Resenhas geralmente têm a função de resumir e criticar uma obra. No caso do filme Tropa de Elite do diretor José Padilha seria redundância descrever, mesmo que de forma abreviada, o roteiro cinematográfico mais polêmico e assistido do Brasil.
Nunca um filme brasileiro mexeu tanto com a opinião do público, da imprensa, dos especialistas ou de qualquer pessoa que o tenha assistido. Padilha torna impossível ao espectador não emitir opinião a temas que cada vez mais tem torturado o cidadão carioca: a violência urbana e a relação bandido-policial-cidadão. De acordo com uma pesquisa realizada pelo Datafolha, 80% dos entrevistados considera o filme bom ou excelente. Não foi por acaso que ganhou o Urso de Ouro no Festival de Berlim.
É inegável a genialidade como o tema é abordado. Entre tapas e cuspidas na cara, o capitão Nascimento grita para o aspirante "pede pra sair, pede pra sair, seu zero dois, você é um fanfarrão seu zero dois." Falas marcantes do roteiro que se tornaram jargão no cotidiano da população. O filme é tão controverso que deu origem a programa de comédia na TV Record, textos de novelas da Rede Globo e até peças de publicidade, sem falar nos debates e entrevistas que diretor foi convidado a participar.
Com muitas cenas de ação, tortura, violência e corrupção – próprias para retratar a polícia carioca – o filme ganha a atenção do público que gosta mesmo de ver sangue. A filmagem é boa, a interpretação é soberba, o roteiro é digno de Oscar, se não fosse o Ministério da Cultura inscrever O ano em que meus pais saíram de férias. Mas é preciso atentar para uma questão que foi pouco comentada pela mídia. Como o filme é avaliado pelo público no sentindo profundo da temática? Que é um bom filme isso é inquestionável, mas por que capitão Nascimento se torna um herói de uma guerra não declarada?
Com o dilema de decidir quem será seu sucessor no Batalhão de Operações Especiais (Bope), o filme apresenta o capitão Nascimento como um policial truculento, impiedoso e acima de tudo eficiente. É o retrato real de uma policia que justifica a prática da tortura e a da violência por meio da competência e disciplina nas operações dos soldados do Bope.
Fica claro entre uma cena e outra que um dos objetivos do filme é fazer uma denúncia de que os sistemas político e social não conseguem resolver o problema da violência no Rio de Janeiro, nem com a ação eficiente do Bope. José Padilha cumpriu com maestria a função de retratar uma policia bem treinada, incorruptível, competente e que mata sem fazer questão.
O público preferiu exaltar o matar sem fazer questão. O povo gostou do filme não porque ele bem filmado, porque tem uma história bem contada, porque escancara as entranhas podres da Polícia Militar ou porque sai da tradicional prática de contar a historia na visão romantizada do bandido. E sim porque ele é violento. Porque o bandido morre com bala calibre 12 na cara, porque o caguete fala sobre a tortura de levar o cabo de vassoura em um lugar nada agradável.
A notoriedade do filme se dá por muitos motivos, mas a principal delas deveria ser que o filme denuncia uma prática antiga das autoridades policias. Policial atua como bandido: matando, torturando e corrompendo. Porque se cumprir missão é matar, a missão está sendo cumprida com êxito.
Ficha Técnica
Título Original: Tropa de Elite
Gênero: Ação
Tempo de Duração: 118 minutos
Ano de Lançamento (Brasil): 2007
Site Oficial: www.tropadeeliteofilme.com.br
Estúdio: Zazen Produções
Distribuição: Universal Pictures do Brasil / The Weinstein Company
Direção: José Padilha
Roteiro: Rodrigo Pimentel, Bráulio Mantovani e José Padilha
Produção: José Padilha e Marcos Prado
Música: Pedro Bromfman
Fotografia: Lula Carvalho
Desenho de Produção: Tulé Peak
Figurino: Cláudia Kopke
Edição: Daniel Rezende
Elenco
Wagner Moura (Capitão Nascimento)
Caio Junqueira (Neto)
André Ramiro (André Matias)
Milhem Cortaz (Capitão Fábio)
Fernanda de Freitas (Roberta)
Fernanda Machado (Maria)
Thelmo Fernandes (Sargento Alves)
Maria Ribeiro (Rosane)
Emerson Gomes (Xaveco)
Fábio Lago (Baiano)
Paulo Vilela (Edu)
André Mauro (Rodrigues)
Marcelo Valle (Capitão Oliveira)
Erick Oliveira (Marcinho)
Ricardo Sodré (Cabo Bocão)
André Santinho (Tenente Renan)
Luiz Gonzaga de Almeida
Bruno Delia (Capitão Azevedo)
Alexandre Mofatti (Sub-Comandante Carvalho) |