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Filhos do divino ou do acaso?
Paulo Mondego
É a evolução que nos guia pelas mãos? A ciência que dita o caminho?
Ou é Deus que intervém, nos mantendo seguros?
Heroes, segundo episódio

A jovem Claire Bennet não entende porque mesmo após saltar de uma ponte de 25 metros de altura, seu corpo se recupera dos ferimentos em fração de segundos. O galã, Peter, está entrando em parafusos quando descobre que pode voar, assim como seu irmão político, Nathan Petrelli. A mãe do pequeno “garoto gênio”, Micah, está fugindo de uma dívida que pode lhe custar a vida. Mal sabe Niki que abriga dentro de si uma mulher extremamente perigosa e violenta. Ao mesmo tempo no Japão, o jovem Hiro Nakamura manipula o tempo e o espaço depois de muitas tentativas. Enquanto isso, o artista plástico, Isaac Mendes, pinta o futuro em telas depois de usar heroína dentro de seu apartamento escuro.

Assim começa a trama da série batizada de Heroes, herói em português, do diretor Tim Kring (Crossing Jordan e Strange World). Para trazer um caráter lógico para o inexplicável, no primeiro episódio intitulado “Gênesis”, o geneticista indiano Chandra Suresh, autor de um livro que explica a origem dessas anormalidades como um passo da teoria evolutiva, viaja para Nova Iorque e é assassinado dentro de seu táxi. Apesar da fama como geneticista, Chandra é desacreditado pela comunidade científica mundial depois de mapear alguns casos de para-normalidade. É o caso do relojoeiro Sylar, personagem que mais tarde assume o papel de vilão da saga.

Ao descobrir que seu pai foi morto, Mohinder Suresh, o jovem doutor em Genética, filho de Chandra, viaja para Nova Iorque com o objetivo de desvendar a causa da morte do pai e dar continuidade ao trabalho de localizar os “heroes”. O que Mohinder e essas pessoas especiais não sabem é que elas têm uma grande missão: salvar o mundo de uma grande explosão atômica. Assim, durante a primeira temporada, composta de 23 capítulos, a história dos heróis se cruza de maneiras inusitadas para impedir o fim do planeta.

Criados ou evoluídos?

Todo o enredo da série caminha pelas teorias evolutiva e criacionista. No segundo episódio, o texto de abertura questiona a origem do homem com a seguinte narrativa: “Todos nos imaginamos como agentes de nosso destino. Capazes de determinar o próprio destino. Mas nós temos realmente escolha de quando levantar? De quando cair? Ou existe alguma força maior que nós, que faz o caminho? É a evolução que nos guia pelas mãos? A ciência que dita o caminho? Ou é Deus que intervém, nos mantendo seguros?”

Essa busca não para por aí. No primeiro episódio, Mohinder fala a seus alunos na classe de Genética, numa universidade da Índia. De maneira provocativa ele expõe: “O homem é uma espécie narcisista por natureza. Nós colonizamos os quatro cantos de nosso planeta, mas não somos o topo da cadeia evolutiva. Esse título pertence às baratas, capazes de viver meses sem comida. Podem viver semanas sem cabeça. Resistentes à radiação. Deus com certeza criou Sua própria imagem. Então posso dizer que Deus é uma barata. Dizem que o homem usa apenas um décimo de seu poder cerebral...”

E ele continua terminando com uma questão: “O projeto Genoma humano descobriu que pequenas variações no código genético humano vêm surgindo com uma freqüência cada vez maior. Teletransporte, levitação, regeneração de tecidos estariam fora da esfera do possível? Ou estaria o homem vislumbrando um novo passo da evolução? Estaria ele finalmente alcançando o limiar do verdadeiro potencial humano?”

O diálogo entre os personagens também é carregado da ideologia evolutiva. Quando Peter encontra Mohinder no quarto episódio, ambos travam um diálogo:
Mohinder: A ciência é baseada em ceticismo.
Peter: Bom, seu pai conseguiu lidar com isso.
Mohinder: Lá no fundo, sentimos que algo está errado. Meu pai sempre ensinou como as espécies vão se extinguir, enquanto outras, não tão diferentes, vão se adaptar de maneira extraordinária. Ele tinha uma visão romântica da evolução.
Mohinder: Tudo é uma variação do último modelo.
Peter: Somos imitações baratas de nossos pais.

Segunda temporada

Depois do sucesso da primeira temporada o presidente da NBC Entertainment, Kevin Reilly, anunciou que Heroes teria uma segunda série de episódios. Em 24 de setembro deste ano, a segunda temporada começou com tudo. Com poucas mudanças no enredo e uma repaginação no visual dos personagens, a ideologia continua a mesma, questionando a causa e a origem dos poderes especiais do heróis.

No segundo episódio da segunda temporada, o Dr. Mohinder visita um homem que na primeira parte da série trabalhava para o pai de Claire. O personagem que não tem nome definido, conhecido apenas por Haitino, tem poderes de manipular a mente, mas está infectado por um vírus que o impede de usar seus poderes. Mohinder então viaja para curá-lo, mas antes eles discutem:
Mohinder: Existe a possibilidade de que você tenha um vírus muito raro. Foi por isso que eu vim. Talvez eu possa ajudar a curar você.
Haitiano: Eu não quero a sua cura.
Mohinder: Mas sem ela você pode morrer.
Haitiano: Deus me deu um poder. Eu abusei desse dom, então ele tirou de mim. Agora eu sofro o seu julgamento.
Mohinder: Então talvez você deva deixar isso pra Deus decidir. Há a chance de você carregar um entre cem vírus contra os quais eu não posso fazer nada. Se você tiver esse vírus em especial, só há uma cura. A destilação do meu sangue. Eu fui guiado até você. Certamente esse é um sinal. O mesmo que seu sofrimento.
Haitiano: Um sinal do quê?
Mohinder: De que Deus ainda não terminou completamente com você. Então, meu amigo, podemos ver se ele ainda te oferece a redenção?
 
A trama segue com mistérios e novos personagens. Quem já assistiu os dois primeiros episódios da segunda temporada, sabe que um casal de irmãos gêmeos traz mais novidades e misticismo à série. Os irmãos latinos tentam atravessar a fronteira do México para os Estados Unidos em busca da “cura” dos poderes que eles julgam ser uma maldição. Outra novidade é que após 11 episódios começará Heroes: Origins, uma temporada com novos personagens no qual o público poderá decidir quem continuará na série.

Sucesso de público

A série estreou em 25 de setembro do ano passado no canal norte-americano NBC e pouco a pouco ganhou admiradores em outros países. Atualmente no Brasil a TV Record exibe a primeira temporada nas noites de domingo. Em Portugal, o canal TVI detém os diretos de transmissão da série.

Os mais aficionados por seriados sabem que Heroes foge do padrão comum de esperar um final feliz. O enredo de cada episódio sempre leva ao próximo de maneira intrigante amarrando o público às características de cada personagem. É quase impossível não criar uma empatia pelo herói Hiro Nakamura. Da mesma forma fica difícil não criar antipatia pelo vilão Sylar. Mas quem consegue ler nas entrelinhas sabe que o pano de fundo de toda a série é o questionamento da origem humana, seja ela divina ou obra do acaso.