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A covardia que silencia

Luzia Paula e Patrícia Matter

"Juro, no exercício das funções de meu grau, assumir meu compromisso com a verdade e com a informação. Juro empenhar todos os meus atos e palavras, meus esforços e meus conhecimentos para a construção de uma nação consciente de sua história e de sua capacidade. Juro, no exercício do meu dever profissional, não omitir, não mentir e não distorcer informações, não manipular dados e, acima de tudo, não subordinar em favor de interesses pessoais o direito do cidadão à informação”. Todos os anos, estudantes de jornalismo repetem esse mesmo juramento durante a formatura. São frases bonitas e brilhantes. Frases que, desde que levadas a sério e respeitadas, colaboram com o direito do exercício da cidadania.

Respeitados os princípios éticos, qualquer profissional tem o direito de exercer sua profissão, e isto é ponto pacífico. Entretanto, em se tratando especificamente de jornalismo, o voto citado acima muitas vezes não passa de mera ilusão. Grande parte dos que tentaram desvendar eventuais casos de corrupção, foram brutalmente calados. Os que ainda não foram, vivem acuados diante do perigo iminente de morte.

Nem sempre funciona ser o “gogó do povo”, nem sempre dá certo aventurar-se a falar. Alguns até tentaram, porém poucos conseguiram. Do silêncio forçado, sobrou a história e o exemplo de garra e determinação em busca da verdade. Profissionais que, acima de tudo, eram cidadãos. Cidadãos que sentiam as dores da sociedade e, por isso, empenharam seus talentos para amenizar o sofrimento dos angustiados.

Os dados são alarmantes. Um levantamento feito pela revista Imprensa divulgado na edição de fevereiro deste ano mostrou que, nos últimos 25 anos, 42 jornalistas foram mortos no exercício da profissão. Esse lamentável dado evidencia o imenso risco a que estão expostos os repórteres investigativos, engajados em desvendar os casos de corrupção nos diversos setores da sociedade brasileira. Fazendo parte desta triste estatística, encontra-se o mineiro Mário Eugênio Rafael de Oliveira. Apaixonado pela profissão, o jovem repórter foi morto porque se recusou a ficar calado.

Morte prematura

Eram aproximadamente 23h55 do dia 11 de novembro de 1984. Como sempre, o repórter impetuoso cumprira sua missão ao denunciar em seu programa “Gogó das Sete”, irregularidades cometidas justamente por aqueles que deveriam zelar pelos diretos e proteção da sociedade. Ao se aproximar do seu Chevette, esse porta-voz do povo, que sempre abria seu programa na Rádio Planalto com o jargão “aqui só se fala a verdade, somente a verdade, doa a quem doer”, foi covardemente morto com sete tiros pelas costas. Os disparos não somente feriram seu coração e pulmão... feriram também o direito de investigar e denunciar o erro. Arranharam a democracia.

Com apenas 31 anos, Mário Eugênio Rafael foi morto porque denunciava a atuação de um esquadrão da morte em Brasília. Ironicamente, o esquadrão era formado por policiais civis e por militares do exército. Mesmo após a sentença ser dada, mais de vinte anos se passaram antes que todos os assassinos fossem colocados atrás das grades. Até então, os homicidas passeavam livremente pelas ruas da cidade. Os assassinos são rápidos; a lei é que ainda é muito morosa. Tal lentidão incentiva e encoraja os infratores a cometerem seus crimes. 

Repórter destemido

Formado em Comunicação Social pela Universidade de Brasília (UnB), Oliveira dedicava-se exclusivamente à profissão que tanto defendeu. Movido pelo desejo de ser porta-voz da sociedade, atuou em jornais como o Diário de Brasília, o Correio do Planalto e na sucursal de O Estado de S. Paulo, em Brasília. O jovem mineiro tinha a fama de ser impetuoso. Enquanto ocupava os bancos da faculdade, talvez ele sonhasse em defender os direitos básicos de sociedade brasileira. No entanto, anos depois, suas atitudes incomodariam os que estavam à margem da lei. Sua carreira foi brutalmente interrompida. Infelizmente, porém, a coragem do locutor do “Gogó das Sete” parece não mais se refletir nos atuais candidatos a porta-vozes da sociedade.

Uma pesquisa realizada no início deste ano pelo Laboratório Educacional do Centro Universitário de Belo Horizonte (UniBH) entre estudantes de Jornalismo obteve um resultado comprometedor  para o futuro da profissão. Nenhum dos entrevistados pretende se envolver em reportagens investigativas. É lamentável o fato de que, em um país com tantas irregularidades na política, economia e na própria polícia, nossos futuros repórteres escolham virar as costas para isto e fingir que nada está acontecendo.

Portanto, nossos aplausos aos mártires da informação que conseguiram com a própria vida trazer à tona a veracidade dos fatos. Nossos votos de admiração aos que não se acovardaram e aos que não se acovardam. Oliveira não deixou filhos, mas sua curta e valorosa carreira nos deixou um exemplo de garra e determinação em busca da verdade. Oliveira foi fiel ao seu juramento.