Os Estados Unidos são uma superpotência que exerce influência em todas as dimensões do poder, seja militar, econômico ou político. É por esse motivo que a corrida presidencial do país desperta tanta curiosidade no mundo. A eleição deste ano, parece ter uma pitada ainda maior. Primeiro, por trazer candidatos como Hillary, Obama e McCain. Todos com características históricas. Uma mulher, um negro e - se eleito - o presidente mais velho a assumir a Casa Branca. Segundo, pela crise econômica que o país vive. Enquanto os espectadores esperam para ver quem será o substituto de Bush, especialistas, sociólogos e cientistas políticos, como Valeriano Costa, especulam os rumos que a maior economia do planeta terá a partir de 4 de novembro, quando um destes candidatos for declarado eleito.
Valeriano Costa é doutor em Sociologia pela USP, e atua como professor assistente doutor da Unicamp. Foi pesquisador do Centro de Estudos de Cultura Contemporânea (Cedec), do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap) e atualmente dirige o Centro de Estudos de Opinião Pública (Cesop) da Unicamp. Tem experiência nas áreas de políticas públicas, estudos legislativos, sociologia ambiental, reforma do estado, sociologia do desenvolvimento, federalismo, relações intergovernamentais e cultura política.
Canal da Imprensa – Todos os veículos de comunicação estão de olho no futuro presidente dos Estados Unidos. A política americana ainda é indispensável para o mundo?
Valeriano Costa – Claro, todas as decisões sobre quem vai comandar os Estados Unidos têm impacto não só sobre as políticas internacionais, mas também na arena nacional de cada país, dependendo do quanto estes dependem das decisões americanas. Independente disso, os Estados Unidos tem importância grande em todos os fóruns internacionais, presidentes como Clinton ou Bush fazem muita diferença para o mundo.
C.I. – O novo presidente dos Estados Unidos receberá das mãos de Bush um país em recessão, com uma baixa credibilidade do governo e marcado pela guerra do Iraque. Qual será o primeiro assunto a ser resolvido para amenizar essas crises quando o novo presidente assumir o poder?
Costa – Na verdade são duas agendas, a externa e a interna, sendo a interna mais importante para os eleitores. A eleição se decide por questões nacionais na maioria das situações. Como temos uma recessão, o grande questionamento dos norte-americanos é quanto à renda e o emprego. Portanto a primeira questão é como enfrentar a recessão. As questões externas já estão em segundo plano e devem continuar, a menos que haja uma nova crise, como um atentado, por exemplo.
C.I. – O assunto que abrange a política externa mais falado nos meios de comunicação é a imigração, que tem resultado em prejuízo para os Estados Unidos.
Costa – Imigração é um assunto que interessa a nós brasileiros, os americanos estão preocupados com questões do seu dia-a-dia. Em alguns locais do país esse é um assunto muito distante. No norte há poucos imigrantes, esse problema acontece somente no sul. Se as eleições fossem no Brasil, e estivesse acontecendo uma recessão aqui, certamente isto seria nossa preocupação. O eleitor americano está preocupado com essa grande recessão, que não acontece com tamanha intensidade há vinte ou trinta anos.
C.I. – Em recente entrevista a revista Veja, a ex-secretária de Estado Madaleine Albright afirma que os Estados Unidos devem enfrentar seus desafios com uma visão idealista e um comportamento realista em relação à política externa. Quais dos três candidatos se encaixam melhor nesse perfil?
Costa – Todos os três se pautam por essa orientação que é típica norte-americana: o realismo no comportamento pragmático cotidiano, mas com uma orientação ideológica rumo ao liberalismo e democracia. Todos eles têm uma concepção diferente de democracia - pelo menos entre republicanos e democratas – mas no partido democrata há uma tendência mais radical nos assuntos internacionais por parte de Obama. Todos eles conservam os princípios ideológicos, mas se conservam pragmáticos na ação diária, portanto não vai haver grande mudança. Quanto à guerra do Iraque, por exemplo, os democratas querem o fim do envolvimento americano, mas não irão retirar as tropas na correria, Nem mesmo o republicano McCain. Isso é o pragmatismo que impera na ação cotidiana norte-americana.
C.I. – Hoje se fala muito que Obama consegue romper esse pragmatismo, por isso ele é tratado pelos jornais como inovador. Sendo assim, quem é mais favorável para o cenário americano, Obama ou o conservadorismo de Hillary?
Costa – Bill Clinton foi inovador, alavancou um período forte de desenvolvimento econômico, e uma expansão na arena internacional que foi muito mais favorável aos países hegemônicos do que Bush. Essa diferença na arena externa é muito clara entre democratas e republicanos. Os democratas são mais multilaterais, e os republicanos bilaterais, caracterizados pela ação país-país. Isolam-se das discussões internacionais. Basta ver a posição americana em relação ao problema do meio-ambiente. Obama defende a tradição democrata mais aberta ao mundo, e como é muito articulado e tem origem estrangeira certamente dará mais atenção à imigração, direitos humanos e meio-ambiente. Mas isso não é exclusivo dele, Clinton já tinha inaugurado uma política democrata mais ampla nesse sentido. Talvez Obama seja mais radical que Clinton, mas aí entra o velho pragmatismo: diante dos interesses do país e da opinião pública certamente ele será mais moderado do que os discursos de campanha dele dão a entender.
