ABJ    |    ABJ Media Center    |    Canal da Imprensa    |    Diário do Campus    |    O Parcial
  home |
 

Perigosa indecisão

Cristiane Lüscher

Negro ou mulher, quem está em maior desvantagem? No ranking do preconceito social os dois, na disputa pelo trono na terra da liberdade, a mulher. Por enquanto. A disputa entre Barack Obama e Hillary Clinton na corrida eleitoral americana é cada vez mais feroz, e está desgastando o Partido Democrata. A insatisfação com Bush, recessão econômica e a guerra do Iraque entregaram a presidência de graça para os democratas, e a eleição de um republicano estava fora de cogitação até janeiro. Como o partido chegou a esse ponto? Porque prolongam a indecisão?

A preocupação dos líderes do partido é o acúmulo de prejuízos que terão nas eleições gerais. Mas tudo indica que o candidato será definido pela cúpula do partido: os superdelegados, a solução que os democratas guardaram na geladeira por mais duas décadas. Mas não se anime tanto leitor, pois a maioria dos 796 representantes enfrentam um “superdilema”. Apoiar Obama, o favorito dos universitários, subúrbios ricos e opinião popular; ou Hillary, a cujo marido devem lealdade e uma listinha de favores.

Para a felicidade da cúpula, essa preocupação não afeta os eleitores. O instituto Washington Post divulgou uma pesquisa em 16 de abril que consultou 643 democratas. A metade dos entrevistados presume que a duração da disputa entre os pré-candidatos não terá muito impacto nos resultados de novembro. Seis em cada dez eleitores preferem que a corrida continue até que consigam uma vitória significativa de um deles do que encurtar a batalha com uma decisão arranjada pelo partido.

O senador Patrick Leahy, de Vermont, foi o primeiro líder democrata a defender abertamente que Hillary desista da corrida para favorecer Barack Obama. A justificativa é que a campanha do favorito está sendo prejudicada por uma rival de seu próprio time. A senadora de Nova York estaria abastecendo John McCain de munições contra Obama ao deslanchar acusações contra sua inexperiência, frisar sua impopularidade em grandes Estados e ressaltar a suspeita do eleitor médio quanto a sua candidatura.

Desperdiçando elogios

Todo o otimismo do partido perdeu espaço para uma batalha sem rumos, em que os dois lados gastam suas forças com arriscados ataques pessoais. Em tempos em que o partido deveria unir forças contra o rival republicano, continua a danificar a imagem de seus dois combatentes. Obama alega que fez sua parte. “Eu tentei mostrar controle e ter certeza que, durante estas disputas pelas primárias, nós não estávamos prejudicando um ao outro", explicou ele em entrevista à Associated Press.

Num discurso que fez na Filadélfia, em 19 de abril, o senador de Illinois afirmou que as estratégias e táticas de Hillary fizeram de Washington um lugar miserável onde "tudo que fazemos é bater e lutar". Na mesma data, durante um comício em West Chester, Hillary reforçou seu argumento de o rival não pode agüentar o estresse e a pressão da presidência dos Estados Unidos. Em outro recente comício, a pré-candidata defendeu que Obama "está jogando tudo o que pode contra mim, para ver o que cola".

E as alfinetadas não chegam só verbalmente. A campanha de Obama lançou dois comerciais com ataques: um critica o programa de saúde da rival, e outro alega que a campanha de Hillary tem recebido verba de lobistas. Para não ficar na lama, a senadora decidiu explorar uma gafe recente de Barack Obama. Trata-se do comentário feito por ele de que o declínio econômico na Pensilvânia vem fazendo com que os moradores do interior do Estado se tornem amargos, e por conta de suas frustrações, se voltam para a religião e as armas.

Vítima da juventude

O Estado de São Paulo entrevistou o professor do departamento de história da USP, Sean Purdy sobre a popularidade de Obama. O professor explica que ele representa no imaginário público uma mudança, pois é jovem, negro, filho de um imigrante, e não vem dos corredores de poder de Washington. Esta lista de características positivas é o que garante a vantagem do senador sobre Hillary. A maioria de seus eleitores decidiram por ele após se identificar com uma dessas questões e buscam a mudança que ele promete.

No entanto, as aparentes vantagens pessoais do pré-candidato não agradam a todos. Um dos fatores que difere os candidatos de Obama e Hillary é a idade. Os mais velhos preferem a experiência de Hillary. Geirmaine Donahue, 64, disse ao The New York Times que, se tivesse na faixa dos vinte, talvez apoiaria Obama. “Mas a vida ensina você. Estou com Hillary”, assegura.

