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E disse: haja Darwin!
Suellen Timm
Numa tarde qualquer de junho de 1860, consternada ao ouvir dizer que pelas novas teorias postas a circular por Charles Darwin o homem era um simples descendente do macaco, a mulher do bispo anglicano de Worcester, Inglaterra, exclamou: “Barbaridade! Esperamos que não seja verdade mas, se for, rezemos para que isso não se torne amplamente conhecido”. Nós não partilhamos desta opinião. Por acreditarmos tanto no valor da descoberta e da acumulação do conhecimento científico e tecnológico quanto na importância de sua divulgação para o maior número de pessoas (...). Sem descuidar da precisão, o que significa dizer que em nossas páginas não haverá lugar para as meias-verdades, o saber por ouvir dizer, a hipótese sem evidência que a legitime. São elas que fazem florescer aquelas opiniões preconceituosas de que não partilhamos (...).

Como se vê, a definição editorial da revista Superinteressante está diretamente ligada à defesa da teoria evolucionista de Darwin. Pois é. Isso se evidencia no primeiro parágrafo deste texto que, por incrível que pareça, reúne trecho do editorial do primeiro exemplar, escrito pelo fundador da Editora Abril, Vitor Civita. A teoria adotada pelo periódico é presente na revista inteira. Mesmo em edições ou textos que não requerem uma explicação dessa natureza, um dos principais pensadores evolucionistas aparece como uma das fontes consultadas.

Ciência e religião

Defender o viés evolucionista não é nenhuma surpresa, mas em um mundo que vive a pluralidade das metanarrativas, parece que a revista desdenha outros pontos de vista não condizentes com a sua linha editorial. O problema não consiste no predomínio com que o evolucionismo é pautado, natural às revistas do gênero, mas nas poucas justificativas para as severas e gratuitas críticas às demais teorias. O criacionismo, por exemplo, o outro lado da moeda, entra em cena apenas para receber marretadas.


Prova clara é a crônica “E se ... o 11 de setembro não tivesse ocorrido”, da edição 230, de setembro de 2006. No box da matéria, o subtópico “Deus na escola” ironiza o design inteligente, uma das teorias alternativas ao evolucionismo:

"George Bush torce o nariz para quem diz que o homem evoluiu do macaco. Opinião, aliás, compartilhada por 55% dos americanos. Como 65% do eleitorado, o presidente gostaria de ver as escolas da América ensinando o ‘design inteligente’, nome chique para a velha teoria bíblica de que foi Deus quem criou o homem. Com tamanha capacidade de mobilizar o público, é bem possível que o ensino do cristianismo perfilasse como carro-chefe de um governo cristão."

Outro exemplo é “O aitolá dos ateus”, de Barbara Axt, publicado na edição 242 de agosto de 2007. A matéria trata sobre Richard Dawkins e o seu ateísmo, engrandecendo o cientista durante todo o texto. Um box, localizado no final da matéria, intitulado “Ateísmo para principiantes” impõe: “Apesar disto, não falta gente tentando juntar ciência e religião ‘na marra’, como os defensores do design inteligente, que nada mais é do que o velho criacionismo vestido de ciência”.  


Mesmo o hábito de misturar ciência e religião aparece com freqüência. Na própria matéria em que o box critica esta junção (ciência e religião), consulta o cientista Dawkins sobre como é possível acabar com todas as religiões do mundo. Um paradoxo. Na edição 231 de outubro de 2006, na seção Desabafa,a leitora Luciane Janarelli reclama dessa mistura que a revista faz:

"Considero algumas matéria da Super injustas, como as que misturam Igreja, crenças e tradições religiosas numa coisa só. De uma vez por todas: não, a Bíblia não é um livro científico. Não, ela não tem essa pretensão. Não há necessidade de ficarem constantemente deturpando os escritos sagrados."

Este fator é evidente. A Super possui cunho científico. No entanto, cada vez mais observa-se o aumento da temática religiosa nas matérias da revista. Em 2006, três capas – das edições mensais - retratavam temas religiosos e três científicos. Já em 2007, os números inverteram. O ano nem terminou e a religião tem quatro capas enquanto a ciência, três. Curioso.

A edição 240 de junho de 2007 apresenta escancarado na capa a mistura de cada dia (religião e ciência): “Darwin, o homem que matou Deus”. A ilustração chama a atenção do leitor, pois estampa um macaco com expressão de revolta. O artigo de capa “Evolução da evolução” realmente justifica a chamada da capa, mostra claramente que a Super matou Deus, ou melhor, não concedeu espaço para as idéias que defendem a existência dele.

"E Charles Darwin criou o homem. Ou, pelo menos, inventou o que hoje nós conhecemos como homem. Antes dele éramos o centro do Universo, a obra sublime da criação (...) Assim, mostrando como a vida evolui, Darwin dispensou Deus do cargo de criador. E agora seus seguidores do século 21 querem fazer algo ainda mais chocante(...)."

Na verdade quem dispensou Deus do cargo de criador foi a Super. Todavia é impossível dispensar alguém de algo que nunca teve. A revista nunca concedeu a Deus este posto.

Publicidades de Darwin

Mas o evolucionismo também tem poltrona reservada na publicidade da revista. A edição “Darwin, o homem que matou Deus” (citada anteriormente), recebeu publicidades em dose dupla. Duas das propagandas se deixaram evoluir pela revista. Uma retratava a mesma exposição mencionada acima e a outra, por incrível que pareça, era a da Pepsi. Como a Super quer atingir a todos, até joguinhos de celular receberam a visita de Darwin. A editoria Celular da mesma edição disponibiliza no site um game que testa os conhecimentos adquiridos com a reportagem de capa.

Jornalismo que é científico aborda profundamente o tema e não se contenta em escrever apenas o que gosta. Até mesmo porque ninguém vive só de sobremesa. A presença de Darwin é a coluna que sustenta o jornalismo da Super. Se você estiver interessado em arrumar um emprego na Super, uma dica: seja fã de Darwin. Os editores vão achar Superinteressante.