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O cabelereiro de Datena

Matheus Siqueira

Clic, clic, clic, zzzzrrrrrrrr, clec, clec, clec, clec... O cabeleireiro estava concentrado. Mal começa e já liga a TV para se distrair do longo dia de trabalho. Na TV mais um programa sensacionalista falando do assassinato (ou acidente?) da Isabela, garota que foi jogada da sacada do prédio onde morava. Com os olhos vidrados, ele acompanha o apresentador destilar uma série de perguntas e indignações contra a policia. Repetidamente o âncora exclamava que “o povo brasileiro quer saber quem assassinou a menina”, “os brasileiros exigem alguma explicação”, “isso não pode continuar assim”. Aparentemente preocupado, o cabeleireiro comenta que “isso é
um absurdo”, “onde já se viu fazer algo desse tipo” e questiona: quem será que matou a Isabela?
 
Durante uma semana, uma hora por dia, esse infindável questionamento sobre quem assassinou a menina perpetuou. Roland Barthes, filósofo da comunicação, definiria esses programas jornalísticos como “fait divers”, termo criado na França no início do século XIX para nomear os jornais sensacionalistas. De acordo com Barthes, o jornalismo sensacionalista se utiliza do sentimento de moralidade das pessoas para atrair a atenção e passar a impressão que o jornalismo está ali para trazer justiça à sociedade. Utilizando-se de Freud, Barthes designa essa função de trazer justiça à sociedade como super-ego acessório. Esse nome deriva da psicologia freudiana, que divide o psiquê humano em três instancias; o id, responsável pelo prazer; o ego, que controla o equilíbrio entre o prazer e a moral; e o super-ego, responsável pela moral de um individuo.
 
Ao cabeleireiro ficar extasiado diante das cenas e indagações raivosas feitas pelo jornalista sobre o caso do assassinato da Isabela, pouco sabia ele que, de acordo com Roland Barthes, o que o impelia a continuar assistindo era seu senso de moralidade e a impressão que naquele programa a justiça estava sendo feita.
 
Essa conexão direta entre o programa sensacionalista e o telespectador acontece, em parte, pela função do apresentador que, além de ser umâncora, é a principal vedete da produção. O apresentador toma para si o centro da atenção ao longo do programa. É ele quem traz a justiça e leva a voz do povo à cúpula maior da sociedade.
 
Um exemplo distinto da conexão do telespectador com o apresentador e a sua função como vedete está no programa da Rede Bandeirantes, Brasil Urgente, com José Luiz Datena. Ao longo dos seus 50 minutos de programação, a redação recebe mensagens da população. O conteúdo dessas mensagens são passadas no rodapé, e entre várias delas, lê-se: “Esses canalhas têm que pagar por esse crime brutal” e “Datena, o Brasil clama por justiça”.
 
As dezenas de mensagens passadas todos os dias no rodapé confirmam a teoria de Roland Barthes e demonstra o sucesso desse modelo comercial. Uma prova disso é o Ibope do Brasil Urgente, que recentemente obteve o terceiro lugar isolado naquele horário. Logo, assim como o cabeleireiro do início, milhões de outras pessoas estão vidradas no programa e assimilando aquelas informações como se fossem frutos de uma profunda investigação jornalística.

Na edição de 25 de julho de 2007, a Folha de S.Paulo publicou uma matéria no caderno “Ilustrada” que contou com o diretor de jornalismo da Band, Fernando Mitre. Ele comenta que o Brasil Urgente está sendo reformulado, que dará mais espaço à prestação de serviço. "O âncora se coloca cada vez mais como porta-voz do brasileiro que não tem como reclamar das autoridades nem exigir respeito a seus direitos", explica.

No ano de 2007, um grupo de alunos da Universidade Presbiteriana Mackenzie apresentaram no Intercom um estudo sob o título “Jornalismo investigativo e sua substituição pela prática declaratória”. De acordo com o estudo, está ocorrendo uma decadência no jornalismo investigativo que está perdendo espaço para o jornalismo declaratório, amplamente praticado pelos jornais sensacionalistas.

Nesse estudo, é analisado o Brasil Urgente e como as declarações das fontes se transformaram no fim em si próprio e não apenas um meio para chegar aos fatos, como é ensinado pelo jornalismo investigativo. 

Um exemplo evidente dessa prática pôde ser visto durante todo o caso da menina Isabela. Com apenas os pais em casa, a menina foi estrangulada e jogada pela janela do seu prédio. Como método de investigação, o Brasil Urgente buscou declarações dos trabalhadores do prédio, vizinhos, conhecidos, parentes do casal, delegados e policiais. Utilizou-se também de supostas fontes anônimas que ligavam para a redação dispostas a prover novas informações.
 
Na apoteose do espetáculo, o programa entrevistou o próprio câmeraman do programa como testemunha ocular de um encontro envolvendo o advogado do casal indiciado de assassinato.
 
Com poucos fatos e muita imaginação, José Luiz Datena surge com frases baseadas em provérbios populares para explicar a situação. Frases como: “Ninguém precisa de advogado se não fosse criminoso” , “Ninguém sai com a cabeça coberta se não fosse criminoso” e finalmente a famosa“Quem não deve não teme”. Essas afirmações acompanharam suposições fabulosas sobre o ocorrido, junto com a sempre presente crítica superficial à sociedade.
 
Essas declarações são o esqueleto do programa, e além delas pouco é apresentado. Como recorre o estudo “Jornalismo Investigativo e sua substituição pela prática declaratória”, os motivos dessa mudança são vários, como facilidades financeiras em não ter que pagar investigações mais profundas, alto apelo a grande massa, e necessidade de um tempo menor para fazer a matéria.
 
O Brasil Urgente representa o modelo padrão do jornalismo declaratório e conta com um apresentador que agrega em si todas as “qualidades” dos jornalistas desse ramo. Na Folha de S.Paulo de 25 de julho de 2004, ele comenta sua visão sobre o assunto. Sua posição consiste em defender que esses programas apenas mostram a realidade, e o que deve ser mudado não é o programa, mas sim a realidade.

Fazendo um trocadilho com suas palavras: se em uma semana a única pauta abordada foi o assassinato da Isabela, explorando ininterruptamente imagens chocantes como o avô da garota chorando copiosamente a morte dela, o que necessita ser mudado é a realidade desses programas. Ao afirmarem que o programa espelha os acontecimentos e interesses, esquecem de mencionar que esses interesses são os da sua emissora e não os da população.