As eleições norte-americanas sempre são notícias nos principais jornais do mundo. Em 4 de novembro, o atual presidente George W. Bush deixará a presidência dos Estados Unidos e os meios de comunicação já especulam qual será o futuro casal a assumir a Casa Branca. Entre os candidatos, Veja parece que já escolheu seu queridinho. Ele é negro, jovem, otimista e entusiasta. Empolga a disputa democrata com seu tema de mudança, reconciliação e esperança. Ele é Barack Obama. Pelo menos é assim que a revista caracterizou o candidato na edição de 20 de fevereiro.
Veja parece não fazer questão de esconder sua simpatia pelo democrata. De 15 edições que a revista publicou neste ano, dez delas citam Obama como o candidato ideal. Suas fotos têm sempre mais destaque, nelas ele aparece sorrindo, seguro e envolto em uma multidão. Um típico político do povo, inovador, que é, segundo a revista, o concorrente certo para romper o continuísmo e o sectarismo da política americana.
“Ele faz Hillary comer poeira”, disse veja em sua reportagem. “O jovem senador democrata personifica a esperança de mudança pós-Bush”. Quem tem acompanhado a cobertura de Veja, das eleições norte-americanas, percebe a maneira tendenciosa que o periódico tem abordado o assunto. Nem é preciso usar recursos de semiótica para compreender que o objetivo da revista é convencer seus leitores de que Obama é superior aos outros concorrentes.
Em janeiro, quando Hillary ainda era a candidata favorita à Casa Branca, Veja tratou de mostrar a seus eleitores que a ex-primeira dama não era o melhor nome para assumir a presidência do país. Na edição de 9 de janeiro, pela primeira e única vez, uma foto de Hillary teve destaque na revista. Mas o objetivo não era elogiar ou tratar das propostas da senadora e sim mostrar a fisionomia de uma mulher velha que pretende assumir o poder do país mais poderoso do planeta. Quem acompanhou a manchete “O massacre de Iowa”, estranhou a imagem que o periódico exibiu. Uma mulher envelhecida, cabisbaixa, fraca. A imagem não transmitia a figura de um líder que americanos, querem ver a frente de sua nação.
Em contrapartida, uma semana após o episódio, a revista publica uma reportagem de seis páginas intitulada “Terremoto Obama”. Na matéria, o repórter afirma que o senador é a mais ampla janela, capaz de arejar o ambiente intoxicado deixado por Bush e seus senhores de guerra. “Ele é um político daqueles que o tempo só melhora”, enfatiza Veja. E também aproveita para suprimir ainda mais a campanha de Hillary: “o discurso dela ainda está impregnado de incenso, feminismo, vitimização das minorias e fobias do mundo empresarial”. Em seguida a revista aponta a solução dizendo que Obama superou as fronteiras raciais e o confronto homem-mulher. Ou seja, o discurso da senadora é velho. Obama já superou tudo isso. Ele é, sem dúvida, o candidato ideal para governar os Estados Unidos da América.
O favoritismo de Veja não para por aí. Ela ainda lembra que os eleitores estão fartos da politicagem e sectarismo de Bush e Clinton. Para a revista, Obama encarna a figura transformadora de que os novos tempos exigem. Seu sucesso revela a existência de uma nova realidade social, separada por um abismo da política tradicional. O interessante é que, após afirmar que os americanos não querem essa política arcaica, a revista inseriu uma imagem de Hillary ao lado do texto com a seguinte legenda: “Hillary festeja vitória nas primárias de New Hampshire, uma política tradicional.”A mensagem de Veja é explicita. A senadora é tradicional e, embora tenha ganhado uma prévia, não se encaixa no perfil do candidato que os americanos necessitam.
Por coincidência, ou não, Obama iniciou a partir de então uma seqüência de vitórias, deixando sua rival a ver navios. Mas Hillary provou que ainda estava viva e após dois meses de derrotas venceu Obama em três estados, incluindo Texas e Ohio. Veja, que deste então tinha assistido de camarote as 12 vitórias do senador, tomou as dores e mais uma vez partiu para o ataque. Na edição de 12 de março a reportagem intitulada “...e a lua de mel acabou”, parece querer despertar no candidato democrata a necessidade de combate. “Acabou a lua-de-mel eleitoral, um estado de graça que se estendia aos adversários, a imprensa e a maioria dos eleitores que estavam encantados com o sucesso de Obama”, enfatiza.
A revista parece ter mesmo sentido o amargo da derrota e mostrou isso ao partir para a defesa. Na reportagem André Petry descreve as principais acusações contra seu queridinho. Mas é enfático ao garantir: “Nada disso é verdade, mas na má política, lá com cá, o que conta é o estrago.” E acalma seus leitores ao assegurar que as derrotas não foram suficientes para tirar o brilho de Obama. Afinal, ele defende a maioria e não apenas os latinos. É um defensor autêntico da igualdade.
A matéria termina confirmando que, embora o candidato tenha perdido as primárias, ele está ganhando nos Cáucus. “A contabilidade eleitoral é superior a da sua rival. Pois ganhou em mais estados, tem mais votos, mas delegados e mais dinheiro”, esclarece Veja em sua reportagem. E lembra que Obama se mantém como o único candidato capaz de vencer a eleição presidencial em novembro.
Veja é um tipo de mídia que qualquer candidato gostaria de ter como aliada. Primeiro, pelos seus 40 anos de história. Segundo, pelos quase um milhão de assinantes e cerca de 200 mil compradores em bancas e supermercados. As reportagens de Veja não deixam dúvidas de que Barack Obama é de fato o queridinho do periódico. Pena que a influência da revista está apenas entre os brasileiros. Obama terá que encontrar outro aliado midiático nos Estados Unidos para fazer, em seu país, o mesmo papel que Veja tem feito no Brasil, transformá-lo no astro pop da corrida eleitoral. |