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| Consciência limpa | |||||||
| Cígredy Neves | |||||||
Prezar pela imparcialidade e mostrar todos os lados de um fato. Essa é a função do jornalismo. Quando se trata de criacionismo e evolucionismo, a premissa não é diferente. Para exercer o seu papel corretamente, a mídia precisa refletir sobre o espaço dado as duas teorias. É o que tenta fazer a revista eletrônica de jornalismo científico ComCiência, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Publicada desde agosto de 1999, a revista retrata mensalmente um tema específico. Desde então, duas edições expuseram diretamente a discussão entre as áreas científicas e religiosas. A primeira delas saiu em julho de 2004, intitulada “Criacionismo x Evolucionismo”. E dez meses depois, outra edição foi lançada: “Ciência e Religião”, que discute como os discursos entre religiosos e cientistas nem sempre são conflitantes. Com uma diagramação simples e sem chamar muito a atenção, o site dá mais preferência ao conteúdo dos artigos e reportagens do que ao layout propriamente dito. Quando essas duas edições foram publicadas, a página principal tinha somente uma imagem, que apresentava o assunto. Porém, atualmente, a revista tem uma disposição de fotos e textos de forma mais interativa e chamativa. Um destaque são as novas seções “HumorComCiência”, “Cartas” e “Notícias”. Quando o assunto é origem da vida, ComCiência tem a sua posição formada. Isso é deixado bem claro no editorial da edição “Criacionismo x Evolucionismo”. Com o título “A evolução do homem e a criação de Deus”, o diretor de Redação, Carlos Vogt, aborda como esse tema conquista espaço na mídia e a opinião do site é notada quando ele traduz e mostra quase um capítulo inteiro do livro Summing up, de Somerset Maugham (famoso romancista e dramaturgo britânico). Perceba como este trecho desfavorece a uma das teorias: "...o mal do mundo nos força à conclusão de que este ser [referindo-se a Deus] não pode ser todo-poderoso e todo bondade. Justamente um Deus todo poderoso poderia ser acusado pelo mal do mundo, parecendo, assim, absurdo considerá-lo com admiração e tratá-lo com devoção. Mas a razão e o coração se revoltam contra a concepção de um Deus que não seja só bondade. Somos, então, forçados a aceitar a suposição de um Deus que não seja todo-poderoso: tal Deus não contém em si mesmo nenhuma explicação para a sua própria existência ou para a existência do universo que ele criou."
Abordagem equilibrada O mais interessante do site ComCiência é o fato de que, apesar de ter a sua posição formada, ele dá espaço para que representantes de cada teoria façam as suas argumentações, o que raramente acontece em outros veículos de comunicação. Na reportagem “O ensino religioso ameaça o conhecimento científico?”, da edição “Criacionismo x Evolucionismo”, a repórter descreve as diferentes posições dos entrevistados. Um afirmou que não se deve colocar no mesmo plano religião e ciência. Já para o outro, no ambiente acadêmico se deve estudar a maior quantidade de opções e controvérsias, a fim de que cada pessoa decida por si mesma. Ainda nessa edição, dois artigos se destacam pelo fato de cada um explanar a sua visão de origem da vida. No artigo “Criação e evolução”, o professor da Unicamp, Isaac Epstein, faz a seguinte colocação: "Apoiando o criacionismo radical está a fé religiosa que é baseada nos textos bíblicos. O evolucionismo é apoiado em evidências cosmológicas, geológicas, arqueológicas e antropológicas. Sua negação envolve a recusa em aceitar uma boa parte das ciências naturais, principalmente as descrições da história do planeta e da vida."
Ele afirma ainda que não acredita que, do ponto de vista da ciência, o criacionismo mereça mais do que uma breve menção, não sendo suas razões capazes de abalar o edifício das crenças científicas e das evidências a favor do evolucionismo. Por outro lado, o presidente da Sociedade Criacionista Brasileira, Ruy Carlos de Camargo Vieira, descreve a perspectiva criacionista relativa à ciência no artigo “Subsídios para a compreensão da controvérsia entre o criacionismo e o evolucionismo”. Vieira fez um levantamento das principais características necessárias para o entendimento do conceito de ciência, dentre elas observação e experimentação. “Será de utilidade manter esses conceitos em mente para analisar criticamente não só o criacionismo, como também o evolucionismo, este em seu suposto caráter racional e científico, em contraposição ao seu caráter efetivamente não-racional.” A partir disso, ele faz a seguinte afirmação: "Fica claro, então, que o criacionismo não tem, e nem alega ter, embasamento no método científico, pois não tem como ser submetido à prova de hipótese. Ele se baseia, na realidade, em conceitos básicos que são aceitos como verdadeiros pela fé em uma revelação (...). Por outro lado, muito embora o evolucionismo alegue ter embasamento científico, também não tem como ser submetido à prova de hipótese, pois ele se baseia em conceitos que são admitidos como verdadeiros tão somente por um ato de fé, e que não têm como ser demonstrados por constituírem um modelo teórico que faz suposições impossíveis de serem provadas."
Ele conclui que, “na realidade, evolucionismo e criacionismo constituem duas maneiras distintas, e extremas, de aceitar uma explicação para a existência da vida, da nossa existência, a existência do nosso planeta e do nosso sistema solar, e a própria existência do Universo, explicação esta que transcende as potencialidades da ciência e do método científico, podendo ser aceita somente por um ato de fé – seja fé criacionista, seja fé evolucionista”. Dessa forma, ComCiência pode ficar com a consciência limpa. Mesmo tendo a sua opinião, o veículo consegue mostrar ao leitor os conceitos e as diferentes posições sobre estas teorias tão difundidas pela mídia: criacionismo x evolucionismo. |
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