| O jogo não é tão simples. As peças embaralhadas devem ser organizadas e montadas para revelar a identidade da imagem. Elas se abraçam numa ordem lógica, formando no fim, uma unidade temática. É preciso procurar, mexer, revirar e medir. Observação é a alma do negócio. Cada qual em seu lugar, o conjunto toma uma forma coerente e clara. Não pode haver buraco. Se faltar peça, algo está errado.
O quebra-cabeça da reportagem policial é um jogo perigoso, porém empolgante. Ele noticia os acontecimentos, cuja imagem impressiona o público e viabiliza a transformação social. A palavra de ordem é responsabilidade. Nesse trabalho, a checagem da informação é imprescindível. Basta um erro, nesse sentido, para que se coloque em “xeque” a credibilidade de um veículo ou se destrua a reputação de um cidadão julgado erroneamente.
Um exemplo notório disso aconteceu com a Escola Base, de São Paulo, em 1994. Os donos da instituição de ensino e alguns de seus funcionários foram acusados de um suposto envolvimento em abuso sexual contra alunos. O delegado Edélcio Lemos, responsável pelo episódio, divulgou as denúncias para a imprensa. Os jornalistas, sem verificar a veracidade do fato, encaixaram a peça do quebra-cabeça em local impróprio. Resultado? Imagem distorcida e sem conclusão. O caso foi arquivado por falta de provas. Porém, os danos as pessoas envolvidas e aos veículos de comunicação, que publicaram a denúncia, são irreversíveis.
As primeiras coberturas policiais surgiram na Inglaterra e EUA, no século XIX. A mídia brasileira já apresentou muitos nomes que ganharam fama neste trabalho. Entre o elenco está Gil Gomes, Fábio Gusmão, Marcos Nunes, Caco Barcellos, o falecido Tim Lopes e muitos outros. Essa editoria denota, para alguns, o sensacionalismo. Porém, as pautas relacionadas a apreensões, assaltos, estelionato, roubo, massacres, tráfico de drogas, rebeliões penitenciárias, assassinatos e outras de ordem criminal e irregularidade legal, também podem ser trazidas a público como notícia informativa, somente. Mas como funciona, afinal, todo o processo de uma reportagem policial?
As denúncias
A denúncia é o carro-chefe do jornalismo policial. Mediante ligações de leitores, conversas com policiais e o próprio rádio de comunicação interna da polícia, as informações chegam até a imprensa. A editora de polícia, Janaina Lemos, do jornal santista Expresso popular, ressalta a importância das denúncias diante de um fato desconhecido. Os avisos de leitores podem auxiliar a polícia e a sociedade em casos distorcidos e obscuros. “A partir de uma denúncia por telefone, encontramos um bebê que há quase três anos tinha sido roubado da maternidade”, lembra Janaina.
Mas nem sempre é assim. Ao contrário do que se pensa, denúncias infundadas são freqüentes nas redações de um jornal. De acordo com a jornalista, todo repórter que atua em redações já teve experiência com informações falsas. No primeiro semestre de 2006, época dos inúmeros ataques atribuídos ao Primeiro Comando da Capital (PCC), Janaina teve que lidar com essa situação. “Recebíamos denúncias de atentados o dia todo e muitas delas eram falsas. Isso prejudicava bastante o trabalho, pois a fase era bastante crítica e os repórteres perdiam bastante tempo checando informações infundadas”, conta.
Segundo Cláudio Dias, editor e repórter da Tribuna Impressa, de Araraquara, SP, o jornalista deve tomar alguns cuidados com as informações de cunho investigativo. “Basta imaginar a história como um quebra-cabeça. Se ela tiver faltando pedaço, alguma coisa está errada. Se o denunciante tem medo de aparecer, já é outro ponto negativo”, explica Dias.
A atividade, no entanto, não se resume apenas a ligações feitas por denunciantes. As pessoas costumam dizer que “onde há fumaça, há fogo”. Mas isso não se aplica à atividade jornalística. Para o profissional de comunicação, onde há fumaça, há investigação a ser feita. “A denúncia deve ser, no mínimo, checada. Hoje, com a experiência do trabalho, sei quando a informação é furada. Mesmo assim, a checagem é fundamental”, alerta Dias.
