários para supostamente sustentar a origem do dinheiro com um empréstimo.
Percebendo a singularidade da notícia, o jornal Diário Gaúcho dispensou os repórteres durante dois meses somente para investigar o caso. O furo teve seu caráter revelado nos episódios seguintes. Uma decisão judicial censurou o texto antes mesmo da publicação. Além dos esforços serem reconhecidos no Diário Gaúcho com um suíte de matérias, o Zero Hora cedeu duas páginas para tratar o assunto.
No entanto, a repercussão de um furo de reportagem não se limita à publicação. Toda investigação desse porte deve ter uma conseqüência a altura. Foi o que aconteceu no furo da RBS. “O que fizemos foi o começo das dores, essa reportagem originou as investigações do mensalão”, orgulha-se Magalhães.
E esse não foi o ponto final dos furos de reportagem para Claiton Magalhães. Em 2002 o repórter soube que a prefeitura de Porto Alegre gastava 600 mil reais em madeira todos os anos para montar as arquibancadas do desfile das escolas de samba. Duvidando dos gastos com o material, o jornalista partiu para a rua. Descobriu que o material era vendido após o carnaval, crime perfeito para uma manchete. É claro que não faltaram ameaças telefônicas e tentativas de agressão, motivo que levou a empresa a contratar dois seguranças para salvar a pele do jornalista. Mas as recompensas chegaram a tempo. Após uma CPI na câmara dos vereadores, a cidade ganhou um sambódromo e acabou a palhaçada.
Corre que vem a polícia
Troca de interesses. Essa é outra fórmula infalível para garantir um bom furo. É quando o policial quer ver seu rostinho na capa do jornal no dia seguinte e liga para o jornalista que, por sua vez, procura o que publicar no dia seguinte. Parcerias como essa acontecem com mais freqüência do que imagina e cabe aos jornalistas estarem cientes de que essa é uma excelente fonte a ser cultivada.
A fórmula rendeu um furo legendário para Carlos Nunes. Uma fonte da Polícia Federal gaúcha contou a ele os detalhes de uma rota internacional de tráfico de drogas que vinha da Bolívia, passava por Porto Alegre e desaguava para a Austrália. Quando a quadrilha foi descoberta, a prisão foi marcada para acontecer de madrugada no Brasil e na Austrália, ao mesmo tempo, com diferença de fuso horário. A fonte telefonou para o repórter, que decidiu publicar a notícia antes mesmo de ter acontecido. Nunes assumiu o risco e, no dia seguinte preencheu a capa do Diário Gaúcho com seu furo de reportagem. Para a sorte do profeta, a notícia era exatamente a mesma que o fato.
Muitos jornalistas anseiam roubar a cena e ser o centro das atenções. No entanto, essa relíquia é para poucos. Alguns profissionais atuam a vida toda e não encontram seu furo de reportagem. O jornalismo policial esbanja adrenalina, mas não teria tanta graça sem o furo. Embora todas as reportagens tenham seu mérito, este exige exclusividade e não acontece com tanta freqüência. Não é o pão nosso de cada dia. O Oscar só acontece uma vez por ano.
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