ABJ Notícias    |    TV ABJ    |    O Parcial
  home |
 
Brincando com coisa séria
Jefferson Paradello
 
Encontrar fatos engraçados nos veículos que tem ou deveriam ter o objetivo de informar se torna cada vez mais comum. Mas até que ponto isso influência a qualidade da notícia, a relevância do fato e a seriedade da profissão? Fazer jornalismo com conteúdo humorístico tem se mostrado uma alternativa para despertar o interesse do cidadão, mas quais são os seus limites?

Quem discute o tema é a professora Cláudia Irene de Quadros, doutora em Ciências da Comunicação pela Universidade de La Laguna (ULL), Espanha. Em 2001 ingressou no corpo docente do Programa de Mestrado em Comunicação e Linguagens da Universidade Tuiuti do Paraná (UTP), onde coordena a linha de pesquisa Cibermídia e Meios Digitais. Sua publicação reflete sobre as reconfigurações dos meios de comunicação, a ética, os novos formatos e práticas dos jornais digitais, as possibilidades proporcionadas pelo avanço tecnológico e os sistemas emergentes.

Canal da imprensa - Qual a finalidade do humor no jornalismo?

Cláudia Quadros - O humor, quando utilizado de forma inteligente, pode ajudar a aproximar o público do jornal, do rádio, da televisão ou  de qualquer outro meio de comunicação.

Ele pode ser usado para criticar, como entretenimento e, principalmente, despertar no público o interesse sobre determinado fato. As charges de Quino, no diário espanhol El País, são bons exemplos  de como o humor pode divertir e incentivar o leitor a refletir sobre diversos acontecimentos.  No entanto, nem sempre encontramos exemplos positivos de humor no jornalismo. Às vezes, o humor pode provocar polêmicas. Em 2006, as charges do profeta Maomé divulgadas pela imprensa européia feriram uma cultura.

É claro que o humor pode estar presente em crônicas e até mesmo em matérias, não apenas nas charges. Neste momento, em que o jornalismo tem trocado o sermão pela conversa com o seu público, o humor deve passar a ser utilizado com mais freqüência. Hoje, os jornais tentam atrair o seu público oferecendo serviços e espaços para a formação de redes sociais. Nestes novos espaços públicos, prepondera a informalidade e o humor. Isso não quer dizer que assuntos sérios deixam de ser tratados. Muito pelo contrário, são prioridades da sociedade em rede. Mas, como num encontro entre amigos, esta sociedade em rede debate, questiona e também se diverte. Cabe ao jornalismo, nesse sentido, proporcionar um humor inteligente. 

CI - É realizado de forma inteligente?

Cláudia - Fazer humor inteligente não é para todos. Assim como são poucos os atores que conseguem trabalhar bem em comédias, somente os jornalistas com sólida formação cultural e habilidade para divertir o seu público conseguem fazer humor inteligente. Na mídia, encontramos todo tipo de humor: do inteligente ao forçado. No Brasil, algumas pessoas presentes nos meios de comunicação conseguem fazer humor.   

CI - Até onde essa categoria pode ser usada ao se tratar uma informação?

Cláudia - O humor não pode comprometer a função principal do jornalismo, que é a de informar. Por isso, é preciso saber usá-lo na medida certa. 

CI - Até onde ela é importante? Não tiraria a seriedade da profissão?

Cláudia - O humor, feito de  maneira inteligente, só vai contribuir para aumentar os laços formados entre comunicadores e seus públicos. Quando o humor é usado com inteligência numa conversa, por exemplo, sempre torcemos para que novos encontros com os que proporcionam esse diálogo animado se repitam. O leitor busca seriedade, sim. Mas a seriedade não significa que o jornalismo precisa ser sisudo.  

CI - O humor no jornalismo pode ser usado como forma de crítica?

Cláudia - Sim, o humor pode ser utilizado para criticar. Muitas charges nos jornais cumprem a função de criticar com muito humor.

A charge é uma forma mais amena de criticar ao invés do texto?

Cláudia - Acredito que as pessoas estão mais acostumadas com o humor nas charges. Portanto, por uma questão cultural a charge pode ser uma forma mais amena de criticar.

CI - Como você classificaria os textos de Arnaldo Jabor? Podemos considerar seus textos como uma forma de humor no jornalismo?

Cláudia - Ele explora mais a ironia, nem sempre os seus textos são humorados. Alguns textos do Jabor podem ser considerados como uma forma de fazer jornalismo, mas não é o tipo de humor que me agrade.  Seus textos são sermões, com toques pops. Por exemplo, ele canta no meio de uma crítica a la Paulo Francis. Ele tenta atrair com a polêmica e com declarações estrondosas, que raiam ao politicamente incorreto. Isso não é humor, isso não é jornalismo.