Arcaico, lento, inerte, apático. O jornalismo impresso carrega o fardo de reportar aquilo que já foi publicado no dia anterior através de mídias mais velozes. Contudo, sua essência, beleza e relevância encontram-se em características alheias a outras mídias.
É tarefa do jornalismo impresso oferecer o aprofundamento da informação, o debate, a pluralidade de idéias, a investigação. A superioridade desse tipo de publicação está no poder de analisar a si mesmo e servir de referência bibliográfica, histórica, podendo ser guardado, arquivado, reutilizado.
Dentre tantas aptidões, destaca-se no impresso, o jornalismo policial. Feito de investigação e publicado em grandes matérias ou em longas seqüencias de suítes, o jornalismo policial mantém vivo o jornal impresso que o valoriza. É no jornalismo policial que uma pequena parcela de informação pode alterar todo o andamento de uma reportagem e, assim, transformar a percepção do leitor acerca do fato.
São estas as reportagens que inflamam as editorias de casos de justiça e de polícia, casos que emocionam, preocupam, irritam, comovem. Casos que despertam protestos e solidariedade. Os casos policiais, geralmente escondidos em editorias gerais são, além de informação, espaço para a discussão e apontamento de soluções para os problemas sociais.
Casos como o da menina Isabella, que despertou dúvidas nas informações divulgadas, bem como a confiança na polícia forense. Ainda sem solução, o caso tem sido amplamente veiculado.
Falhas comuns
Quando há intensa veiculação sobre determinado fato, é preciso ficar atento ao jornal interessado somente em atingir o mercado consumidor. A repetição descontrolada, as matérias que nada trazem de novo ou que reproduzem o que foi apresentado na televisão, são indícios de um jornalismo puramente capitalista. Esse tipo de imprensa utiliza a comoção pública como chamariz ao expor suas capas e anúncios.
A Folha de S.Paulo está cometendo alguns desses erros na cobertura do caso Isabella. Existe intensa repetição de informações nas suítes, principalmente na Folha online, que pode ser apenas retomada do assunto, mas soa mal e cansa o leitor.
Outra grande gafe foi a matéria “Me condenam por algo que não fiz", diz pai de Isabella em carta à TV; leia íntegra” (publicada online em 03/04/08), que apresentou trecho “segundo divulgado pela Record”. A comprovação dos fatos é o mínimo que o leitor espera na reportagem policial e dessa vez a Folha falhou.
Habilidades raras
No entanto, dentre as coberturas feitas pelos veículos de comunicação em geral, a da Folha de S.Paulo se destaca pelo debate e reflexão.
A Folha foi além dos fatos e publicou artigos e entrevistas. O conjunto de reportagens publicadas até aqui não só informou, mas criticou, discutiu e deu espaço a todos os lados da história. O artigo “O horror da morte do filho” (publicado em 6/4/08) e a lembrança do caso Guilherme Fiuza (publicado em 08/04/08) são exemplos da postura ética desse jornal que decidiu dar pluralidade à discussão em torno do caso.
Matérias como “Entenda o caso da morte da menina Isabella Oliveira Nardoni” (publicado online em 03/04/08), que forneceu um conjunto detalhado de elementos, retomando dados anteriores, é a prova de que a Folha se interessa pelo leitor e espera manter seu entendimento a cada nova informação.
O papel da Folha
É preciso ter cuidado para não transformar o leitor em um ser inócuo, receptor de opinião emoldurada em pré-julgamento, mas estimulá-lo a desenvolver sua própria visão acerca do fato. No caso Isabella, o fato nem pode ser considerado fato, e a cautela na opinião deve imperar.
Como jornal impresso, a informação independente da Folha de S.Paulo tem cumprido esse papel de publicar jornalismo policial de qualidade, cauteloso e diversificado. Agora a opinião, quem deve dar é o leitor!
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