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Intrometidos de plantão

 

Essa semana, um amigo advogado, em conversa me disse: “a mídia só atrapalha a investigação. E se o pai da Isabela for, mesmo que improvavelmente, inocente? Nunca mais terá sua vida de volta”. Defendi a profissão e demos algumas risadas. Depois meditei. Em que medida a postura “intrometida” do jornalismo afeta a seriedade e os resultados de uma investigação policial? De que maneiras a técnica jornalística de investigação é superior, alcança melhores resultados? Como devemos considerar o direito da população à informação completa frente ao respeito que supostamente deveria-se prestar à privacidade das vítimas? De que forma a avidez do repórter pela exclusividade o faz apostar na incerteza, em fatos duvidosos? O faz divulgar inverdades?

Gabriel Gárcia Márquez disse, certa feita, que “o jornalismo é uma servidão que se alimenta dos imprevistos da vida”. Não posso jamais discordar de tal declaração. Esse é um dos pilares que sustenta a profissão. A necessidade de explorar, noticiar e investigar a vida e seus desdobramentos. Isso nos faz, automaticamente, intrometidos de plantão. E convenhamos, os intrometidos não são vistos com bons olhos em lugar algum. Até mesmo nas mais remotas civilizações esta prática sempre causou mal estar. Por isso, gosto de pensar nesta característica profissional como um mal imprescindível à sociedade e uma qualidade indispensável ao bom jornalismo.

De todas as editorias, a Policial é a que causa reações mais antagônicas. Ou a amam ou a odeiam. Exatamente porque ela está sempre se intrometendo. Invadindo espaços, fazendo perguntas perigosas, indo a lugares que não foi convidada. E em nós, jornalistas, ela causa medo ou desejo. Há os que fogem desesperadamente dela e há quem se atire de cabeça nesta responsabilidade. De certo modo, ela encarna mais visivelmente a idéia de jornalismo como utilidade publica. Denúncia, conseqüente investigação e suposta justiça ou solução. Acredito em sua completa indispensabilidade, mas acredito ainda mais na sanidade do equilíbrio. Esta edição sobre Jornalismo policial veio, mais uma vez, reforçar minhas opiniões a esse respeito.

É preciso investigar. Encaixar histórias e fatos. É preciso denunciar, erguer o tapete pra olhar a sujeira de perto, chamar o crime pelo nome. Como dizia Mário Eugênio Rafael, é preciso “falar a verdade, somente a verdade, doa a quem doer”. Mas essa necessidade, mãe de todas as outras na profissão, jamais pode cegar o jornalista à ética, responsabilidade com a informação, à decência. A boa cobertura policial é equilibrada. Informa, acusa, esclarece, questiona, revela, sem cair no velho “espreme-que-sai-sangue”. Tudo que li nos textos de vocês apenas ratifica o que acredito. Foi uma discussão interessante.

Portanto, sem mais delongas nesse assunto tão batido, quero tecer comentários sobre alguns aspectos que muito me incomodaram nesta edição. Todos de caráter absolutamente gramatical. O mau uso dos verbos declaratórios, (me perdoem por isso), causou-me indigestão. Os verbos declaratórios são bastante claros, minha gente. Indagar, por exemplo, só pode ser usado em declarações que contém perguntas, obviamente. Discriminar, só pra constar, quer dizer listar, distinguir, citar um a um, separar. Enfim...Não é porque o verbo está na listinha de verbos declaratórios que se pode usar em qualquer situação. Por favor, não assassinem o português. Outra coisa, “levar adiante” só pode ser escrito deste modo. “À diante”, jamais!!! Produto importado só pode ser importado por alguém. Por isso, diz-se: “importado pelo Brasil” e não “importado ao Brasil”. Nesse caso seria “exportado ao Brasil”.

Detalhes, detalhes... Parabenizo os textos “Furo no tapete vermelho”, “Chega de espreme-sai-sangue” e “O que aconteceria se a polícia e os jornalistas competissem para resolver um caso” pela ótima condução do tema e escrita. Gostaria de destacar também a profunda pesquisa teórica do texto “O cabelereiro de Datena”.

Termino recomendando a auto-crítica. Quantos de vocês relêem o texto vezes e vezes enquanto escrevem e depois que terminam? Quantos de vocês, após a leitura desta coluna, voltam aos próprios textos para verificar o que foi aconselhado? Reflitam sobre isso. Vejo nitidamente um amadurecimento nos trabalhos. Mas ainda é preciso mais. Essa luta não é só minha, é principalmente de vocês. Não se pode encontrar, tampouco se apoderar, daquilo que não se buscou. Vamos nos concentrar nesta busca por crescimento profissional.

Continuamos em 15 dias.


Andréia Moura
ombudsman@unasp.edu.br