Os Estados Unidos queriam um território que fazia parte do México. Tanto queriam que anexaram-no aos seus domínios. Os mexicanos, por sua vez, consideraram o Texas (território em questão) como um Estado rebelde, não reconheceram a anexação e reivindicaram a região. Não é preciso ser “expert” para saber no que deu essa história. Em 13 de maio de 1846, após as batalhas do Palo Alto e da Resaca de La Palma, nos dias oito e nove, respectivamente, os Estados Unidos, através do presidente democrata James Knox Polk, declararam guerra ao México. Resultado: o México perdeu não só o Texas como mais três estados e áreas territoriais nos estados do Colorado e Arizona.
Cento e treze anos depois os Estados Unidos declararam guerra ao Vietnã tendo como pretexto um ataque de tropas vietnamitas a dois de seus navios que patrulhavam o Golfo de Tonquim. Estes ataques foram originados em função da intromissão estadunidense no processo eleitoral do país. Nesse meio tempo, os americanos ainda tomaram parte nas duas grandes guerras mundiais e atravessaram uma das mais violentas batalhas de sua história, a Guerra da Secessão, onde aproximadamente 970 mil pessoas morreram.
Intimidade?
A teoria não é tão nova. No entanto, torna-se cada vez mais difundida e conhecida. Mais que interesse em territórios ou na propagação do “maravilhoso” estilo democrático de se governar existe outra motivação por trás das batalhas americanas. É o que afirmou, por exemplo, em entrevista a Veja (2002) o editor da publicação americana especializada em relações internacionais Foreign Policy, Moisés Naim. “Há razões de natureza psicológica e de política doméstica. Uma guerra para distrair de problemas internos, que são muitos”.
Faz coro ao editor no artigo O que pensar da guerra e da paz o ex-professor de Sociologia da Universidade de Binghamton, Nova York, James Petras. “Perante a expansão externa e o declínio interno, aparecem pelo menos duas políticas imperiais importantes: uma defende a criação de novas 'crises' (...) A segunda escola defende que novas guerras irritarão a oposição interna, que a propaganda de 'medo' e 'chauvinista' pró-guerra já perderam o seu impacto perante as perdas materiais sofridas pelas massas, e que é altura de entrar pela diplomacia (comprometer rivais imperialistas), reduzir as forças armadas colonialistas”, teoriza.
A última dessas investidas na direção de propagar a democracia ou na tentativa de nublar seus próprios problemas se deu em 2003, quando os Estados Unidos em união com outros países invadiram o Iraque em busca de armas de destruição em massa, que supostamente o governo iraquiano teria em estoque e o que, segundo o então presidente George W. Bush representava risco ao seu país.
A guerra não se resolveu até hoje. Os noticiários e jornais ainda pautam conflitos, atentados e dificuldades que as tropas americanas possuem na instalação do processo democrático. Mais que isso, George Bush deixa para o próximo presidente uma herança de crise financeira, uma população descontente com o sentimento de perca em função do prolongamento de uma batalha que tem prazo vencido pra terminar e que teme a continuação da guerra do Iraque.
Veja
A mídia brasileira é célebre. Não costuma perder tempo em acusar, muito menos em cobrar o que acreditar ser correto. Não usa de meios termos, sempre pendendo para um dos lados envolvidos. E quando falamos da Guerra do Iraque, é possível notar que ela perdeu até mesmo a vergonha de se posicionar. Arrancou-se a aura de “imprensa” isenta e imparcial para imperar aquela que usa do partidarismo. Que se apóia em bases unilaterais e correligionárias.
Em análise de generalização, pode-se obter panorama de todo um corpo de mídias nacionais através dos comportamentos editorias de apenas dois veículos. As revistas Veja e Carta Capital retrataram de forma autêntica este disparate que se deu na hora de colocar em páginas tupiniquins as opiniões sobre o assunto.
Veja não titubeia. É clara em se posicionar e se firmar como aliada americana. Basta ler o trecho publicado em 23 de fevereiro de 2006, em matéria que especulava o porquê de a população global odiar George Bush. “Sentimento em geral inconseqüente, o antiamericanismo ressurgiu na semana passada como uma força política global”. Foi esta a forma que o repórter Eurípedes Alcântara iniciou sua reportagem. Classificando de ingênuos àqueles que se incomodavam com a ambição do presidente americano.
