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O ópio dos americanos

Suellen Timm

Monica Lewinsky. Se podemos dizer que alguém mudou o rumo da história americana, essa estagiária da Casa Branca certamente conseguiu mobilizar os Estados Unidos. Mesmo após uma série de acusações e provas da existência do acontecimento, Bill Clinton desmente perante a população a relação extraconjugal enquanto casado com Hillary Clinton. A intenção era deixar o escândalo escondido da imprensa, mas uma confissão de Monica confirmou aquilo que o povo tanto temia.

Tirar uma lição de moral do fracasso do então governo de Clinton foi o que os americanos fizeram. Iniciaram uma era pós-Lewinsky. O país que passava por uma crise nos antigos valores puritanos, agora tentava superar o momento. No artigo “Bush reeleito e fim de história” publicado pelo site Advir, Vanderlei Dorneles afirma que “Clinton teve um efeito animador sobre a América religiosa e conservadora”.

No entanto, por que a moral é tão importante para os americanos? Como uma conduta baseada em valores cristãos se relaciona com a política?

“Religião civil americana”

O costume de relacionar religião e política não é algo novo para os Estados Unidos. Muitos pensadores como John Dewey (1934), Robin Williams (1951), Lloyd Warner (1953), Martin Marty (1959), Will Herberg (1960) e Sidney Mead (1963) defendem conceitos para racionalizar o costume norte-americano de elevar a religião a uma dimensão de nacionalismo.

Porém, a teoria que atendeu a um dos debates mais fomentados da sociologia americana foi a de Robert Bellah, apresentada em 1967 no trabalho “American civil religion”. Para ele os Estados Unidos possuem uma “religião civil” comum com determinadas crenças, valores, comemorações, rituais, que são paralelas ou independentes da propriamente dita religião. De acordo com o sociólogo, isso seria um artifício usado pela política para acabar com não conformistas, idéias liberais e movimentos revolucionários. Em suma seria uma forma de unir a nação em um só objetivo, o nacionalismo.

Após o artigo, o assunto virou pauta para diversas discussões e estudos. No artigo “Divided we fall: America’s two civil religions”, publicado no trabalho “The Christian Century”, Robert Wuthnow (1988) analisa que a religião proposta por Bellah possui duas vertentes. Em uma mão, “a religião civil une os americanos e a tradição bíblica” e na outra “as filosofias moral e política do Iluminismo introduzem uma orientação utilitária profunda”. No mesmo artigo, o teórico afirma:

“Em recentes campanhas eleitorais candidatos políticos freqüentemente tropeçam uns nos outros em sua afobação para demonstrar lealdade a alguns ramos da tradição Judeu-Cristã. Discursos políticos, agora como no passado, pagam obediência ritual perante o juiz divino. Orações em todas as importantes funções políticas invocam a presença e benção de Deus. Apesar de restrições constitucionais muito da mistura entre práticas religiosas e políticas continua. Nós somos, nossa religião civil nos garante, pessoas tementes a Deus, os campeões da liberdade religiosa, e de várias formas a nação que Deus escolheu para levar a cabo uma missão especial na terra.” (tradução livre)

No mesmo trabalho, o autor enfatiza que Deus quer que a população americana aproveite a sua posição privilegiada para pregar o cristianismo a todas as nações o que, em algumas “escatologias evangélicas representa o trabalho final que vai apressar a segunda vinda de Cristo” a terra.

Esse pensamento americano pode ser evidenciado também nas palavras do juramento a bandeira “…and to the Republic from which it stands, one Nation under God, indivisible, with liberty and justice for all”, ou seja, “a república que representa, uma nação abaixo de Deus”. Coincidência? Certamente não.

Trindade americana

Deus, nação e exército. A receita do sucesso e do progresso americano se resume aos três elementos. Em artigo publicado no periódico Le Monde diplomatique, Philip Golub (2005) discute sobre a trindade norte-americana. De acordo com Golub, a idéia apresentada em 1999 por Samuel Huntington propunha um programa para lutar contra a desintegração interna, articulada pela “trindade sobre a qual se baseia o ‘credo conservador’, dando-lhe o seu sentido”.

A ligação entre a religião e a política é visível. Não é para tanto que Bento 16 resolveu visitar os Estados Unidos bem antes das eleições. Novamente uma prova concreta e, mais clara impossível, de que a religião tem destaque na política americana. Entre os discursos do papa está uma solução para famílias ilegais. O texto “Católicos decidirão eleições nos EUA” publicado no O Estado de S. Paulo, 20 de abril de 2008, analisa o resultado das eleições de 2004. O autor comenta que:

“Se os católicos tivessem votado em John Kerry, como votaram em Bill Clinton, Bush teria perdido. Mas, naquele ano, a Igreja interferiu e vetou o candidato democrata. É outro sinal sutil, de acordo com Winters, um recado que poucos perceberam que Bento XVI mandou aos bispos americanos: desta vez, interferência na eleição não será tolerada”.

Com Bush, a situação comprova claramente a teoria. Uma matéria publicada na Época “O chefe da família americana”, 8 de novembro de 2004, enfatiza que “Bush obteve sua consagrada vitória graças ao que ele pessoalmente é e representa: um cristão conservador”. A seguir o texto apresenta uma pesquisa interessante. Constatou-se que 22% dos eleitores americanos usaram valores morais como o principal critério para a escolha do candidato. Dos que votaram em Bush, 80% escolheram por causa dos valores morais. A reeleição comprova que as urnas americanas já estão consagradas.

