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| Além do quê? | |||||||
| Carina Bentlin | |||||||
| Analisar, ver, rever, pensar, repensar, pensar de novo. Entender e interpretar um fato, uma notícia ou um conceito não é tarefa fácil. Ligar pontos a acontecimentos e fazer a leitura das entrelinhas requer a bela e sagaz habilidade de tecer uma colcha de retalhos, desmembrando assim o emaranhado de informações. Informações que ora se chocam, se estranham, confundem-se entre si. Antes de propor uma opinião é preciso estar inteirado ao assunto. Se a opinião não está clara, se há algo confuso, certamente houve algum descuido no momento de entender o todo. A editoria Debates , que posteriormente se transformou na editoria Além dos Fatos , surgiu com uma proposta audaciosa e um tanto arriscada. Estudantes de jornalismo, ainda em processo de aprendizado começariam a opinar e debater sobre mídia. Um curso novo, uma turma nova, uma nova proposta com as primeiras edições experimentais pré-discutidas. O “experimentar” traz um quê de inovação e risco. Um risco que surge com a necessidade de romper, de ser. Mas a cada romper de uma idéia que já foi concebida, surge uma nova construção, e depois, a necessidade de romper novamente. Ao menos, a construção criativa deveria partir daí. Muitos devem ter pensado que a idéia fosse pretensiosa. No entanto, pretensioso é achar que esta prática de entendimento dos acontecimentos que nos cercam, deve ficar para depois, para um segundo momento, quando já houver experiência suficiente. Os primeiros artigos da editoria trazem essa vivacidade de quem se joga para o novo. Os textos são gritos de quem quis se fazer escutar. Na primeira edição, sobre a censura, em agosto de 2002, Fernando Torres parece ter desabafado algo que estava entalado na garganta: “Passados 172 anos da morte de Líbero Badaró, 34 do pronunciamento do AI-5, 27 da morte de Herzog e 12 da invasão na Folha , o que temos? "Liberdade de expressão", diria o leitor viciado na imprensa marrom. Será?”. Temas pontuais que não saem da discussão jornalística foram pautadas ainda no começo do Canal como lead, sensacionalismo, corporações, política e poder, diploma, entre outros. E a Debates ali, neste meio campo, oferecendo para o leitor um convite para re-ler. As primeiras edições devem ser analisadas com um olhar materno, por assim dizer. Aquele olhar que vê o filho aprendendo, tropeçando, caindo, mais seguindo em frente, ávido para aprender, conhecer, tatear o mundo. Deveriam ensinar na escola formal e na escola da vida, de alguma forma, que antes de lermos os textos, precisamos aprender a ler o mundo. Isso, ler o mundo. Precisamos exercitar o nosso olhar. Fazer com que ele transpasse o nosso campo de visão (que muitas vezes está na mísera distância de “um palmo à frente do nariz”), uma junção de ver, entender e sentir. Tentar entender é também um exercício de humildade. |
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