ABJ    |    ABJ Media Center    |    Canal da Imprensa    |    Diário do Campus    |    O Parcial
  home |

Dos direitos e das responsabilidades

 

Não é fácil discutir assuntos como este de nossa ultima edição. Há muito para se considerar cuidadosamente. E o pouco a ser dito deve se revestir de pertinência. (O blábláblá interminável é entediante). Esclarecido este ponto, vou dividir este texto em duas partes. A primeira servirá ao propósito de assinalar alguns pontos que devemos dedicar atenção no momento da produção do texto. Na segunda, quero discutir o conteúdo analisado e as pretensas conclusões do material desta quinzena.

Percebo claramente que subimos um degrau no aprendizado. A freqüência com que certos deslizes aconteciam diminuiu consideravelmente, mas ainda há um longo caminho pela frente. Lembrando minhas palavras no primeiro texto escrito para esta revista em 2008, reitero que quero purificar nosso diálogo porque creio ser este um método eficaz de catalisar crescimento. Para tanto, vamos ao que interessa.

Notei que em alguns textos persiste a tendência à superficialidade e inconsistência. Isso advém das já comentadas falta de pesquisa e carência de leitura. Ao jornalista, é imprescindível extensa leitura. Essa prática é que potencializa a visão crítica, o senso analítico, o aprofundamento da percepção. A falta de tal hábito predispõe, além das já citadas superficialidade de análise e inconsistência de argumentação, dois fenômenos interessantes. (Fenômenos que foi possível constatar em textos desta edição, diga-se de passagem). Conclusões hiperbólicas e constatações ingênuas.

Não foram raros os momentos em que me deparei com constatações simplórias, lógicas frente a uma leitura desatenta, mas descabidas se analisarmos a amplidão dos fatores envolvidos. Também encontrei as famosas declarações de “demonização/santificação”. São aquelas em que fatos médios se transformam em vilões globais e cidadãos comuns são elevados a categoria de santos.  Já comentei isso, até demais. É preciso equilíbrio. A crítica boa traz consigo, sempre, equilíbrio. Repito que tudo isso é resultado de pouca leitura e pesquisa.

Outro detalhe que julgo importante mencionar é a questão da pomposidade na escrita. Para escrever difícil e com lógica é necessário grande conhecimento da língua e esforço. Por isso, aconselho: não procurem ser prolixos, sejam apenas claros. Isso é muito, é tudo! Ser inteligível é o alicerce desta profissão.

Antes de passar para a sessão seguinte quero apenas fazer um aparte. Pessoal, não podemos nos esquecer que, afora a reportagem, os textos desta revista são opinativos. Por isso, ao escrever precisamos tomar cuidado para não seguir a linha tão conhecida do texto informativo. Não queremos informar, queremos refletir sobre a informação. Existe uma diferença claríssima entre um estilo e outro.

Passando para parte dois. Discordo de todos que classificaram a postura das mídias analisadas de desleixada, desatenta, pouco interessada. Não acredito serem essas as causas do comportamento tímido da imprensa frente às possíveis mudanças na Lei. Acredito sim, em Maquiavel quando disse que “as novas leis são muito perigosas: aqueles que são protegidos pelas leis atuais têm horror de modificá-las e aqueles que serão beneficiados não se mobilizam porque não têm noção”. A pura verdade é que a imprensa não tem noção de que desdobramentos essa pretensa mudança trará.

Já dizia o ditado, “gato escaldado tem medo de água fria”. Essa mudança é uma faca de dois gumes. Ao mesmo tempo em que traz a chama da esperança pode também carregar a lâmina do algoz. O processo de “abertura e adequação” a que podemos chamar essa transformação é traiçoeiro. Abre caminho, também, para um endurecimento nos mecanismos legais voltados ao jornalista. Fazendo comparações grotescas, foi prometendo reconstruir um país deteriorado pela guerra e esquecido pelo mundo, que Hitler comandou o maior genocídio da história. Foi pretendendo instituir um regime igualitário e justo que Fidel Castro levou uma nação à miséria, exaustão, repressão e completo atraso social. Não me restam dúvidas quanto à necessidade de cautela demonstrada pela imprensa. E aqui cabe muitíssimo bem a declaração de Miro Teixeira, sobre ser contra a Lei de Imprensa atual: "não é preciso sequer lê-la para ficar contra ela. Basta ver quem são seus autores, basta ver a época, o que representa e por que foi motivada".

Realmente, motivação é essencial. Isto, a imprensa entende completamente. Antes de soltar os cachorros ou dar glórias a abençoada medida, é preciso saber por quais mãos tal assunto será dirigido. Essas mãos é que esclarecem a motivação e possíveis implicações. Parabenizo o texto “O que aconteceria se a Lei fosse abolida” porque entendeu a amplidão da discussão proposta. É preciso compreender que grandes privilégios trazem consigo responsabilidades ainda maiores. Quer ser jornalista? Ter liberdade de expressão assegurada? Noticiar o que encontrar pelo caminho? Então, aprenda rapidamente que esse trabalho exige comportamento ético, responsável, prudente.

O limite é necessário, imprescindível. Sem ele não existe comunicação que se preze. Não se pode fazer bom jornalismo de confetes e serpentinas. Mas limitar não significa apelar ao despotismo. É nisto que reside a timidez da imprensa. Em juntar todas as peças primeiro, a fim de ter certeza do terreno em que pisa.

Deslocando toda a discussão para um contexto absolutamente diverso, digo o seguinte: escrever para o Canal da Imprensa é direito de vocês, um privilégio que o curso do Unasp assegura. Então, meus caros, façam isso com capricho, com a devida dedicação. Com certeza, alguém (no momento em que ler isto), vai me lembrar que não estou aí e por isso desconheço a realidade dos autores. (E já me disseram isso mais de uma vez). Discordo, mas não discuto. Afirmo apenas que grandes privilégios trazem responsabilidades maiores ainda. O leitor não conhece a realidade vivida na redação, mas nem por isso merece um texto carente de qualidade. Quer direitos assegurados? Cumpra com suas responsabilidades!

Andréia Moura
ombudsman@unasp.edu.br