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Zênite e Nescau
Carina Bentlin

Muita gente, muita mesmo. Quem é apaixonado por esporte e em especial por futebol sofre. E se sofre, recorre a diversas coisas para amenizar esse sofrimento, para dar esperança, aquela luz no fim do túnel. Vale tudo: vela, oratório em casa, patuá e outros.

Na fila do banco e na falta de assunto, qualquer conversa ajuda passar o tempo. Numa dessas, um senhor brincou “se Deus tivesse time, Ele seria Corinthiano”. Achei uma blasfêmia, sou Palmeiras.

Misticismo não é Panteísmo, futebol é quase uma religião

O povo brasileiro é místico por natureza. Precisa disso para não sucumbir diante dos problemas em seu dia-a-dia, só mesmo com muita fé. O Brasil é uma mistura de muitas religiões, crenças, cultos, seitas e manifestação folclórico-religiosa.

Ao contrário do sentido que o termo misticismo tomou, comparando-o a tudo que é irracional, anti-cientifico e supersticioso, isso nada tem a ver com o Misticismo. O místico, sobretudo, busca um contato direto com a realidade, sem intermediários. Percebe todas as coisas como sendo parte de uma infinita e essencial unidade do todo existente. Então, este conjunto faz parte da sua crença e está interligado com tudo que ele faz.

Antes que confundam essa idéia com Panteísmo (onde todos os seres e toda a existência de Deus, são concebidos como um todo), os místicos não acreditam que Deus se resume a todas as coisas, mas sim, conseguem perceber a presença de Deus em tudo. E isso explica muita coisa! Futebol é paixão nacional, vai além, quase uma religião. O estádio é seu templo, o campo um altar santo. A bola: objeto sacro, iluminado, abençoado, fundamental.

O noticiário esportivo é levado com bastante sensatez no Estadão. Na edição de quinta-feira, 29 de maio, as notícias não se utilizam deste “invólucro místico” para seduzir o leitor. As notícias deste dia também não davam brecha para isso.

O caderno fechou antes de dois jogos importantes da Copa do Brasil começarem. Assim, as páginas trazem notícias como quantos milhões custará a candidatura do Brasil para os Jogos Olímpicos de 2016, o brilho da musa Sharapova e desdobramento sobre o caso da nadadora Joana que acusa um ex-treinador de pedofilia. E nada sobre os jogos da quarta, quando jogaram Vasco x Sport e Corinthians x Botafogo.

Em jogos como este pouco misticismo é bobagem! No site do Globo Esporte, é totalmente o oposto do Estadão. Matérias como “Vozes guiam Felipe em pênalti decisivo”, o jogador do Corinthians conta que um anjo o orienta na hora das defesas. O goleiro alvinegro pode se tornar um forte candidato para tomar o posto de Zagallo, de longe o esportista mais supersticioso do Brasil. Ainda no Globo Esporte “Amuleto da sorte de Felipe é roubado”. O objeto trata-se de um terço, levado depois da comemoração pela vaga na próxima etapa da Copa do Brasil, conquistada graças à defesa de um pênalti de Zé Carlos, do Botafogo. Quem encontrar o terço, Felipe promete recompensa que deixaria qualquer um satisfeito!

Aliás...

Em 29 de julho a Copa de 1958 completa seu 50º aniversário, primeiro título mundial do Brasil. Nilton Santos, Didi, Garrincha, Vavá, Pelé, Zagallo, Pepe fizeram parte desta vitória. Neste dia bem-aventurado, golearam a Suécia com cinco gols. 5 x 2 e o Brasil entrara para história do futebol. O Pelé com 17 anos ganhou a Copa do Mundo e se tornou o "Rei do Futebol". Machucado, não entrou nas duas primeiras partidas, mas quando entrou mostrou porque seria o melhor jogador de todos os tempos. Chorou como o menino que era nos ombros dos companheiros após a vitória contra a Suécia na final.

O genial ponta-direita Garrincha entrou na terceira partida contra a URSS. Ousado e genial, sempre. O colunista Humberto Perón lembra um lance do Mané “num amistoso de preparação para o Mundial, driblou vários zagueiros, o goleiro, e, com o gol livre, esperou um zagueiro se recuperar para dar mais um drible e finalmente marcar o gol. O lance foi considerado uma irresponsabilidade pela comissão técnica e lhe custou a vaga de titular nas duas primeiras partidas”. Emocionante. Mané Garrincha dá 13 letras.

E o título? Não te diz nada não é mesmo? Zênite e Nescau são treze letras! Zênite é o ponto superior da esfera celeste segundo a perspectiva do observador, ou o exato ponto acima da sua cabeça em direção ao céu. Nescau é Nescau mesmo! Veio à mente logo depois de zênite, pode ser um sinal, algo do tipo. Não quis deixar passar, poderia quebrar algum ciclo cósmico. Melhor não arriscar.

O esporte, o futebol, a alegria do povo, Alegria do Povo era Mané Garrincha, o anjo de pernas tortas, e Vinícius (este, o poetinha) soube poetizar:

O ANJO DE PERNAS TORTAS

A um passe de Didi, Garrincha avança
Colado o couro aos pés, o olhar atento
Dribla um, dois, depois descansa
Como a medir o lance do momento.

Vem-lhe o pressentimento; ele se lança
Mais rápido que o próprio pensamento
Dribla mais um, mais dois; a bola trança
Feliz, entre seus pés - um pé-de-vento!

Num só transporte a multidão contrita
Em ato de morte se levanta e grita
Seu uníssono canto de esperança.

Garrincha, o anjo, escuta e atende: - Gooooool!
É pura imagem: um G que chuta um O
Dentro da meta, um L. É pura dança!


                                                                                                                   Vinícius de Moraes