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Jogo místico |
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O futebol brasileiro é cheio de crendices, superstições, simpatias, rezas e tabus. Por mais que se queira avaliá-lo com lógicas e estatísticas, o resultado do jogo do time para o torcedor fanático é graças à camisa ou cueca da sorte, à promessa para o São Jorge. Exatamente por isso, a imprensa brasileira por vezes tem dificuldade de separar as duas coisas. O misticismo e o esporte, principalmente o futebol, andam de mãos dadas para torcedores doentes, jogadores inseguros ou técnicos apreensivos. |
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Cristiane Lüscher e Suellen Timm* |
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Ele passa a mão no gramado, faz o sinal da cruz. Beija o brasão do manto sagrado branco e preto, olha para o céu enquanto repete uma reza que aprendeu. Depois de manifestar inúmeras outras crendices, resolve jogar bola. Aquece, e escuta o apito do árbitro. É bola rolando. Dois minutos de jogo e a fiel torcida vibra com o gol. Ô ooo ôôô - Todo poderoso timão! O jogo continua e é bola na rede do alvinegro. Gol do time adversário. O jogador se preocupa, mas segue a partida. Surge a oportunidade de finalizar e uma entrada maldosa o coloca no chão. Curiosas superstições A equipe da Confederação Brasileira de Judô (CBJ) conhece bem as superstições de um de seus atletas. O judoca é famoso por se apegar a rituais em momentos de dificuldade, como uma classificação, seletivas ou situações que exijam o máximo de sua concentração. Lúcio Mattos, assessor de imprensa da CBJ, conta que já presenciou cenas muito curiosas: “Na última seletiva, referente aos jogos de Pequim, ele decidiu usar o mesmo quimono que usou nas seletivas de Atlanta, há 12 anos. De tão velho, o quimono rasgou no meio da luta, e teve que pedir outro emprestado.” Mattos descreve que o judoca carrega uma Bíblia para todos os lugares, faz meditação e ioga. “O mais interessante, é que ele não faz a barba alguns dias antes das principais disputas”, ressalta. Há quem acredite que ser fiel a alguns objetos pessoais também pode dar certo. Lúcio Mattos conta de um tenista que conserva o mesmo estojo de raquete desde 1997, e não troca o objeto por nada. Ele conta que, no alvoroço de uma competição, o jogador perdeu o estojo. “A equipe toda entrou em desespero e todos tiveram que sair para procurar”, relembra. O estojo foi achado somente uma semana depois, na sede do clube. Com 33 anos de experiência em uma comunidade de tradição Candomblé, Mãe Dango atende freqüentemente atletas de várias modalidades que procuram sua casa para pedir conselhos. Segundo ela, mesmo o esporte ajudando no alívio do stress, a cobrança que os atletas recebem querendo satisfazer a torcida e o time faz com que fiquem tensos, ansiosos e percam energia. “Ajudo-os através do jogo de búzios, peço orientação aos deuses para acalmar esses jogadores. Mãe de santo é psicóloga espiritual”, argumenta. Mãe Dango conta que muitos dos jogadores que procuram seus conselhos não são praticantes do Candomblé, mas vem por indicação e saem mais calmos. Os viciados em esporte sempre querem mais dos jogadores e do seu time, principalmente no Brasil onde o futebol é uma paixão devassadora. “Sempre mostro que não é impossível agradar a todos”, reafirma. Mania de camisa Pelé. O grande astro do futebol também iniciou uma nova crença mística. Num país de fanáticos por esporte, a camisa 10, usada pelo rei do futebol, criou um símbolo místico. No livro “A magia da camisa 10” os autores, André Ribeiro e Vladir Lemos, analisam a magia do número e seus donos. Em entrevista publicada na revista Época intitulada “Camisa 10: a vitrine do futebol”, em 27 de março de 2006, os escritores comentam o mito que foi criado pelos fanáticos em cima do número das camisas. Os rituais místicos não acompanham apenas jogadores, mas influencia também os torcedores. O torcedor fanático do Botafogo, Gabriel Andrade Pierot, ora antes de todos os jogos e ultimamente tem usado a mesma camisa. “Mesmo com todos esses rituais, minha superstição não tem funcionado. Não acredito muito em simpatias, mas creio que podem ajudar”, afirma. Mas os botafoguenses já têm outro talismã. Trata-se do cão Perivaldo, mascote do time que nasceu com uma mancha nas costas igual a uma estrela, símbolo que caracteriza o time alvinegro. “Peri” é levado para o gramado em todos os jogos do clube, possui status de astro e seguro de vida. Fé absoluta Apesar de tantas crenças e rituais diferentes, o cristianismo predomina em todas as modalidades. Prova disso, é a organização Atletas de Cristo, criada há 27 anos, com o objetivo de divulgar a mensagem evangélica através da linguagem universal do esporte. Existem divisões do projeto espalhadas pelos cinco continentes, onde os participantes desenvolvem atividades sociais e auxiliam atletas desempregados, lesionados ou que precisem de qualquer tipo de auxílio. A organização Atletas de Cristo começou quando um jogador de futebol cristão passou a entregar uma Bíblia para cada capitão de time de futebol. Desde essa época, a organização cresceu e hoje abrange todas as modalidades olímpicas. O diretor-executivo, Paulo Sérgio, é jogador de futebol profissional há 20 anos e atua como técnico do clube Red Bull Brasil. Ele comenta que manifestações religiosas são muito comuns nos atletas da equipe. “Eles se reúnem, oram antes de competições e alguns deles até me pedem licença para freqüentar a igreja”, relata. O pastor Ezequiel Batista comenta que os atletas de Cristo não oram somente em vésperas de competição, porque essa prática já faz parte do dia-dia do cristão. Para eles, manifestar sua crença em campo é uma expressão de gratidão e de amor a Deus. “Quando um jogador de futebol faz um gol e olha pro alto não é um ritual, e sim uma dedicação a Deus, um testemunho de sua fé”, explica. Sebastián Cuattrin, atleta de Cristo e competidor de canoagem afirma que levanta o dedo ao Céu quando vence uma competição, a fim de exaltar a Deus por ter-lhe concedido a vitória sobre todas as coisas.
* Com reportagem de Carolina Nogueira e Mariana Jósimo |
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