ABJ    |    ABJ Media Center    |    Canal da Imprensa    |    Diário do Campus    |    O Parcial
  home |
 

O fogo que une nações

Rogério Cardoso

De quatro em quatro anos, uma festa esportiva faz parar todo o continente. Milhares de atletas se entregam às suas modalidades para representarem seus países. Outros milhares de olhos não deixam que escape nenhum acontecimento durante os dias de competição. No entanto, os dias que precedem o PAN ou as olimpíadas são carregados de cultura e misticismo. Mais precisamente falando, todo o ritual por trás do acendimento da tocha e sua “caminhada” até a cidade sede do evento, nos leva a um mundo cheio de fantasia e religiosidade. E é justamente este mundo que iremos explorar nas próximas linhas.

Mas o que será que existe de tão fascinante na figura do fogo? Qual a sua representação para a civilização?

O homem, a partir do momento em que conseguiu dominar o fogo e sua criação, passou a depender deste para sua sobrevivência, utilizando-o para se aquecer, cozinhar, iluminar e se proteger. No entanto, alguns povos tinham neste elemento certa adoração. Pela sua fascinação, o fogo deu origem a muitos contos, lendas, mitos e deuses. Em algumas vezes, torna-se um deus ou uma dádiva dos deuses. Em outras, é associado ao Sol. Os Incas, por exemplo, acreditavam que o fogo lhes havia sido dado pelo filho do Sol.

A primeira Tocha do Pan surgiu ainda na primeira edição do evento, em 1951, nos jogos de Buenos Aires, na Argentina. Porém, ao contrário de hoje, a chama foi acesa em Acrópole, na Grécia, assim como ocorre nos Jogos Olímpicos. Apenas na segunda edição, em 1955, é que a chama da tocha pan-americana passou a ser acesa no México, sede daquele ano dos jogos.

A partir de então, todas as tochas passaram a ser acesas no México, com exceção de apenas uma única vez, quando o Brasil sediou os jogos em 1963.  Nessa ocasião, a chama foi acesa por índios Carajás, em Brasília.

O leitor pode estar se perguntando do porquê da tocha ser acesa no México. Simplesmente pelo motivo de este evento simular o ritual do fogo da civilização Asteca, que habitava essa região no período pré-colombiano. Todo esse ritual se traduzia como uma forma de reverenciar o Sol, visto por eles como uma entidade divina.

Desde 1991, quando a capital de Cuba, Havana, recebeu os jogos, o acendimento da Tocha Pan-americana passou a ser realizada na cidade de Teotihuacán, local que tinha a maior concentração desse povo.

No entanto, esse ritual é apenas o início da longa jornada mística que a tocha faz até acender a pira olímpica na festa de abertura dos jogos. Os países participantes do evento são representados por cidades do país cede. Nos jogos do Rio de Janeiro em 2007, por exemplo, a tocha percorreu 51 cidades em todo o território brasileiro e trouxe junto com a chama muita cultura e misticismo.

Quando a tocha percorreu o município de Campo Novo dos Parecis, Mato Grosso, muita tradição e cultura agregou-se ao evento. O fogo, símbolo dos esportes e um dos mais forte elementos na cultura dos povos indígenas, o Fogo Ancestral Indígena, elemento de unidade entre diferentes povos, foi entregue ao cacique da tribo da região para que este fizesse o percurso com a tocha. A festa realizada na cidade foi inspirada na mitologia tupi-guarani.

Por fim, quando a tocha é utilizada para acender a pira olímpica, que permanece acesa durante todos os dias de competição, a emoção e união dos povos cresce. Segundo a mitologia, é este fogo que faz o espetáculo acontecer, pois é o Deus Sol iluminando todas as pessoas ligadas ao evento, trazendo coragem, força e união.

De fato, o fogo é indispensável aos jogos. Historicamente, por todo o seu poder e inovação, e mitologicamente por toda a crença, a chama do PAN ou das olimpíadas é um espetáculo a parte dos jogos. A cada evento, uma nova pira é idealizada para iluminar a cidade, porém o seu significado não muda. O fogo é utilizado de várias maneiras, mas apenas uma delas pode-se dizer que possui um significado à parte: o fogo também une nações. E assim, sempre será.