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...o Canal se tornasse um veículo profissional

Rogério Cardoso

Segunda-feira, 7h da manhã. O prédio ainda se encontrava totalmente às escuras. O telefone ainda não gritava. Parecia um dia diferente do habitual na Redação do Canal da Imprensa. A calmaria durou pouco tempo, pois 15 minutos mais tarde a porta de entrada do prédio se abriu e um grupo de pessoas começou a preencher os espaços até então vazios e escuros. Eram os responsáveis pelos textos do Canal . Todos ex-estagiários, digo “ex”, porque daquele início de semana para frente todos seriam funcionários remunerados e tinham ainda mais responsabilidades com o veículo. Sendo assim, os costumeiros atrasos referentes aos deadlines não seriam mais tolerados.

O Canal havia sido vendido para o grupo Hope Media, detentor dos grandes fenômenos da internet até o momento, como os canais de notícias I don't know what I am talking about e Yesterday News e da maior rede de amizades do mundo, My Kut .

Era a primeira vez que o grupo contratado entrava na redação do novo Canal sob o comando da HM .

- Espera aí. Como assim?

- Mais o que é isso?

- Não acredito!

- Meu Deus!!!

Tudo havia sido mudado dentro das quatro paredes. Móveis novos dispostos de maneira mais organizada e computadores de última geração. O sistema operacional dos micros também já não era mais o mesmo. O Doors aparentava ser bem mais estável e dispunha das ferramentas mais avançadas para redações de jornalismo até então.

O clima ainda era de festa e reconhecimento do território, quando o telefone tocou pela primeira vez. Era o presidente da HM convocando uma reunião para dar as boas-vindas e desejar sorte a todos os “novos” funcionários. Logo após a cerimônia, dava-se início à primeira reunião de pauta efetiva do Canal da Imprensa 2.0, como estava sendo chamado pelos articulistas.

Enquanto alguns discutiam os assuntos a serem tratados nas primeiras atualizações, os responsáveis pela arte e postagem do site já se movimentavam para colocar na rede a nova versão do Canal , que entraria no ar em definitivo ao meio-dia daquela segunda-feira. Não havia mais necessidade de passar noites em claro para postar as atualizações. Primeiro porque todos os dias seriam inseridos novos textos e, segundo, os articulistas passaram a ter seus deadlines em dias diferentes.

O horário de lançamento do site foi escolhido devido ao eclipse do sol que ocorrera no dia. A idéia era mostrar que um novo ciclo estava por começar. A Agência Zoom, responsável pela divulgação do Canal 2.0 , estava por trás de todo o marketing envolvendo o veículo. Com o slogan Ao meio-dia, abuse do azul , a parceria Hope Media e Canal da Imprensa ficou conhecida em todo o País.

Ao meio-dia a agência parou. Na grande TV de LCD disposta na Redação entrava no ar, pela primeira vez, o novo Canal da Imprensa – a mídia analisada pela mídia .

Porém, ao meio-dia e um.

- OK pessoal, todos já viram o site. Mãos à obra. E lembrem-se, já temos deadline para hoje na sessão História de mídia – disse o chefe de redação brecando o entusiasmo de todos.

O “impreterivelmente” das pautas geradas nas reuniões diárias passou a ter o significado real da palavra, contrapondo-se ao “impreterivelmente” de antes, quando o significado era entendido como “agradecemos, se possível”. Os atrasos não poderiam mais acontecer, pois algumas colunas seriam atualizadas em dias fixos. Não haveria desculpas.

Toda a estrutura que o Canal da Imprensa tinha enquanto veículo universitário e independente prosseguiu na nova fase, incorporando novas editorias, sempre ligadas à imprensa. Porém, a total liberdade em se tratar dos assuntos já não era a mesma.

Na terça-feira, durante a segunda reunião de pauta.

- Andei lendo algumas coisas sobre o I don't know what I am talking about e descobri que eles não sabem do que estão falando – expôs o articulista.

- Pegando um gancho no que ele disse, descobri também que o Yesterday News manipula as notícias, expondo-as sempre um dia depois do acontecido – completa a cronista.

O chefe de redação, mais uma vez, breca o entusiasmo de todos.

- Vocês sabem para qual grupo esses dois veículos trabalham? – questiona.

A sala permaneceu sem nenhum barulho por instantes. Dava-se apenas para ouvir alguns ruídos de bichos vindos dos fundos da agência, em especial de um grilo.

- A I don't know e Yesterday , assim como o Canal , pertencem ao mesmo grupo – explica. Será impossível falarmos de ambos nessas condições. Vocês entendem, correto?

O clima ficou pesado na sala de reunião. Os articulistas revoltaram-se com a posição tomada pelo superior sobre o assunto. Após o término da conversa, todos estavam dispensados para realizar suas tarefas. Porém, um murmurinho se fez presente durante boa parte do expediente.

- Como é que ele nos diz uma coisa daquelas como jornalista que é? – questiona o articulista cerceado. Antigamente, ele seria o primeiro a apoiar a pauta.

- Verdade. Mas acho que dá pra entender, não é mesmo? Imagine a seguinte situação: você é o dono de uma empresa e seu funcionário descobre algo não muito agradável sobre ela. Você gostaria que ele saísse por aí falando tudo? Ele até que não foi rude conosco – responde a companheira.

- Eu sei. Mas se fosse antes, isso não aconteceria. Em outros tempos, tínhamos nossa liberdade de escrever. Claro que algumas vezes errávamos, mas acho que o saldo sempre foi positivo, caso contrário não teríamos a estrutura que temos hoje, como empresa privada – completa. No entanto, gosto do jornalismo como ele tem de ser.

- Eu também gosto, porém existem restrições que devemos seguir. E não falar mal de um veículo do grupo em que você trabalha faz parte do pacote – explica a amiga.

E seguiram trabalhando normalmente.

Com o passar dos dias, o Canal da Imprensa 2.0 se alimentava de mais e mais artigos escritos pelos universitários, tanto contratados como estagiários. Os telefones da Redação tocavam mais a cada expediente e a caixa de e-mails dos responsáveis passaram a receber cada vez mais currículos, inclusive de jornalistas que já haviam trabalhado em grandes centros de comunicação.

Como empresa privada, o Canal somente cresceu e se tornou uma referência na análise de conteúdo midiático no em toda a América Latina. Os veículos I don't know what I am talking about e Yesterday News entraram em crise e fecharam seus endereços na web. Ambos passaram a ter editorias dentro do Canal com os nomes “As mentiras da mídia” e “Aconteceu no passado”, respectivamente.

Com o sucesso, outras grandes empresas da internet se interessaram pelo Canal , oferecendo milhões por sua aquisição. Todas sem sucesso.

Algum tempo depois, o Canal da Imprensa dava sinais de caminhar com as próprias pernas, até que se separou de fato da Hope e criou a Imprensa Express . Agora, “dona do próprio nariz” e privada, dava os primeiros passos ao Canal da Imprensa 3G , a mais nova sensação da internet.