Mídia e violência - Novas tendências na cobertura de criminalidade e segurança no Brasil é um desses livros que reúne pesquisas e entrevistas realizadas à exaustão. No entanto, o texto foi preparado para afastar o ar academicista, tão praguejado por muitos. O esforço das autoras, a cientista social Silvia Ramos e a jornalista Anabela Paiva, foi de prover uma leitura fácil para todos aqueles que querem refletir um pouco mais sobre a cobertura da violência no País.
As entrevistas que as autoras realizaram envolveram representantes da mídia, da polícia e da sociedade civil, em especial de setores de defesa dos direitos humanos. O objetivo foi mostrar o que era o tradicional "jornalismo policial", o que é hoje e o que ainda pode ser.
As autoras deixam bem claro que houve uma melhora sensível na qualidade da cobertura. Hoje se discute mais as políticas de segurança pública. Antes, o foco era único e exclusivo no "bandido-herói", figura mítica que embalou os sonhos dos "ladrões de margarina". Hoje a polícia é, no quadro geral, mais profissional ao lidar com os profissionais da imprensa. Mas elas também chamam a atenção para o fato de que muita coisa precisa ser aprimorada.
Para começar, vez ou outra a mídia ainda recorre à "humanização" do bandido e à espetacularização do crime, talvez como meio de angariar a audiência. Resquícios de um passado desastroso. Mas não é apenas isso. Os jornalistas ainda favorecem a cobertura do ponto de vista do policial, enfatizando o sucesso das cruzadas contra o crime.
O livro chama a atenção para o fato de a mídia evitar tocar no assunto da morte de civis. Para as autoras, embasadas nas pesquisas e entrevistas, a imprensa deveria discutir mais o preparo das polícias no combate ao crime. E nesse ponto, o livro destaca: houve aumento na discussão das políticas de segurança pública, mas esta ainda precisa crescer muito mais.
Mídia e violência também critica o distanciamento das comunidades a que muitos jornalistas recorreram. A causa seria o aumento da violência contra o próprio profissional da imprensa. Através desse artifício, no entanto, os jornalistas encontraram uma desculpa prática para deixar de cobrir as comunidades e usar apenas fontes policiais.
Alguns dos entrevistados do livro sugerem que o afastamento do jornalista não solucionará o problema. Ao contrário, ele deve buscar manter maior contato com a comunidade e com as instituições daquele local, sem, é claro, se comprometer com o crime organizado. Assim, vai adquirir respeito dos moradores e poderá fazer uma cobertura mais justa e equânime da violência.
Mas talvez a pauta mais controversa abordada pelo livro seja a defesa pelo fim da editoria de polícia nos jornais. O argumento é que a violência é um tema integrado demais à cidade para poder figurar em um espaço separado. Por isso, as autoras defendem que a cobertura da violência seja feita no mesmo espaço dos assuntos cotidianos da cidade, o que na maioria dos jornais é feito pela editoria de "Geral".
É bem verdade que muitos jornais já aboliram a editoria. Mas persiste a dúvida: essa é a melhor solução? Talvez a conseqüência do fim da especialização seja justamente a incapacidade de os repórteres cobrirem matérias mais complexas, caso eles não tenham formação suficiente para entender a questão da violência na sociedade. Enquanto isso, parece que os jornais populares passaram a ocupar essa "lacuna" deixada pelos tradicionais, insistindo no jornalismo policial tradicional como carro-chefe de suas vendas.
Mídia e violência é um daqueles ótimos esforços de reflexão sobre um tema polêmico, que pode incomodar os afeitos às antigas práticas da profissão. No entanto, até mesmo para o velho e bom jornalista policial, vale a pena pensar nas questões abordadas pelo livro. Tudo por uma atitude mais responsável do quarto poder.
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