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De volta

Rubia Gomes

Histórias que causaram comoção nacional ou fatos que não tiveram repercussão. Buracos de rua, reclames da população em relação aos líderes políticos ou histórias caseiras que por algum motivo despertaram curiosidade. Depois de quase dez anos fora do ar, Aqui Agora voltou às telas com novos apresentadores, mas logotipo e vinheta de abertura iguais. Uma das reportagens de destaque da primeira edição do programa: “Menino da sexta geração de japoneses quer ser ninja”.

Durante o período em que esteve no ar entre 1991 e 1997, o telejornal fez história. Principalmente com um dos membros da equipe, Gil Gomes, que com suas roupas e gestos característicos marcou o seu nome junto com o nome do jornal. Aqui Agora optou por uma maneira diferente do convencional para noticiar, mas foi perdendo espaço ao longo dos anos, chegando ao ponto de ser tirado do ar. Em março de 2008, voltou - mas sem muitas inovações, e com audiência e popularidade abaixo do esperado.

O cenário que Aqui Agora encontrou na sua volta foi um pouco diferente. Com vários programas de estilo similar e emissoras que começaram a investir em telejornais com formatos populares, a concorrência se mostrou muito mais acirrada. Nesse meio tempo, muita cosa mudou – na TV e no público, que é cada vez mais exigente. Mesmo na tentativa de repetir o antigo sucesso, o programa acabou caindo numa cilada da repetição, sendo deixado abaixo da preferência. O que é irônico – o pioneiro ser vencido pelos seguidores.

Nesta forma de fazer notícia, a indignação do apresentador se junta ao suposto sentimento de cumplicidade que o repórter tenta demonstrar quando entrevista uma vítima ou membro da família da mesma. Estes posicionamentos acabam criando margem para uma exploração inconveniente da situação. Com o pressuposto de jornalismo investigativo, que está disposto a buscar as causas, culpados e acusados, os programas deste gênero acabam expondo pessoas, humilhando-as em rede nacional e manchando o nome de jornalistas que o carregam consigo.

O jornalismo investigativo muitas vezes é posto como a grande estrela da profissão. A prática que busca desvendar casos, especialmente os crimes policiais e de corrupção política é uma das mais bem vistas não só pelos profissionais – mas também pelo povo. Mas nesse caminho se enveredou o que é conhecido como o sensacionalismo. Não é de hoje que muitos buscam o apelo exagerado às sensações para chamar alguma atenção. E isto se tornou cada vez mais comum nos meios de comunicação.

Que existe muita corrupção no meio político, todos já sabem. Assassinatos, roubos e mortes acontecem diariamente. O que é lamentável. Mas o mais importante não é escancarar o crime e sim buscar soluções. Que todos saibam o que aconteceu, mas principalmente se dêem conta de que existem formas de conseguir mudanças. Isso é conscientizar o telespectador do seu papel e responsabilidade perante os problemas sociais. E isso vai muito mais além do que mostrar a vida como é, colocando na tela as barbáries da sociedade.

Querendo ou não, consciente ou não, ao informar o jornalista também forma opiniões. Crianças, jovens e adultos todos os dias colocam a sua confiança nas mãos dos profissionais da notícia. Esta é uma grande responsabilidade – dar o conhecimento a terceiros, deixando margem para que o ouvinte tire as suas próprias conclusões.

Afinal, de que é feito o jornalismo? Se for apenas noticiar, que sejam fechados todos os estabelecimentos de ensino. Jornalismo envolve muito mais compromisso e seriedade. Significa relacionamento de confiança entre a fonte e o jornalista e este com a sociedade. E quando a matéria ou a reportagem vai ao ar, ou é publicada, não deve chegar com sangue e culpa, mas com a exposição do fato e a reivindicação pela justiça. E isso pode acontecer sem a exploração da dor, da miséria ou da vergonha.

Como já tinha dito Claudio Abramo, “o jornalismo é o exercício diário da inteligência e a prática cotidiana do caráter.” É possível ser diferente, chamar a atenção para problemas relevantes sem desrespeitar o público. As pessoas não precisam ver o cadáver ensangüentado ou a mãe em desespero para perceber a gravidade da situação. Respeitar a dor que o ser humano leva consigo e transmiti-la de uma forma limpa e justa pode parecer um desafio, mas pode ser feito – aqui e agora.