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Carência de provas |
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Cristiane Lüscher |
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| Se você disser que já encontrou mais de cinco matérias sobre criacionismo em uma das mais famosas revistas científicas do país, pode se considerar afortunado. A origem religiosa desta teoria prejudica seu placar na disputa por espaço na imprensa. Preconceito? A justificativa é que a mídia não enxerga o tema como um debate científico. Quem explica o motivo para tal desprezo é o jornalista Pablo Nogueira, da revista científica Galileu. Segundo ele, Darwin é o favorito da grande mídia por sua legitimidade científica, ao contrário dos criacionistas, que só atingirão o merecido espaço quando apresentarem à mídia as evidências de seus argumentos. Nogueira deslanchou sua carreira no jornalismo científico em 1997, no Jornal do Brasil, passando em seguida pela Veja. O jornalista está na revista Galileu há cinco anos e atua como repórter especializado em matérias de ciência, física e astronomia. Canal da Imprensa - Qual a sua opinião sobre a forma como a mídia trata o assunto criacionismo X evolucionismo? Pablo Nogueira – Depende de que mídia estamos falando. Nos Estados Unidos, a mídia trata o assunto como um fantasma que volta sempre, desde meados do século 20. Aqui no Brasil o assunto é bem menos candente. Pelo pouco que acompanho a mídia ligada a certos segmentos do protestantismo brasileiro, há certos veículos que eventualmente dão mais espaço ao tema. Para a grande mídia, é um tema desprezado, exceto por reportagens eventuais. Do ponto de vista do jornalismo científico, acho que essa é uma visão adequada considerando o atual estado do debate. CI - E qual seria o posicionamento correto da imprensa? Nogueira - Até agora, faltou aos cientistas criacionistas apresentarem evidências convincentes de seus argumentos. Se esses cientistas escavarem esqueletos de uma população de ser humano gigante, por exemplo, então existirá um fato para que se possa repensar nossas idéias atuais sobre o surgimento e a evolução do homem. Só então as idéias criacionistas poderiam aspirar o espaço na mídia laica que pleiteiam. Que mostrem, então, as descobertas para suscitar interesse dos veículos de imprensa. Enquanto isso não ocorrer, essa não será uma discussão com fundamento científico. Continuará sendo vista pela comunidade acadêmica e pela imprensa como uma tentativa de misturar ciência e religião. E qual é a maneira correta para cobrir um impasse envolvendo ciência e religião? Certamente não é a mesma pela qual se cobre um debate estritamente científico, como por exemplo, adeptos das teorias de supercordas versus inflação. Cito as palavras da bióloga Márcia Oliveira de Paula, no livro Por que creio: "como o criacionismo explica a origem de tudo como sendo criado por Deus, ou seja, aceita a ação do sobrenatural, não pode ser encaixado na definição moderna de ciência". Então isso já sinaliza que esse é um debate que não possui as mesmas características da discussão científica estrita. Não é suficiente dizer que a grande mídia trata esse tema de forma preconceituosa; a verdade é que a mídia não olha para o tema como um debate científico. CI - Porque a imprensa considera o evolucionismo como a versão mais coerente? As características culturais brasileiras e predominância católica não deveriam tender ao criacionismo? Nogueira - Pelo mesmo motivo pelo qual a imprensa considera, por exemplo, que a consciência deve estar ligada à atividade cerebral. Em outros motivos, é porque a comunidade científica em sua maioria pensa assim. A imprensa segue esse paradigma que é o resultado de 200 anos de pesquisa biológica. Quanto à predominância católica no Brasil, a igreja não está ligado ao criacionismo. Até mesmo o falecido papa João Paulo II afirmou que a teoria da evolução é mais do que uma teoria. Aliás, Santo Agostinho já dizia que a Bíblia deve ser interpretada, e não lida literalmente. Veja bem, não sou católico e não quero dizer a ninguém como ler ou não a Bíblia, estou apenas respondendo por que a Igreja Católica não é criacionista. A abordagem criacionista da ciência, até onde pude pesquisar, tem a ver com uma vertente do protestantismo americano surgida no início do século 20, como reação às correntes européias de estudo bíblico, contrapondo a elas a proposta de uma leitura literal. Dessa ação surgiram depois as primeiras iniciativas criacionistas. A origem desta corrente crítica da ciência é, pois, religiosa, não científica. Mas isso não impede que ela faça críticas válidas. Deve, porém, mostrar as descobertas que a sustentem. CI - A sociedade sente o impacto da abordagem atual e está consciente da discussão que acontece? Nogueira - Os segmentos evangélicos mais afinados a uma leitura literal da Bíblia sim. Mas também, são eles os principais agentes deste debate, e quase que os únicos. CI - Os cientistas estão satisfeitos com a forma como a mídia divulga a questão? Nogueira - Até onde pude perceber fazendo uma reportagem sobre o tema, os cientistas criacionistas estão bem insatisfeitos. Para os demais, não é uma questão relevante. CI - Qual o critério para que Darwin seja autoridade nas pautas de ciência da grande mídia? Nogueira - O profundo poder preditivo de suas idéias e sua capacidade de organizar grande quantidade de fenômenos, que lhe granjearam a legitimidade científica de que dispõem. |
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