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O campo da notícia

Carina Bentlin

Uma boa relação se constrói com confiança. Parece jargão de livro de auto-ajuda, do tipo “como ter um casamento perfeito”.  A comparação não é em vão, pois não seria exagero dizer que a relação entre jornalista policial e fonte é um casamento.

A fonte tem suas razões para dar com a língua nos dentes. Este ato de passar a informação à diante é uma construção social, composta obviamente de dois agentes. A fonte tem interesse de promoção e divulgação de algo, ou mesmo massagear o ego. E o jornalista, sempre à espreita de uma informação privilegiada, tem o interesse em dar o furo tão esperado.

Há de se ter muita cautela no trato com as fontes. Além do encargo de interesse pessoal, uma fonte provavelmente nunca é só uma fonte. Nunca é só uma fonte na questão numérica mesmo. Às vezes, junto com ela tem mais um, dois e por aí vai. A banda pode estar completa, ora tocando afinado ou não. São os personagens mais que ocultos. Saber a razão de tal anonimato pode aguçar o faro do jornalista. Esses interesses não confessados podem ter cunho político, estar relacionado a algum quadro social e muitas outras coisas. Resumindo, fonte e jornalista, campo (minado) da notícia.

No entanto, muita coisa mudou no jornalismo policial. No livro "Mídia e Violência - Novas Tendências na Cobertura da Criminalidade e Segurança no Brasil", de Sílvia Ramos e Anabela Paiva, jornalistas comentam alguns pontos. "Eu peguei o tempo em que o policial batia no preso e o repórter não falava nada", comentou um jornalista. "E eu peguei o tempo em que o repórter batia no preso", disse outro.

O livro é resultante de três anos de pesquisas sobre a produção diária de jornais, com avaliação de 5.165 textos e entrevistas com 90 jornalistas e especialistas em segurança pública. Marcelo Beraba, ex-ombudsman da Folha e primeiro presidente da Abraji (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo), é citado no livro dizendo que “pouco a pouco, as velhas práticas de reportagens de polícia, como a troca de favores com fontes policiais, estão sendo reduzidas”.

Jornalismo de papel

E as fontes inanimadas? Sim! Elas são constantes. Soma de um bocado de preguiça, corrida contra o tempo, comodidade e uma fonte disposta a dar sua notícia, sem mais perguntas e respostas. Os dois lados do caso na mesma hora, no mesmo lugar e a história já mastigada, o simples B. O. e pronto. E mais uma notícia para ajudar a preencher a página.

As versões oficiais sempre existirão, mas está no dever do jornalista o ofício da busca e designação da informação. Cabe a ele e ao veículo em que atua. Cabe a ele optar pela ética e validade da notícia. No jornalismo policial a apuração não deve se satisfazer com uma fonte exclusiva e oficial. O repórter deve mediar à notícia de maneira responsável, buscando o relato do que realmente aconteceu.

Vale questionar e ressaltar algumas posturas. Alguns profissionais atuam além da prática jornalística, se dão o direito de interrogar no lugar de simplesmente entrevistar. Caem no sensacionalismo e tornam-se justiceiros. A notícia e o próprio jornalista podem tornar-se vítimas.

Sorte

Conversar muito, com todas as pessoas, sem pretensão. Numa dessas, a notícia pode vir a galope. Foi o que aconteceu com o repórter Luiz Alberto Weber.

O tesoureiro da campanha do presidente Fernando Collor, PC Farias havia guardado no exterior parte do dinheiro ilegal arrecado na campanha, para onde fugiu depois que o crime foi descoberto. A Polícia Federal estava à caça de PC. Weber e os agentes federais ficaram sabendo quase ao mesmo tempo que a mulher de Jorge (o piloto do jatinho que levara PC) iria encontrá-lo em algum país da América do Sul.

A polícia soube porque grampeara o telefone da mulher. Já Weber porque recebeu de um funcionário de uma agência de turismo, em Brasília, a informação que um agente de polícia estivera ali para checar se a mulher de Jorge tinha vôo marcado para o exterior.

Weber pegou o mesmo vôo e acompanhou todo o trajeto da mulher. Durante toda a reportagem investigativa, Weber contou com muita sorte e fontes inesperadas. Conseguiu acompanhar toda a história até a ação da PF que os detiveram algumas horas depois. A notícia não foi um furo, pois foi divulgada em seguida pelo ministro interino de justiça, mas só quem tinha a história completa era Weber.