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Política do espetáculo

Anita Leite e Priscilla Stehling

Foi na Grécia antiga que o teatro começou. Em enormes arenas os atores utilizavam máscaras que expressavam os sentimentos das fantasiosas personagens. Representando deuses, animais ou pessoas da corte imperial, o ator era capaz de produzir lágrimas e risos, bem como ganhar a simpatia e afeição do público. Foi então que o homem percebeu que poderia manipular as reações das massas através da fantasia. Pior, percebeu que seu público não só aprova, como gosta dessa manipulação.

Será que foi nesse período que nasceu a política?  Afinal, o que se vê nos palanques eleitorais é digno de aplauso. Os presidenciáveis são, acima de tudo, ótimos atores. Sempre sorridentes, interessados no bem comum, com discursos ensaiados, nunca indispostos, nunca resfriados e nem mesmo de mau humor. Pelo menos até as eleições.

É inevitável a lembrança da penúltima eleição brasileira para presidente. O barbado e suado líder sindical transformado num elegante cavalheiro de cabelos escovados. Além de boa atuação, o figurino caprichado unido a aulas de etiqueta colaboraram na construção de uma personagem carismática.

Nos Estados Unidos não é diferente. A trupe presidenciável também ensaia, maquia, disfarça. Mas a platéia gosta, faz parte do show!

Falem bem ou mal, falem de mim!

As críticas vindas dos próprios colegas ou da atenta imprensa, procuram continuamente fazer cair as máscaras de glória utilizadas pelos presidenciáveis da política norte-americana. Cada gafe, cada palavra mal pensada é motivo para questionar o indivíduo que existe por trás da personagem.

Barack Obama e Hillary Clinton concorrem entre si como representantes do partido Democrata, ou seja, são candidatos a candidatos. Parece complicado, mas não menos do que o fato de os dois ficarem se digladiando através da imprensa, o que favorece o partido de Jonh McCain, o candidato republicano.

É na troca de ofensas entre Hillary e Obama que McCain encontra a vulnerabilidade do partido Democrata. O senador republicano também leva vantagem em ser mais velho e experiente na vida política: até agora não cometeu nenhuma gafe que o desfavorecesse em relação aos outros presidenciáveis. Contudo, sua popularidade e simpatia ficam aquém da excitação e graça características dos Democratas. Além disso, o tempo também é vantagem para Obama que possui um curto passado político, ou seja, se não há muito o que investigar não há muito o que criticar.

Nos jornais norte-americanos The New York Times, The Washington Post e USA Today a tendência republicana é nítida. A preferência por McCain chega ao absurdo de fazer matéria sobre as viagens comerciais da esposa do candidato, descrevendo-a como “loira elegante em roupas e jóias...” (USA Today; publicado na Folha Online em 15/04).

Uma matéria publicada no Times (01/03/2008) criticou um suposto favorecimento a Obama por parte da imprensa. Mas esse favorecimento parece se desfazer ante os  equívocos cometidos pela mídia americana em chamá-lo de Barack “Osama” ou salientar seu nome do meio “Hussein”. Já sobre Hillary, é tentadora a comparação com o marido e os comentários sobre a atuação como senadora. As agências de notícias, bem como os colegas de candidatura não deixam escapar seus exageros sobre a visita à Bosnia. Outro deslize da candidata está no fato de ter apoiado Bush quanto à invasão americana no Iraque e agora discursar contra a guerra.

Discursos e propostas

Cada um deles possui propostas para a solução dos principais problemas governamentais da América. A crise do mercado imobiliário, a queda do dólar e a dependência na importação de petróleo são apenas alguns exemplos das propostas que devem ser apresentadas por eles.  Acrescidos a esses, os problemas de cunho social como a aprovação do casamento gay, as pesquisas com células-tronco e a legalização do aborto são máximas que os presidenciáveis devem defender em meio à força da opinião pública.

Quanto aos cinco anos de Guerra no Iraque, os quase quatro mil soldados mortos e os 12 bilhões de dólares que o confronto consome todos os meses (UOL- últimas notícias; 19/03/2008), os presidenciáveis possuem opiniões diferentes. Como republicano, McCain apóia o atual presidente e a presença americana no Iraque. Já os democratas desejam a retirada das tropas, onde Hilary aponta a necessidade de independência iraquiana e Obama promete recuperar as alianças internacionais perdidas.

Em seus discursos, Obama quase não cita as diferenças raciais. Para ele "não há um EUA branco e outro negro, e sim os Estados Unidos da América" (folha online - 3/03/2008). O candidato vê nisso uma vantagem, pois as pesquisas mostram que os negros americanos demonstram preferência pelas propostas democratas (UOL- últimas notícias; 19/03/2008). Diferentemente, a senadora Clinton costuma citar que seria um “marco histórico” ser a primeira mulher presidente dos Estados Unidos (folha online - 3/03/2008). Jonh McCain opta por visitar “lugares esquecidos da América” e chamar para si o eleitorado independente, livre das massas ou maiorias pontuadas nos estados. Dessa maneira, pretende alcançar uma maior diversidade, mesmo em estados de perfil maciço.

O direito à saúde pública de qualidade foi o ponto de partida de Hillary Clinton na vida política. Durante o governo de Bill Cinton, Hillary recebeu a missão de organizar a saúde pública e fracassou. Atualmente, a candidata defende o seguro de saúde com cobertura universal. A proposta é defendida também por Barack Obama, mas McCain defende cobertura de seguro sobre remédios com prescrição para idosos e a ampliação do seguro de saúde para crianças.

Democratas ou Republicanos. Quando o assunto é imigração, os planos são os mesmos: criar uma cerca na fronteira entre Estados Unidos e México. Eles votam também por conceder a legalidade aos imigrantes que já estão no país. Para McCain e Obama, esse direito somente será concedido se os mesmos souberem falar inglês e pagarem impostos. A explicação para a unanimidade de opinião é que o estado do Texas conta com grande número de pessoas de origem latina.

Segundo ato

Existe ainda uma série de infindáveis semelhanças e diferenças que poderiam ser apontadas. Em meio às tentativas de ofuscar a glória alheia, as equipes candidatas driblam o que é vulgar e expõem somente aquilo que pensam ser útil ao seu trabalho. Assim, o público só fica conhecendo a homília depois de muitos ensaios e adaptações. O texto original permanece um mistério.

Para o leitor-expectador que desejar, a mídia tem oferecido uma enorme cobertura. Seja pela televisão, internet, rádio ou jornal impresso, as opiniões acerca dos candidatos divergem tanto quanto suas propostas. No entanto, só mesmo o eleitor norte-americano, inserido no contexto sócio-político do país é que pode ter uma visão crítica realmente prática acerca do assunto.

À mídia brasileira cabe não só informar os reveses dos políticos, mas também explicar ao povo o quanto estes altos e baixos, as opiniões e os revides, os problemas e as propostas de solução atingem a política e a economia brasileira.

A todos, fica a tarefa de assistir a interpretação destes que são, atualmente, os atores mais observados do cenário político mundial. Os holofotes da mídia estão sobre eles. Quem protagonizará o próximo ato?