E a reportagem não se limita a isso. Além de caracterizar os contrários a Bush e a decisão americana de guerrear de tolos, Veja ainda culpa este sentimento por motivação “prosaica”. Uma espécie de vingança de uma população global que peca pela inveja de um modelo de prosperidade constante como os estadunidense. “Os Estados Unidos têm valores, como a democracia e a liberdade absoluta de manifestação de idéia e crenças, que chocam todos aqueles que aprovam regimes totalitários, entre eles os radicais islâmicos”.
Veja demoniza de forma implacável o “inimigo americano”. Ela foi clara em retratar a necessidade da guerra como uma luta entre bem e mal, onde terrorismo, nazismo, comunismo e totalitarismo respondem pelas mesmas coisas e habitam o mesmo balaio. É ingênua e até mesmo prosaica (olhai a trave no seu olho antes de ver o cisco no olho do teu irmão) em julgar e considerar os Estados Unidos como uma nação que visa unicamente repartir com o mundo as contribuições de um regime democrata.
Carta Capital
Se Veja quer unir as pessoas na idéia geral de que os Estados Unidos são os mocinhos a guerra, Carta Capital percorre o caminho totalmente inverso. Baseada no iluminismo coloca a razão ocidental como uma das formas de resistir e anti-hegemonizar a população no quesito guerra iraquiana.
“Quem torcia por uma nova ordem internacional vai ter de esperar mais algum tempo. Talvez alguns séculos. O que estamos observando é uma involução para práticas da força bruta no âmbito dos negócios internacionais” ou “O sinhô do fim da história e da cidadania sem fronteiras transformou-se no pesadelo em que todos são vítimas prováveis do embate entre o desespero dos que não têm rosto – porque não tem pátria – e uma estrutura de ‘poder global’ que se pretende absoluta, encarnada no rosto da pátria americana” são dois dos trechos que se pode encontrar nas páginas de Carta em repulsa à guerra americana.
A visão editorial da revista restringe a guerra como parte de um projeto de poder americano e parte do pressuposto de que o fundamentalismo americano é pior que o terrorismo do Islã, pelo agravante do poderio militar que os americanos possuem. No entanto, silencia quanto ao assunto Sadan Hussein, razão de toda essa discussão na época, concentrando todas as suas críticas aos Estados Unidos.
Efeito Colateral
O maior espanto agora, em que as prévias americanas estão a todo vapor, é constatar que Veja, a mesma que endeusou Bush, os Estados Unidos e seus métodos de semear a democracia pelo mundo torna-se apática num dos momentos em que o assunto guerra é uma das peças chaves no tabuleiro eleitoral. Talvez o assunto tenha cansado. Talvez Veja tenha se desiludido com seu “deus” americano. Depois de muito tempo sem pautar os Estados Unidos, Veja se limitou em sua última edição (23 de abril) a publicar matéria alegando que o número de pobres no país sofreu crescimento. Talvez em função daquela mesma guerra que a revista apoiou no princípio. Talvez em função da má administração do governante que Veja classificou como o combatente do anticristo “(Saddam? Obama?)”.
Carta continua na mesma toada. Além de matérias, dedicou até capa aos candidatos americanos. Anda não perdeu a noção de que para mostrar os problemas futuros, é preciso dentro das suas possibilidades, ajudar na construção da realidade do hoje, do atual.
É apenas lamentável que tanto uma quanto a outra insistam em fazê-lo da maneira errada. Ao invés de conscientizar na formação do pensamento e da crítica de seu próprio povo, querem apenas socar goela abaixo um conceito já formado, que cada qual se julgou no direito de determinar como a verdade absoluta. Esquecem que com atitudes como essa, nublam possibilidades futuras dentro do próprio país, onde desde muito tempo necessitamos de mais que leitores. Onde precisamos de pessoas que se façam agir pela interpretação daquilo que absorveram através da própria mídia.
|