C.I. – Então para solucionar os problemas atuais Obama é mais favorável que Hillary?
Costa – Os dois democratas estão mais sensíveis com a recessão que atinge fortemente a população com menor renda, público majoritariamente democrata. Eles se empenharão em resolver de forma “não-ortodoxa” a questão da recessão. Políticas de desenvolvimento interno, de alívio da situação financeira da população, e outras medidas mais agressivas e intervencionistas na arena interna. Na arena externa, a tendência dos democratas é discutir os temas de forma mais ampla.
C.I. – Ainda sobre Obama, ele é um político com boa retórica e discurso popular. Embora ele tenha caído no gosto do povo, faltam propostas a ele?
Costa – Não conheço as propostas profundamente, mas ele não é omisso aos principais discursos. Isso indica que ele é um candidato ambicioso. Portanto, ocupando a presidência americana um candidato negro e de origem liberal, assumirá uma postura de governante mais inovador do que os presidentes nos últimos vinte ou trinta anos, com exceção de Clinton. Talvez ele esteja se espelhando na herança Kennedy nos anos sessenta, e na herança recente de Clinton. Não irá tomar decisões internacionais dentro dos Estados Unidos e impor para o resto do mundo.
C.I. – A eleição norte-americana neste ano traz dois candidatos revolucionários. Uma mulher e um negro. Caso um ou outro seja eleito já será um fato histórico. Na opinião pública é melhor ter uma mulher ou um negro a frente da Casa Branca?
Costa – Não faz muita diferença, mas seria mais difícil um candidato negro, por essa classe ser minoria no país. Em relação à mulher, já temos exemplos em quase todos os países do perfil que assumem: relativamente moderado e não muito inovador no sentido progressista. Por outro lado, nenhum país importante do mundo teve um governante negro de destaque. O cenário americano é muito consolidado, então dificilmente Obama será um presidente que fará grandes revoluções raciais.
C.I. – Você acha que uma possível vitória de McCain será uma continuação da política de Bush?
Costa – Não, McCain tem um perfil bem diferente e certamente menos conservador. Como republicano e militar, ele é mais sensível aos debates internacionais, mas ao mesmo tempo mais realista. Os políticos conservadores republicanos não-militares são mais ideológicos. Os militares são conservadores mas não são reacionários, além de serem muito cautelosos com as questões militares, já que os envolvem diretamente.
C.I. – Os Estados Unidos nunca viveram um momento tão tumultuado em sua economia. As empresas já demonstraram estar com medo de investir na economia americana. Como o novo presidente pode recuperar esses investimentos a fim de retomar o crescimento econômico do país?
Costa – Na verdade, ninguém em sã consciência vai deixar de investir - em termos globais - nos Estados Unidos. A grande vantagem dos americanos é que, mesmo em recessão, eles continuarão a ser o grande foco dos investidores globais. As dificuldades internas é que levam à crise, e não a redução de investimentos internos. Não haverá uma fuga de capitais porque não há lugar mais seguro para se investir do que os Estados Unidos, mesmo em meio à crise. A tensão afeta somente a renda e consumo interno, em vez de uma desorganização do sistema financeiro norte-americano.
C.I. – Os candidatos democratas falam muito sobre a crise econômica. Mas não citam a guerra como motivo para a recessão. Se eles usaram propostas de melhorar a economia para conseguir eleitores, porque não citam que a guerra foi motivo para muitos dos gastos do país?
Costa – É a história do pragmatismo, se falar que vai cortar a verba do Iraque – que são bilhões de dólares – significa um baque forte na indústria bélica, que se sustenta por essas atividades. Então eles têm que tomar medidas cautelosas. Ninguém pode falar em tirar dinheiro de repente, pois vai prejudicar a indústria de armas, que é muito rica. Eles serão pragmáticos em propor uma estratégia de médio prazo. Eles não estão falando nisso agora pois é um tema delicado, e mesmo porque o dinheiro que é usado na guerra não é tirado do bolso dos americanos. Os candidatos não podem dizer que vão tirar o dinheiro do Iraque porque não vão tirar. Vão deixar lá e retirar as tropas ao longo do tempo, reduzir o número de mortes de soldados.
C.I. – Qual dos três candidatos é melhor para a relação do Brasil com os Estados Unidos?
Costa – O pragmatismo faz com que todos eles se detenham claramente nos interesses norte-americanos. Nenhum deles vai favorecer o Brasil como nós fazemos com os primos pobres como Bolívia, Paraguai, Venezuela e Equador. Os Estados Unidos dificilmente fazem isso com países do tamanho do Brasil, fazem isso com países pequenininhos que não dão muito trabalho. Com certeza os americanos têm uma pauta de recuperação em alguns aspectos, e de conflitos e competição em outros; principalmente econômicos. A pauta será complexa pelo tamanho do nosso país. Mas os candidatos ainda não falaram da arena internacional com esse grau de detalhamento. Com certeza a Hillary tem conhecimento mais aprofundado dessas questões pois acompanhou o marido do governo dele. Obama tem uma visão mais genérica, mais ampla, a aparentemente mais favorável aos países de terceiro mundo. Mas só aparentemente, pois só vai pensar em detalhes quando assumir. |