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| Folha em branco | |||||||
| Rizza Mattos | |||||||
Na disputa entre criacionismo e evolucionismo, não é surpresa para ninguém o predomínio do segundo na cobertura de ciência no Brasil. Com uma simples busca no site da Folha Online, por exemplo, é possível confirmar essa constatação. Utilizando o sistema de busca do site, são encontrados cerca de 40 textos sobre ao digitar a palavra “criacionismo”. Já a palavra “evolucionismo” é encontrada mais de 10 vezes, sempre dentro de um contexto positivo. Charles Darwin, o pai da teoria da evolução, é citado aproximadamente 180 vezes, enquanto a teoria do design inteligente (uma das hipóteses apoiadas pelos criacionistas) aparece mais de 15 vezes. No entanto, se a prevalência do evolucionismo nas pautas dos veículos justifica-se pela posição da comunidade científica, majoritariamente evolucionista, o mesmo não se pode dizer do predomínio de fontes evolucionistas em matérias cuja ênfase é o embate dos modelos sobre a origem da vida. Das cerca de 40 matérias sobre criacionismo, em nenhuma delas um especialista criacionista é consultado. Na matéria “Mutação simples pode gerar nova espécie” (20/02/2002), o repórter chega a ser unilateral: em todo o texto apenas uma fonte foi consultada e essa é evolucionista. Outro fato peculiar na cobertura “jornalística” do site é que, em muitas reportagens, os termos criacionistas estão entre aspas. Como se pode ver, quando se coloca uma palavra entre aspas, você sugere uma dubiedade, uma certa ironia, como é o caso da palavra jornalista da primeira linha deste parágrafo. É notável uma certa tendência das matérias de ironizarem o modelo criacionista, como frágil e sem argumentos científicos. Nesse sentido, pode-se questionar na cobertura de ciência da Folha Online a execução equilibrada do princípio de ouvir os dois lados da moeda. Em todos os textos analisados sobre o criacionismo, nenhum deles fala exatamente sobre a teoria: sua estrutura teórica, descobertas que apóiam o modelo, bem como os prós e os contras do mesmo. Um exemplo é a matéria “Criacionistas fazem barulho na academia” (13/09/2004). O tema é uma crítica aos contrários ao evolucionismo. E mais uma vez os criacionistas são analisados pela ótica dos evolucionistas – não é dado a chance dos adeptos do criacionismo descreverem a si mesmos e a suas idéias, como demonstrado no trecho abaixo. "A guerra entre cientistas e críticos da teoria da evolução foi reacendida depois da publicação de um artigo num periódico científico norte-americano sobre o chamado "design inteligente", que, segundo os cientistas, não passa do velho criacionismo disfarçado".
Atente para o termo usado ao se dirigir aos criacionistas - críticos da teoria da evolução. Os cientistas são evolucionistas e os criacionistas, só críticos. Escreva com moderação A prevalência de vieses na cobertura jornalística de ciência é fenômeno um tanto quanto comum na mídia, dado o papel “existencial” da ciência em definir de onde viemos e para onde vamos. No entanto, a lógica da imparcialidade, mesmo sendo utópica, precisa ser perseguida e a adesão de um viés, mais amenizada. Ao invés de exercer um papel essencialmente direcionado na cobertura de ciência, a Folha Online poderia aproveitar a sua vasta influência para criar um espaço para o debate, invocando a democracia e permitindo que os adeptos de grupos e idéias minoritárias apresentem suas idéias e propostas. |
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