As informações policiais podem vir a ser o “pontapé” inicial de uma grande história. Mas elas devem estar fundamentadas em provas, como documentos judiciais. “Se a denúncia não tiver documentos ou provas materiais do caso... Esqueça! Isso certamente gerará uma ação judicial contra o jornal ou o jornalista”, aconselha Dias.
Livrando-se do sensacionalismo
O caso da morte do menino João Hélio, em fevereiro do ano passado, no Rio de Janeiro, comoveu o Brasil. Provocou uma onda de revolta na população e colocou em pauta a questão da maioridade penal no País. O início da reportagem da revista Veja, de 14 de fevereiro de 2007, mostra que o assunto foi abordado de forma emocional. Isso porque ocorreu a humanização dos envolvidos logo no começo da matéria. O autor revela um pouco sobre a família do menino e a história vivenciada por eles naquele dia. Dessa forma, os leitores se colocam no lugar dos familiares de João Hélio. Principalmente no de sua mãe.
De acordo com Cláudio Dias, esse não deve ser o foco principal do jornalismo policial. O sensacionalismo é algo que atrapalha as investigações e tira o foco principal da reportagem. “O que compromete a qualidade de uma notícia, sem dúvida, é o jornalismo sensacionalista. É possível dar uma matéria sobre um assassinato, espancamento e estupro sem expor a vítima e a família com detalhes grotescos e fotos de corpos mortos”, indaga.
A descrição da revista de como o menino foi arrastado pelo carro num percurso de sete quilômetros, espirrando sangue após bater a cabeça na guia da calçada, causa uma sensação de indignação ao leitor. É que o diz a aluna do segundo ano de pedagogia do Unasp, Juliana Albuquerque. “Imaginar essa cena me choca profundamente e sinto vontade de matar os bandidos que cometeram esse crime”, discrimina. Seria esse o objetivo da reportagem?
A mesma revista noticiou o acidente do avião da TAM, que matou mais de 200 pessoas. A noite infernal era o título da matéria. A reportagem sobre o Airbus A320 publicou fotos de vítimas sendo ensacadas, parentes desesperados, destroços do avião e biografia das vítimas. Tudo em 30 páginas. A IstoÉ seguiu a mesma linha. A resolução do problema da aviação brasileira só foi abordada dias depois.
Nestes casos, o jornalista Dias recomenda ao repórter se colocar no lugar da família da vítima. “Basta ter consciência. E isso é simples. A ponderação está em pensar no caso como se tivesse acontecido com um familiar próximo. Como você gostaria que o tema fosse tratado?”.
Os perigos
Os jornalistas dessa editoria são empolgados. Porém, os riscos que correm ao abordarem temas policiais são constantes e grandes. Ameaças de bandidos fazem parte da vida profissional do repórter de temas envolvendo tráfico de drogas, corrupção policial, assassinatos e outros mais de ordem penal. Repórter policial há seis anos, Dias já se acostumou com a rotina. “Em campo, já quase levei tiro, sofri dezenas de ameaças leves e algumas severas de morte. Quando você entra de cabeça em reportagens especiais você fica vulnerável. O perigo é real”, comenta.
Nessa editoria, os processos são freqüentes. Por isso, a importância do jornalista em manter provas de entrevistas e documentos legais sobre qualquer assunto policial. Mas o que leva os profissionais de comunicação a correrem tais perigos?
Nessa área, há jornalistas que deixam festas para cobrir um evento policial. Dias afirma nunca estar totalmente livre do trabalho. Já deixou aniversário e até jantar romântico por causa de uma boa reportagem no dia seguinte. “É o amor pelo jornalismo. Parece loucura! Mas é como a vida de um médico. Sempre atendendo urgências. Com apenas um detalhe diferente: Ganhamos bem menos que eles”.
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