ABJ    |    ABJ Media Center    |    Canal da Imprensa    |    Diário do Campus    |    O Parcial
  home |
 

Mera coincidência

Denys Borguête

O escândalo sexual do ex-governador de Nova York, Eliot Spitzer, abalou o país. Ele participava como cliente de uma rede de prostituição, cujo valor dos programas exigido pela “empresa” era de 135 mil reais. Seu erro foi publicamente divulgado pela imprensa mundial. Sua renúncia foi inevitável. Ainda poderá se eleger a cargos políticos. Mas, e se esse escândalo viesse à tona em período de campanha? Certamente não chegaria ao cargo que estava. A não ser que tivesse Conrad Breean como funcionário.

Alto, vestido de casaco longo, chapéu e uma panca de detetive, o homem saca muito de técnicas midiáticas para persuadir o público, sem mesmo aparecer. Aqui estamos em volta de uma Mera Coincidência, cujas câmeras nos trazem uma cômica análise da política americana em relação à mídia que tanto confiamos. No filme, Breean é um funcionário especial e particular da cúpula presidencial dos Estados Unidos.  Ele é responsável pela restauração da imagem do presidente americano, caso ela venha cair por algum deslize moral ou ato de corrupção do político. Mas o caso agora é difícil.

A doze dias das eleições, o atual presidente se envolve em um escândalo sexual. Pior que isso. As acusações são de assédio contra uma integrante do clube do Vaga-lume (escoteiros). A menina foi levada pelo presidente do EUA para uma sala particular, onde ficaram por três minutos. A denúncia, feita pela própria garota, agora chega até a oposição. História de prato cheio para a derrubada do político que está viajando a negócios no Japão. O fato seria divulgado no dia seguinte.

É aí que Conrad Breean começa o serviço extraordinário mediante a mentira e as técnicas de persuasão midiática. Diferentemente do óbvio que acontece, a idéia não foi negar o ocorrido. Invés disso criou uma história ainda maior, mais emocionante e, indiscutivelmente, aterrorizante ao público norte-americano. Tão aterrorizante que os eleitores e - o mais importante - a mídia voltaram os olhos para a falácia.

A guerra

Uma guerra! Somente um conflito armado entre soldados de nações opostas poderiam criar uma “amnésia” no povo americano sobre o escândalo sexual. O fato se tornou o alvo das perguntas dos jornalistas quando foram avisados pela assessoria de imprensa sobre o provável conflito. As cenas estabelecem uma série de trabalhos midiáticos pelos assessores. A corrida contra o tempo em favor do esquecimento da nação diante do escândalo sexual necessitava de profissionais confiáveis. Um deles, o produtor de filmes Stanley Motss.

Muito bem pagos, Breen e Stan começam a bolar estratégias de como atingir a mídia para assegurar a reeleição do presidente. A guerra não existia. Não havia um motivo, nem ao menos um país para combaterem. Portanto, a guerra deveria ser criada na mídia. A Albânia foi o país escolhido. Não, não havia nada contra. Apenas tinham que escolher um país para se confrontar. Uma grande produção com efeitos especiais seria veiculada nos impressos, em sites e redes de televisão. Diretores, cinegrafistas, músicos, atores e até um gato trabalharam em favor da mentira.

Deveriam criar uma situação de emergência, onde uma mulher albanesa fugia de um ambiente catastrófico, num local depravante e destruído. Com ajuda de efeitos especiais, ela cruza a batalha por uma ponte, gritando em meio aos tiros e bombas, levando consigo um gato branco. Assim foi feito. Os Estados Unidos parou. As pautas dos jornalistas agora eram direcionadas à guerra. Os meios de comunicação não publicavam ou transmitiam outra coisa. E o público? O povo? Todos esqueceram que o presidente havia tido um caso de completa degradação moral com um assédio juvenil. A estratégia deu certo. A equipe de Breem e Stanley estava alçando sucesso, enquanto os dias passavam e a eleição chegava.

Problemas

No entanto, um ataque inesperado da CIA promete acabar com todo o golpe. Por meio de rádios espiões de escuta, satélites e outros equipamentos de segurança nacional, os agentes da CIA descobrem a mentira. Interrogados, Conrad Breen e Winifred Ames - que fazia parte da assessoria de imprensa – tentam convencer os agentes de que sim... “há uma guerra”. Aparentemente convencidos, os agentes especiais liberam os dois.

Porém, no dia seguinte a notícia nos telejornais era: “A guerra acabou – A CIA divulgou nota oficial dizendo que os guerrilheiros voltam para a casa”. Ainda faltavam alguns dias para as eleições. Com o fim da guerra, o presidente dos Estados Unidos seria de novo alvo de perguntas sobre o ataque sexual contra a escoteira. Mas, novamente, Stanley Motss e Conrad Breean criam outra falácia, que mexeria com os sentimentos do povo americano ainda mais.

Virando o jogo

A idéia era: “Um soldado americano foi rendido em Albânia e é prisioneiro de forças armadas”. As estratégias midiáticas foram ainda mais extraordinárias. Uma foto de um falso guerrilheiro preso, chamado de sargento Willian Shumann, vira propaganda popular. Na imagem, o soldado aparece com uma camiseta rasgada. Porém, os rasgos não eram comuns. Eram sinais em código Morse com a mensagem: “Coragem mamãe”. O povo americano se revolta. Faz passeatas e querem Shumann de volta ao país. Mais uma vez, o caso do ataque sexual do presidente é encoberto e, agora, ele se torna o herói do povo ao tentar resgatar o soldado na Albânia.

Entretanto, na viagem de avião em meio a uma tempestade, onde carregava o falso soldado Shumann que o transportava para a cidade de Washington, aconteceu um acidente. Todos se salvaram. Grande, muito forte, com olhos lindos da cor azul, mas dono de um sorriso amarelado e nojento. Além disso, Shumann na verdade era um presidiário de alta periculosidade e doente... louco para ser mais exato. Violentava freiras. Era dependente de remédios para se controlar. De volta por terra, encontram um posto de gasolina onde param para telefonar. Neste tempo, o soldado ataca a filha do dono de um estabelecimento comercial e este o mata a tiros.

Novamente o presidente corre o risco de se alvo das investigações sobre o assédio. Como poderiam dispersar o público sem um soldado herói? Então, programam um grande funeral do exército em memória de Shumann. Assim, conseguem estabelecer a atenção para esse acontecimento, levando as intenções de voto do presidente há 89% favorável.

Crise profissional

Após ver todos os feitos e todas as estratégias quase que miraculosas em favor do presidente, o produtor de filmes, Stanley, começa a ter uma crise profissional. Ele se entristece vendo que tudo o que montou... toda aquela mentira... toda aquela criação e produção, agora nem ao menos seria reconhecida. Ele se lamenta, ao final do filme, por estar atrás das câmeras. Por ter dispensado tantos esforços no bem estar de outros, sem conter seu nome.

Num ato de desespero ele alega à Breeam que tudo aquilo seria desmascarado. Ele queria os créditos de tudo: das gravações nos estúdios, da criação do fato, das idéias e até do jingle musical que criara em favor do presidente. Mas, a publicidade armada debaixo dos panos da política, não podia permitir que a verdade fosse revelada. O filme termina com a morte de Stanley Motss, que após insistir em contar a verdade, foi assassinado para não abrir a boca a ninguém.