Campanha familiar

Na mídia a situação não é muito diferente. O discurso dos pré-candidatos especialmente Barack Obama e Hillary Clinton enfatiza temas e valores religiosos. Entre as acusações que Hillary fez ao seu companheiro democrata, está a de que ele é muçulmano. Para um país que vive o cristianismo, isso significou um problema sério. A matéria “... e a lua-de-mel acabou” publicada na Veja, 12 de março de 2008, menciona as duas acusações. Primeiro Obama “posou para uma fotografia com um turbante e um roupão durante a visita ao Quênia” e em segundo o “pastor da sua igreja em Chicago, Jeremiah A. Wright Jr., vem sendo acusado de adotar posições anti-semitas”.

Verdade? Não. Quem é muçulmano é o pai de Obama. Se a família determina o candidato, então Hillary que se cuide. Porém ela, que ainda carrega as conseqüências do “escândalo Lewinsky”, tocou no ponto certo quando queria acabar com a moral de seu concorrente. A reportagem “Obama lembra aos eleitores as polêmicas do casal Clinton” da Folha online, 17 de abril de 2008, relata que Obama aproveitou o discurso para lembrar os eleitores das polêmicas de “sua rival e do marido”.

O crédito que Hillary tem perante o público se explica pelo fato de ela, a todo o momento, marcar presença ao lado do marido. Escreveu até o livro “Living History” que garantiu mais fama e prestígio a democrata. Provavelmente se não tivesse perdoado o marido pelo adultério, sua imagem popular seria de alguém tirana e intolerante. Isso salva a pré-candidata das lembranças do pesadelo americano.

Em contrapartida, no mesmo texto de Veja (“... e a lua-de-mel acabou”), Obama é apresentado como uma pessoa de valores quando descreve a sua aparição na campanha eleitoral. “Quem primeiro aparece é Michelle Obama... ela fala durante quatro minutos e então anuncia: ‘É com prazer que apresento meu mariiiidoo!’”, descreve a reportagem. Certamente uma alfinetada nas costas de Hillary, ainda mais porque “Obama cruza com a mulher, ela lhe da o microfone, eles se beijam no rosto, cochicham algo, ela sai, ele assume o posto”, tudo demonstra um bom casamento. E tudo, obviamente, mais que ensaiado.

Mas as demonstrações não param por aí. “Hillary faz campanha ao lado da mãe e da filha para recuperar eleitores” publicado na Folha online, 17 de abril de 2008, noticia o uso da família na campanha eleitoral. “A filha de Hillary inicia o discurso da mãe com a frase revelando que é ‘alguém que está pensando em ter a própria família em um futuro não muito distante’ e que seus ‘filhos não precisam somente de uma boa avó, mas também de uma boa líder’”.

Deus em questão

Os pré-candidatos já compreenderam que a religião é um dos caminhos para a vitória. No texto “Análise: Elitismo afeta a política dos Estados Unidos” na Folha online, 16 de abril de 2008, menciona-se que Obama ao falar dos norte-americanos das pequenas cidades disse que “‘se apegam a religião e às armas’ como escape das frustrações econômicas”.

Também na Folha online, no texto “Hillary e Obama discutem Deus e aborto em fórum religioso”, 14 de abril de 2008, relata a participação dos democratas no Fórum da Fé na Vida Pública no Missiah College. Os pré-candidatos “responderam questões de fé e religião tanto na sua vida particular quanto no seu discurso político e em um possível mandato presidencial”.

No debate Hillary afirmou que “toma decisões sobre questões difíceis como aborto ou tratamento a supostos terroristas depois de rezar, contemplar e estudar”. Até perguntaram se ela acreditava que Deus queria que fosse presidente. A resposta, “preferiu dizer que não presume nada em relação a Deus e acredita que Abraham Lincoln fez bem em não agir como se Deus estivesse do seu lado”. E continua, “nossa missão deve estar ao lado de Deus”.

Para defender a sua igreja, Obama disse que “isso não denigre o que a igreja deveria ser que é um meio de louvar Deus e proclamar boas notícias”. Já o republicano, John McCain recusou o convite para ir ao fórum. Como o próprio texto menciona, o político é “mais cauteloso em afirmar questões de religião em sua campanha”.

Outra referência é na matéria “Ele teve um sonho” publicado na BBC Brasil.com, 4 de abril de 2008, onde Obama diz que “Deus não pediu aos Estados Unidos que se envolvam em uma guerra sem sentido e injusta. E nós somos criminosos nessa guerra. Nós cometemos mais crimes de guerra do que qualquer nação no mundo, e eu vou continuar a dizê-lo.”

Amém

Uma verdade é irrefutável. Mesmo que os ianques recheiem os jornais de casos de crise moral, as urnas ainda representam a salvação. O governo, mais do que uma mera representação do povo, simboliza um ponto de equilíbrio, um ideal de valores. Os políticos já estão avisados. A cada posse o discurso sempre menciona Deus, só muda o presidente. “Deus abençoe a América”, o trecho do hino nacional “E este é nosso lema: ‘Em Deus está nossa confiança’”, o juramento a bandeira “uma nação abaixo de Deus”, expressam o mesmo sentimento americano.

Se os políticos já aprenderam a lição de casa, a mídia também já está bem informada. A caça aos escândalos sexuais se tornou uma prática comum. Mesmo os candidatos precisam passar por um raio-X a fim de avaliar sua moral e seu valores. A religião tem que ficar em evidência já que ela une o povo, garante o espírito nacionalista que caracteriza o país.

Finalmente, existe outra questão. A religião é um ponto de fuga para os gringos. Se o governo não está bem, se a economia passa por crise, se a guerra não dá certo, em Deus está a solução. Todos os olhares americanos são conduzidos pelos representantes a focar nos valores. Se Marx ainda estivesse vivo diria que esse é o ópio dos americanos.