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Entender para compreender

Moabe Giudice

O misticismo está presente nas diferentes culturas e se apresenta de diversas formas. No Brasil, as novelas, programas de auditório, entretenimento e até jornalístico dão amplo espaço a histórias com enredos comprometidos com a experiência mística. O caso de maior destaque tenha sido talvez a morte dos integrantes do grupo musical Mamonas assassinas. Na ocasião, uma vidente afirmava que seres celestiais havia lhe comunicado sobre a tragédia. Verdade ou não, os músicos morreram e, desde então, o espaço reservado na mídia a esses assuntos ganharam mais relevância e, conseqüentemente esses formadores de opiniões tem contribuído para o maior um números de adeptos.

Mas, a busca por uma comunicação ou união pessoal com o absoluto, que pode chamar de Deus, Cósmico, Mente Universal ou Ser Supremo tem raízes históricas. Bradford Smith ao escrever sobre “A Arte da Meditação” diz que “o misticismo é a raiz mestra do hinduísmo e o organismo vivo do taoísmo”. Para ele a crença é uma religião universal porque indivíduo e cosmos estão de tal maneira relacionados entre si que o homem, pela sua própria natureza, está envolvido em todos os eventos cósmicos.

No mundo ocidental o misticismo retroage aos dias de Platão, que talvez o tenha recolhido em fontes orientais, e que descobriu, na alma, um olho para a realidade divina.  Alguns estudiosos acreditam que Sócrates já falava do mundo místico por acreditar no senso interior, ou conexão com o divino. Na Grécia antiga Elênsis e Dioniso são seus principais representantes. Eles ensinavam que era necessário fechar os olhos para tornar possível o acesso a uma experiência de ordem anímica e espiritual.

A mística influenciou o pensamento de vários filósofos e teólogos. A percepção dessa corrente se traduz nas obras de artes, literaturas, contos, romances e peças de teatro deixadas por esses estudiosos. Essa herança continua viva ainda hoje e é, para muitos uma fonte espiritual capaz de fundir a alma do homem com Deus, revelar mistérios e levá-lo a superar os limites do intelecto. Vale ressaltar que a experiência mística não se opõe a razão, muito pelo contrário, a razão está presente, mas a percepção do infinito vai além da razão, dos sentidos e da experiência sensorial. Ou seja, tendo o homem já experimentado à causa e tomado consciência dos limites dos sentidos, ele deve ir mais além e isso só é possível através do conhecimento místico.

A experiência mística constitui-se de algumas fases. A primeira é o despertar para o preparo, trata-se de ficar a vontade com o Eu para transcendê-lo. Em seguida começa o período de quietação, quando a mente repousa, é o momento de autoconhecimento e auto-análise. É nesta ocasião que ocorre a iluminação, como uma luz que se acende e leva ao florescimento da presença divina. Finalmente, a capitulação a presença do divino espírito e, por último, a união com Ele, ou seja, a contemplação. Evelyn Underhill define esse momento como meio de expressão do místico. “É para ele o que a harmonia é para o músico, a forma e a cor para o pintor, o ritmo para o poeta”.

Mas afinal o que é misticismo: Existem diversas definições para o termo, o site wikipédia o conceitua como uma prática, estudo e aplicação das leis que unem o homem à natureza e a Deus. O escritor Jakob Bohme, em seu livro “O Príncipe dos Filósofos Divinos” caracteriza misticismo como um tipo de religião que enfatiza a atenção imediata da relação direta e íntima com Deus, com a consciência da Divina Presença. Já o Aurélio, o trata como crença ou doutrina religiosa dos místicos, disposição para crer no sobrenatural.

Uma definição do misticismo não seria suficiente para abranger todos os tipos de experiências descritas como místicas. Em essência, eles crêem que não estão separados de Deus e que é possível manter o contato com o Divino. Esse aspecto distingue-se da religião, pois se refere à experiência direta, pessoal da divindade, do transcendente, sem a necessidade de dogmas, teologia ou qualquer sistema de pensamento.

As principais características do misticismo são: consciência, quietação, amor, união. O escritor Rufus Jones, no seu livro “The Trail of Life in the Middle Years” diz que a característica essencial do misticismo é “a realização da convicção pessoal do indivíduo de que espírito humano e Espírito divino finalmente se encontraram, descobriram-se e estão em correspondência mútua e recíproca como espírito com Espírito”. 

Entender a história, conceitos e ideologias do misticismo caracterizam o ponto de partida para compreensão de sua influência na sociedade, nos meios de comunicação e na vida cotidiana de cada brasileiro. Afinal, essa crença está presente em todas as classes sociais, nas representações artísticas, nos esportes, na política e na religião. As palavras de Bradford Smith, “o senso místico de unidade ilumina o mundo com uma luz, a qual vemos que todos os problemas são também nossos. Mas, ao passar-nos este enorme fardo, ela nos dá também coragem e capacidade para carregá-lo”, talvez explique o crescente número de adeptos as crenças místicas ainda hoje.