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A Criação [de clichês] na imprensa
Matheus Siqueira
Criar de acordo com o dicionário Michaelis significa “dar existência a, tirar do nada”. Obrigatoriamente, para aplicar esse verbo na prática, é necessária a ausência e a posteriori a ocupação dessa ausência por algo. Uma boa analogia é um quebra-cabeça, cujo lugar vazio está reservado para a peça correta. Pode-se refutar que no mercado atual os produtos seguem uma ordem inversa: primeiro se cria o objeto, depois se cria a necessidade. Entretanto, o princípio da criação para suprimir uma ausência permanece.

Na edição da Superinteressante de novembro de 2007 encontra-se o verbo “criar” na matéria “De onde viemos?”, publicada na editoria de ciência. Ao contrário do esperado, o verbo não foi utilizado para mencionar o relato bíblico da criação, mas sim para designar uma ação da “supra-entidade” Cosmos. De modo literário, a Super descreve uma parte da origem do universo da seguinte forma: “Um universo composto só de hidrogênio e hélio ia ser bem sem graça. Não dá para criar vida (leia-se você) com esses elementos. Então, o Cosmos precisou dar um jeito. Ele criou as estrelas-pequenas fábricas de novos elementos.” A narração continua nesse mesmo estilo, alcançando jovens leitores com suas matérias de fácil leitura e sem maior aprofundamento.

Utilizar o verbo criar, por si só, não consiste em nenhum problema. Tampouco usar uma linguagem simples em matérias sem maiores aprofundamentos. Isso sempre existiu. Acredita-se que seja útil quando o público alvo é amplo, para fazer uma nivelação por baixo. Contudo, seguir uma linha editorial com afirmações simplórias e sem embasamento dá margem a uma discussão igualmente pobre.

Complementando o relato da criação pela “supra-entidade” Cosmos, a Super conclui na matéria “Evolução da Evolução”, de junho de 2007, que “Charles Darwin não matou Deus. Só descobriu onde ele estava”. Discursos assim, conclusivos, estão presentes em todas as matérias relacionadas à ciência, não possibilitando uma maior discussão sobre o assunto abordado.

Igualmente conclusiva foi a revista semanal Veja. Como de costume, no último especial de Natal da Veja uma seção foi dedicado a assuntos religiosos. No artigo “O conflito entre fé e ciência” a revista aproveitou para claramente defender sua posição e seu viés, oferecendo o debate e a contradição num espaço mínimo (um parágrafo entre dez para ser mais preciso).

Em conjunto com o texto, os elementos gráficos incentivam o leitor ao pré-conceito. Ao abordar-se o tema criacionismo ou design inteligente na imprensa, há uma predominância de elementos antigos, como quadros renascentistas, terços, santos e outros itens da tradição católica medieval. Para ressaltar esses objetos, são utilizadas cores que reforçam a idéia de tradicionalismo e ultraje, como o preto, marrom e vinho. De acordo com o livro “A linguagem das Cores”, de René-Lucien Rousseau, “O marrom e o vinho carregam idéias de morte e degradação”. Já o preto simboliza a morte ou o nada.

Contrastando com esses elementos escuros, matérias abordando o evolucionismo se esbaldam na cores primárias e pastéis. O efeito é visível, e um ar de modernidade e atualidade envolve a página que contém o texto. René-Lucien Rousseau explica esse fenômeno ao interpretar as lembranças que cada cor traz à mente humana: verde remete a energia solar, biosfera, mundo vegetal; azul é a cor da sabedoria, do equilíbrio; amarelo simboliza o ouro e o força do leão; e por último, o branco a transfiguração, virgindade e a neve.

As disparidades com que matérias científicas com diferentes pontos de vista são apresentadas continuam ainda no âmbito da tipografia e na diagramação.

Em relação à tipografia, as utilizações de fontes antigas aumentam ao se tratar de matérias criacionistas. Há uma preferência pelas fontes que remetem ao renascimento, como as fontes que têm serifas e um alto contraste entre a parte fina e grossa de cada letra. Também, elas são diagramadas de modo tradicional, para não fugirem dos padrões, ou seja, com poucos infogramas e boxes.

Por sua vez, a diagramação de matérias com viés evolucionista contém fotos cortadas que adentram os textos, muitos infogramas e boxes. Essa diagramação cria uma velocidade maior de leitura, dando um ar de modernidade e fuga dos padrões. Seus títulos estão em fontes com peso grande e geralmente em itálico, tendo um “quê” do filme Blade Runner, ou seja, futurista.

Ao comparar diversos veículos impressos, percebe-se um padrão e a repetição do mesmo quando o assunto é ciência.  São raros os veículos que abrem espaço para um debate profundo e franco, buscando imparcialidade ao se tratar de evolucionismo ou criacionismo.