Para os estrategistas da campanha de Obama, o senador está perdendo tempo com Hillary, já que o objetivo final é a disputa nas eleições gerais de novembro. Ele declarou a um programa de rádio em 23 de abril que a senadora Clinton pode ficar na corrida enquanto tiver apoio e seu nome estiver na cédula, e não há porque abandonar a campanha. "Mas quero garantir que durante essa campanha um olho seja mantido no senador McCain".

O artigo “Wilting Over Waffles”, publicado The New York Times, em 24 de abril, prevê que os democratas ainda não focaram em McCain porque ninguém tem coragem de mostrar a porta de saída para Hillary. Obama perdeu várias oportunidades de ganhar o jogo. Nos últimos dias na Pensilvânia, enquanto lanchava com sua esposa, um repórter perguntou a ele sobre Jimmy Carter e o Hamas. A resposta foi direta. “Porque eu não posso apenas comer meu waffle?” De acordo com o jornal, a verdadeira resposta foi “porque eu não posso apenas ser presidente? Porque eu tenho que continuar comendo esse waffle, respondendo essa pergunta estúpida e debatendo com essa mulher (Hillary)? ”

Plano “Billary”

Ela era a favorita do partido no início, e conhece peculiarmente todos os trâmites do partido democrata. A ex-primeira dama mais aclamada do país, que se intitulava ser a candidata “inevitável”. 150 superdelegados apoiaram sua campanha antes mesmo de começar a corrida. Então porque ela está perdendo para um político inexperiente que era desconhecido pela opinião pública há pouco tempo atrás?

Em entrevista ao Estadão, Eugene Dionne Jr., do Brookings Institution, indica três erros na campanha de Hillary. O primeiro foi achar que sua candidatura era inevitável, seguido de supor que a disputa com Obama acabaria na Superterça, em 5 de fevereiro. O terceiro erro, e mais grave: Hillary não tinha um plano B. Portanto, em uma atitude desesperada de salvar sua imagem, ela tentou transformar pequenas falhas de Obama em defeitos de caráter”.

A Folha de São Paulo reforça a pretensão da senadora. No artigo “Porque Hillary não desiste?”, de 13 de abril, o jornal destaca que ela se vê como uma mulher predestinada. Já em 1974, Bill Clinton dizia que ela seria presidente. Uma amiga próxima do casal, Linda Bloodworth-Thomason, teria afirmado muitas vezes que, “quando acabar o tempo dos Clintons neste mundo, ambos estarão enterrados ao lado de um presidente dos EUA”.

O canal americano GNT exibiu em 13 de abril o documentário “Hillary e Bill”, um histórico do casal desde a juventude. O jornalista Don Van Natta, do The New York Times, afirma que antes de trocarem votos de casamento nos anos 70, eles trocaram votos políticos. O documentário acrescenta que Bill disse a um amigo em 1993 que, depois de exercer dois mandatos como presidente, esperava fazer dela presidente por dois mandatos.

Na última semana de janeiro, o ex-presidente trocou acusações com Obama a respeito de sua trajetória de defesa dos direitos civis e apoio à sociedade afro-americana. Na discussão, Obama teria se queixado da agressividade de Bill Clinton, dizendo que não sabia contra qual dos dois Clinton estava competindo.

Há dúvidas sobre a intensidade do envolvimento de Bill na campanha de sua esposa, mas é claro que voltar para a Casa Branca é uma ótima chance para concluir seu legado com louros. O fato é que Hillary vai continuar incansável até atingir sua meta. Como disse seu marido certa vez a um visitante da Casa Branca, “fazê-la mudar de idéia é mais difícil do que levantar sozinho aquela escrivaninha e arremessá-la pela janela”.

A corrida continua. Restam algumas primárias pela frente e posicionamentos a serem feitos para que o partido não esteja dividido em novembro. Independente do resultado da disputa, é importante destacar que a bandeira que defendem é uma só. O Wall Street Journal, no editorial “Hillary Hangs In” de 23 de abril, destaca que a sede dos democratas pela Casa Branca é tão intensa que estão prestes a se unir em favor de um nome para garantir o espaço. Há democracia entre os democratas? Se em 172 anos de história a cúpula ainda se equilibra em favoritismos, passo a acreditar no chavão pós-moderno: “tudo é relativo”.